sábado, 4 de abril de 2015

O Grande silêncio

" E um grande silêncio se estendeu sobre a terra... "
Nesse silêncio relembro as estações da Via Sacra que ontem percorri. E mais um vez me detenho pensando no Cireneu, aquele homem que é instigado a levar a cruz de Jesus. É um estranho que passa " no lugar errado, à hora errada". E os soldados aproveitam para exigir que ele ajude a levar a cruz. Ninguém lhe pergunta se está disposto... se quer... se pode... Impõem-lhe uma acção que, noutras circunstâncias, seria uma caridade.
Mas o que sempre me choca, me impressiona, me faz pensar, não é bem o Cireneu e a sua ajuda. É antes a atitude de Jesus que se deixa ajudar por aquele estranho que os soldados lhe impõem.
Está demasiado cansado para protestar? Sabe quem é o homem que afinal não é um desconhecido? Acha que qualquer ajuda é bem vinda no seu estado de esgotamento?
Nada disso! Simplesmente é mais uma lição que Jesus nos quer dar. É preciso que olhemos para os que passam ao nosso lado, sejam eles quem forem. É importante que façamos calar o nosso orgulho e deixemos que nos ajudem, permitamos que toda e qualquer ajuda oferecida seja aceite.
Tantas vezes nos queixamos de não encontrar o consolo, o apoio, a ajuda dos amigos e não vemos a mão estendida que se nos oferece.
Tenhamos presente a lição de Jesus.

Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta-feira Santa

..." Jesus passou para o outro lado da corrente do Cédron..."
Ia com os Apóstolos, os seus amigos.Mas afastou-se deles para falar com o Pai, dizer-Lhe da Sua dor, da Sua angústia , da Sua aflição.
O Seu espírito estava pronto mas a Sua humanidade sofria a angústia dos acontecimentos que se aproximavam. Procurou o apoio dos apóstolos mas eles estavam a dormir... " Nem uma hora pudestes vigiar comigo?"
E a situação repete-se. Jesus continua na sua situação angustiante e os apóstolos a dormir...
Connosco também acontece assim, por vezes. Necessitamos uma palavra amiga mas os amigos estão longe, silenciosos... Mas estão! Os apóstolos também estavam...
Depois, Jesus coloca-se nas mãos do Pai e encontra o ânimo de que necessita. E diz aos apóstolos : " Podeis dormir agora!"
Mas já não há tempo. Chega Judas e os soldados. Jesus é preso. Inicia-se o seu percurso de Anás para Caifás, para o pretório, para Pilatos, para a multidão ululante que pede a Sua condenação: Crucifica-o; crucifica-o.
Pedro, cá fora, não tem coragem de afirmar a sua pertença ao grupo dos amigos de Cristo. Mas chora , quando o Senhor o olha. E, de longe, vai acompanhando o caminho até ao calvário.
Lá, do alto da Cruz, Jesus dá-nos a Sua mãe, antes das últimas palavras:
" Nas tuas mãos , ó Pai, entrego o meu espírito "
Ir.M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Última Ceia

Quinta feira Santa!
Festa da Eucaristia. Lembrança daquela última ceia, palco de tantos acontecimentos magníficos e emocionantes: o lava-pés, as contestações de Pedro, a instituição da Eucaristia, a denúncia do traidor, o mandamento novo...
Sentada no banco da nossa capela do Ramalhão revivi tudo isso ao mesmo tempo que relembrei uma ida a Milão, ao convento de Santa Maria delle Grazie que é património mundial da humanidade.
Mas não foi por isso que lá fomos.
Deslocámo-nos lá para admirar o fresco da Última Ceia de Leonardo da Vinci, que se encontra na parede central do antigo refeitório dos frades daquele convento dominicano.
E valeu a pena!
É que temos a sensação de estar lá, naquela sala em que Jesus quis viver a sua Última Ceia e deixar-no a Sua presença  como alimento. No silêncio que se estabeleceu, um silêncio de graça e de dom, parecia que tudo se tornava real :
Jesus, despindo o manto para lavar os pés aos apóstolos...        
Pedro recalcitrando, junto ao Mestre...
João, reclinado sobre o peito de Jesus, interrogando-o sobre o traidor...
Judas comendo o pão molhado e saindo precipitadamente...
Jesus instituindo a Eucaristia e recitando a Oração sapiencial...

E rezámos! silenciosamente, agradecendo a graça de estar ali, tal e qual como se estivéssemos em Jerusalém naquele fim de tarde.
Hoje, aqui, no Ramalhão, vamos repetir tudo isso.
Que cada um, na sua casa, na sua Igreja, na sua terra, agradeça o dom da oferta de Jesus, do Seu Amor por nós.
                 Ir.Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

terça-feira, 31 de março de 2015

Caminhando...

Estamos a viver uma semana em tudo igual e em tudo diferente das outras semanas do ano.
É um tempo cheio de Graças, de Mistério, de contradições.
É uma semana densa, pesada, em que mesmo sem querer temos uma sensação de desconforto, de tristeza, de perca. Parece que nos devemos sentar aos pés da cruz chorando todas as dores e todos os erros mas, ao mesmo tempo, sentimos que é preciso preparar a ressurreição que vai chegar, bem como a oferta eterna da presença de Cristo na Eucaristia.
É uma semana de contradições!
Jesus retirou-se discretamente porque "ainda não chegou a Sua hora"... Mas no seu coração certamente se sente já a angústia da hora que se aproxima :
"Pai que se faça a Tua vontade".
E a vontade do pai pressupõe humilhação, despojamento, dor, morte.
Durante estes dias de espera (digamos assim) os acontecimentos futuros vão passando pela mente de Jesus e a Sua humanidade  revolta-se, apesar do dom oferecido e aceite voluntàriamente.
"Pai, afasta de mim este cálice..." É a paixão e a morte mas também a traição de Judas, a negação de Pedro, o abandono dos Apóstolos, o sofrimento de Maria.
Nestes dias de espera, aguardando e preparando a Ressurreição, voltemos a dizer o nosso Sim, aquele que pronunciámos no dia da nossa escolha e, juntemo-nos a Jesus na Sua caminhada.
              Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.



domingo, 29 de março de 2015

Entrada em Jerusalém

                                                                                                       
                                                                                                       
                                                     Começamos a Semana Maior.


Maior, não porque tenha mais dias que as outras. mas porque é mais fértil em acontecimentos, factos que provocam a nossa reflexão, contradições...
Contradições que nos surpreendem e emocionam, dando-nos motivo para grandes interrogações.
Hoje, a multidão em festa aclama Jesus como o seu rei, acompanha-o triunfalmente até Jerusalém.
Daqui a três dias, a mesma multidão (ou outra, não importa) em fúria, pede a condenação do mesmo Jesus.
São as contradições dos homens!... 
Mas também a de Deus que oferece o Seu Filho, muito amado, para salvação dos homens, Seus filhos também.
Acompanhemos Jesus nesta procissão dos ramos. Cantemos Hossanas ao Filho de David; acompanhemos a multidão que saúda aquele que julgam os vai libertar da escravidão do povo estrangeiro. Nós sabemos que a libertação é outra, a que pressupõe dor, morte mas , depois, ressurreição.
É um Rei ressuscitado aquele em que acreditamos, um Rei que nos oferece um reino formado na dor e centrado na Verdade: um reino de desprendimento, de alegria, de dom e de partilha.
É para esse reino que Jesus nos convida neste domingo, um reino de glória e drama antecipados. Queremos desiludi-Lo?
                   Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Anunciação

                          Solenidade da Anunciação de Jesus



Maria... uma jovem simples , amando a Deus a quem prometera fidelidade, filha dum casal vulgar de Nazaré... Vivendo numa cidade como tantas outras... Prometida a José...
Um dia... Um anjo enviado por Deus, fala-lhe e modifica todos os seus projectos. Mas ela, embora expectante, diz sim. E com o seu sim colabora na História da salvação.
Somos como Maria, confiantes e disponíveis? Ou não deixamos que nos transtornem os planos?
Mas não nos esqueçamos que os planos de Deus não são os nossos planos.
                               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Inseguranças

A vida muitas vezes surpreende-nos, alterando os nossos projectos, as nossas intenções e até as nossas  "margens de segurança". Deixa-nos "sem graça" como dizem os brasileiros; atordoados, dizemos nós.
Outro dia, em casa, desfolhando albuns de família antigos, deparei com as fotografias da formatura dos meus sobrinhos. As dos mais velhos já um pouco desvanecidas; a da mais nova brilhante, porque muito recente. No meio, também a minha, que não sonhava encontrar naquela "galeria de recordações".
E relembrei aquele dia da bênção das pastas com aquelas 8 fitas azuis penduradas : a do sr. Cardeal, dos pais, dos irmãos, da família, do noivo, dos professores, dos colegas , dos amigos...
Por acaso, até só tenho sete porque uma amiga ficou-me com a fita. Mas não faz mal. Os verdadeiros Amigos estão no coração, não é verdade?
E depois... sete não é um número bíblico? As sete pragas do Egipto... os sete pecados mortais... o perdão setenta vezes sete... os sete sacramentos...
Mas, não foi aqui que a Vida me surpreendeu. De alguma maneira era um fim previsível, uma vez que tinha um curso a meio e servia para dar aulas...
As surpresas, os confrontos, vieram depois, nos "sins" e nos "nãos" que foi preciso dar, nas propostas e alterações que me apresentou, nos sonhos que me acalentou e nas realidades em que me projectou. No "hoje" que já foi "ontem".
É de luz e trevas o nosso caminho, de sombras e sol, de alegrias e inquietações.
Mas... para que nos serve a Fé se não acreditamos que "não nos cai um cabelo da cabeça sem que Deus o permita"? Onde está a nossa Esperança se não acalentamos a certeza de que Deus "que alimenta as aves do céu" está presente em cada um dos nossos passos?
É com Fé e Esperança que temos que viver.
O mas... o apesar de... o mesmo que... o talvez... são dúvidas que não podem ter lugar numa vida em que Cristo é o centro.
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.