quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

GAUDETE !

Alegria!...
Foi o tema do último domingo, em que se celebra, de maneira especial, a alegria, a felicidade pela vinda do Menino que já vem a caminho, já está próximo. Ele que já veio há dois mil anos e continua presente.
Essa alegria pede-a o padre Tolentino de Mendonça nas palavras que se seguem:
Visite-nos, Senhor a tua alegria.
Seja ela o dom que sustém esta hora da nossa vida.
Tenha o poder de reedificar o caído,
de aclarar a tenda que a noite atribulou, 
de unir aquilo que a tristeza ou o cansaço interromperam.
Seja ela o sinal da leveza com que nos vês,
a carícia que nos estendes no tempo,
o assobio que inaugura as tréguas.
Dá-nos Senhor, neste tempo,
a alegria como alento revitalizador.
Inscreva ela em nós o sabor
da vida abundante e multiplicada;
perfume cada um dos nossos gestos;
Traga às nossas palavras a luz das estrelas
que emprestam à noite uma inesquecível doçura.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Interrogações

Hoje, quando saía da missa na Basílica da Estrela, uma criança pedia à porta. Não foi isso que me impressionou mas sim o diálogo que ouvi. Uma senhora aproximou-se dela e deu-lhe qualquer coisa dizendo que era para o Natal. E a criança, com os olhos muito abertos, perguntou: E o que é o Natal?

Não sei qual foi a resposta da senhora porque me vim embora a pensar que tinha feito essa mesma pergunta aos meus alunos do Catecismo e que eles me tinham falado em festa, em ceia, em presentes, em família, em alegria... apenas um me disse que era a vinda de Jesus. E os outros , contestatários reclamando : Isso também nós sabíamos... E ele, muito senhor de si : Sabiam mas não disseram!...
E é assim, realmente, que vivemos o Natal. Todos sabemos que o Natal é a comemoração da presença de Jesus entre nós, mas em primeiro lugar, lembramos a festa que é preciso preparar, os presentes que é  necessário comprar, a ceia que tem que ser organizada, a família que temos que convidar...
Tudo coisas importantes, que fazem parte do Natal, mas que não são o seu centro nem a sua razão.
Todos, mais ou menos,  com carinho, fazemos o presépio, maior ou menor, mais ou menos tradicional mas sempre com Maria, José, os pastores que foram os primeiros a receber a notícia, os anjos que a deram e... o Menino Jesus, evidentemente. Quem se esqueceria de o colocar?
Quando vou visitar o presépio de Machado Castro, na Basílica da Estrela, encantam-me as mil cenas ali representadas. Acredito que não estavam presentes em torno da gruta de Belém, que foi imaginação e arte do autor.
Mas, no fundo, representam o mundo de todos nós, presentes junto ao Menino de Belém. Precisamos de ter presente que o Natal é isto: um menino Deus que veio à terra há 2000 anos, por amor dos homens e continua presente porque continua a amar-nos.
Que neste Natal haja um momento para lhe dizermos que queremos estar com ele, com a nossa presença e o nosso amor e corresponder ao seu apelo de quem conta connosco.
                                Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sabedoria

" A sabedoria da vida não consiste em fazer aquilo de que se gosta mas em gostar do que se faz"
Esta é uma afirmação de Leonardo da Vinci que, quando a li a primeira vez, me impressionou verdadeiramente. É que, para mim, esta sabedoria da vida relaciona-se intimamente com felicidade, experiência, enriquecimento, o que pressupõe  uma conquista feita de esforço, de partilha, às vezes de abdicação.
Quando fazemos aquilo de que gostamos não precisamos, geralmente, de esforço, de renúncia, duma aceitação prévia. Fazemos uma escolha que nos agrada e basta sermos fiéis a essa escolha para ficarmos satisfeitos. A vida demasiado simples, demasiado ao nosso gosto, não nos ensina nada, não nos ajuda a crescer, não aumenta os nossos conhecimentos, não prepara a nossa santificação. Simplesmente, vamos alegremente, deixando que os dias passem , o tempo corra, a vida se realize.
É isto a Felicidade? Talvez!... Mas não aumentou a nossa virtude, a nossa experiência. Não constituiu uma sabedoria de vida, não nos enriqueceu nem fortaleceu o nosso querer.
A vida ensina-nos quando nos faz renunciar a nós mesmos , aos nossos gostos, aos nossos sonhos.
A vida muitas vezes traz-nos surpresas; coloca-nos em situações que não escolhemos nem desejámos; oferece-nos mudanças e pede-nos trabalhos que não fizeram parte dos nossos planos nem constituíram opção de vida.
É fácil? Não!... Mas aí entra a nossa acção o nosso querer, a nossa confiança em Deus, a certeza de que Ele quer a nossa felicidade e " não nos pede nada para além das nossas forças".
E quando chegamos a aceitar fazer , alegremente, aquilo que não escolhemos; quando nos empenhamos na actividade que se nos propõe e não desejámos; quando dizemos Sim a um plano que não é o nosso; quando procuramos gostar do que estamos a fazer e o fazemos com amor, então! enriquecemo-nos, aumentamos o nosso valor como pessoas, caminhamos para a santidade, alcançamos a sabedoria.
Leonardo da Vinci, afinal, também aprendeu a reflectir, e obteve a chave do conhecimento, a capacidade de construir uma Vida e nela "instalar" a Sabedoria.
Peçamos ao Pai que nos ajude a ver a vida por este prisma de optimismo e disponibilidade.
                                    Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

"Vagabundos e extravagantes"

A semana passada li um comentário de Marie-Alain Couturier que teria sido uma observação do Arcebispo de Rouen em referência ao desejo do P. Hermel de ser dominicano. Teria ele afirmado:" Mais um vagabundo para essa Ordem de extravagantes".
Esta observação do Arcebispo pode, à primeira vista, parecer demasiado imprópria e depreciativa em relação à Ordem dos Pregadores. Mas, se pensarmos bem e a lermos no seu contexto histórico, talvez fiquemos com outra opinião. 
A Ordem dos Pregadores é uma Ordem dita "mendicante", uma vez que São Domingos queria que os seus frades não tivessem bens próprios, o que não parecia lógico nem comum naqueles tempos. Depois, era uma Ordem fundada para a pregação, onde e quando fosse necessária. Logo, uma Ordem de itinerantes, que se deslocavam de local para local, onde era necessário levar a palavra de Deus.
Ainda, uma Ordem de estudiosos, de homens que tinham assumido que um dos pilares da sua vida era o estudo, ao mesmo tempo que a contemplação e a pregação. Homens que pregavam a Palavra que tinham contemplado e que conheciam através do estudo.
Tudo coisas que, certamente, contrastavam com os costumes e princípios pré-estabelecidos do Arcebispo.
Fácil de compreender, naqueles tempos, esta Ordem de homens que pregavam contra a heresia e o desconhecimento? Homens " sem eira nem beira" que deambulavam e falavam para um público que nem sempre os conseguia ouvir? Não!.. não era fácil. Daí o comentário um pouco agreste e incisivo do Arcebispo de Rouen.
Mas ainda hoje é um pouco assim que se avaliam os Dominicanos... Uma Ordem que se mantem muito livre, aberta aos sinais dos tempos, independente, ciente das suas convicções. Numa palavra, se entendermos "extravagante" sem o sentido depreciativo, talvez não lhe assente muito mal. Mas são extravagantes que estudam , que pretendem deixar uma doutrina sólida e que fizeram muitos santos. Quantos não passarão ao nosso lado tentando "tornar grandes todas as coisas"!...
                          Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Santos que não nasceram santos


A semana passada a Igreja celebrou a festa de Santo Ambrósio Bispo e doutor da Igreja.É uma festa fora do vulgar; ou melhor, o bispo é que teve uma eleição que está fora daquilo  a que estamos acostumados. É que santo Ambrósio é Bispo e, na realidade nem padre era. Simplesmente, como diríamos hoje, um autarca simples e bom.

Era de origem grega e fez os seus estudos, de jovem nobre, em Roma e depois realizou a sua actividade em Milão, uma das cidades mais importantes. Era simples, justo e apreciado pelos seus concidadãos.
Viveu no século. IV  e,  teve como mestre Simpliciano que o preparou para o catecumenato  e que, portanto, o introduziu  também   na prática das virtudes cristãs.
Nessa época, eram os cristãos que escolhiam o seu Bispo e, conta a lenda, que foi uma jovem que lançou para o ar o nome de Ambrósio para ser o bispo, nome esse que foi acolhido com entusiasmo pela população que se juntara para proceder à eleição.
Fosse como fosse, o facto é que os cristãos de Milão o elegeram para bispo e não se arrependeram. Ele foi um exemplo de caridade, amor ao próximo, um servidor da Igreja e, com os seus escritos e pregação, um defensor da doutrina cristã contra o arianismo.
E porque um "grande homem" não passa sem deixar marcas, foi Santo Ambrósio que levou Santo Agostinho a converter-se. Foi o seu exemplo e o seu testemunho e, quem sabe? os seus sábios conselhos que fizeram do jovem inconstante e inconsequente o Santo consciente e sábio a quem a Igreja tanto deve.
                               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.


sábado, 7 de dezembro de 2013

Encontros que são alegrias

Encontro de Antigas Alunas ,hoje, aqui no Ramalhão!

Eram mais ou menos do mesmo tempo e até festejaram os anos duma delas, a Teresa. Alias, ela fez-se bem desejada pois nunca mais chegava e o almoço estava à espera. Mas que amigas pacientes!...
Depois, foram os abraços e os beijos e contaram-se histórias de há 30 anos; lembraram-se acontecimentos esquecidos por umas  e bem presentes na memória de outras; falou-se de professores e de castigos; de passeios e viagens, de alegrias e tristezas.
Mas, engraçado! elas próprias reconhecem que, do tempo que aqui passaram,o que pesa e as marca foram as coisas boas. As más... recordam-se algumas como acontecimentos que tiveram o seu lugar. E afirmam que o que são hoje o devem ao tempo que estiveram no Colégio e às boas influências a que estiveram sujeitas.
Depois do almoço, a visita à casa, à quinta, aos lugares onde tinham sido felizes.
Foi uma grande alegria para mim estar com todas estas pequenas (já grandes) alunas do Colégio. É sempre uma comoção e uma alegria . E tiraram-se fotografias, em grupo e individualmente. E voltaram-se a tirar porque as primeiras não ficaram bem... E fazem-se promessas de as enviar utilizando as novas tecnologias...
É por isso que ainda não tenho aqui nenhuma!...
Mas em contrapartida vou colocar a foto duma antiga professora cuja filha estava presente e até falou à mãe para eu ter oportunidade de a ouvir. Não a vejo há tantos anos e trabalhámos juntas tanto tempo...
São memórias, são presenças.
Gostaria que estes dias se repetissem mais, porque tornam presentes um "ontem" que queríamos que fosse base para um "àmanhã".
O meu obrigada a todas e a cada uma por quem já rezei esta noite.
E que, neste Natal, a Vinda de Jesus as encontre vigilantes.
               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Conto de Natal

                                   Conto de Natal


Tinha acabado a Missa do Galo. Terminara já a Ceia do Natal. Os membros da família, a pouco e pouco, haviam saído para regressar às suas casas.
Nós, os da “casa”, arrumada minimamente a sala, recolhidos os presentes que tinham cabido a cada um, acauteladas as virtualhas para o almoço do dia seguinte, como recomendara a minha avó, íamo-nos retirando para os nossos quartos.
Deitei-me e dormi.
Acordei sobressaltada com uma luz intensa que parecia vir do presépio pequenino que estava em cima da mesa do canto.
Levantei-me num pulo, impressionada com aquela luz e aquele Menino que parecia saltar da mesa.
Fui à janela e sosseguei. A luz não era senão a do candeeiro da rua cuja luminosidade entrava pelas cortinas abertas.
Tudo normal… Tudo natural…
Mas o sorriso do Menino, esse… estava lá. E estava lá também o Seu olhar, tão intenso que parecia fitar-me. E aquela voz, dentro do meu peito, igual à que um dia fora dirigida ao jovem rico: Queres?...
Sentei-me no chão a pensar. É Natal. Natal mais uma vez. Natal que se repete ao longo de dois mil anos. Natal!... Sempre igual e sempre novo.
E o Menino que continua a olhar-me e a perguntar: Queres?
E eu quero… mas o quê?
Continuo a olhar o Menino do meu presépio pequenino e compreendo que o que Ele quer é que O amemos e nos amemos uns aos outros, fazendo, de cada coisa pequenina, o nosso Sim, como Maria.
É já manhã e eu mantenho-me a olhar esse Menino que é Deus feito Homem e que sorri, porque espera um mundo diferente, em que o amor vença o ódio e a generosidade a indiferença.
Fico olhando e acabo adormecendo. E sonho com um mundo em que “o lobo e o cordeiro habitam juntos, o menino brinca na toca da serpente e o leão e o boi comem ambos palha”.
É isto o Natal: Um homem que olha outro homem e o trata como irmão” 
                          Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.