segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A lei dos afectos

Acabei de ler a frase de um santo dirigida a Deus a qual me impressionou: "Não me tires, Senhor, os afectos mas acrisola-os".
E isto, deu-me que pensar. É que o afecto, a manifestação de amor, é uma necessidade da nossa alma. Sem afecto, ficamos secos, duros, estéreis, no sentido amplo do termo. Incapazes de amar e de nos deixarmos amar.
Todos nós procuramos nos outros , nalguns dos outros pelo menos, o campo em que possamos espalhar os nossos afectos, os nossos interesses, as nossas alegrias e angústias. Todos nós temos necessidade de Amigos em "casa" de quem nos refugiemos para partilhar, tal como Jesus com Lázaro, Marta e Maria.
Também o Mestre tinha um "discípulo que Ele amava" , que distinguia dos demais, muito embora não diminuísse em nada a estima que tinha pelos outros.Por isso, não é estranho este pedido dirigido ao Pai: Não me tires os afectos...
Também nós não queremos perder as amizades, ver afastar os que estimamos, "estragar" afectos que dilatam o coração e nos fazem melhores.
Mas claro que todas as Amizades têm que ser "limadas" porque sempre pomos nelas uma quota parte de egoísmo, sempre pensamos  um bocadinho mais em nós e nos nossos interesses que nas dificuldades ou necessidades dos Amigos. Sempre nos preocupamos mais com os nossos interesses imediatos do que com aquilo que era bom ou importante para os outros.
Quantas vezes não ocupamos o tempo dos Amigos com as nossas "coisas" esquecendo-nos que também eles têm coisas para fazer e quiçá para dizer ou mesmo para dar?!...
É por isso que concordo que os afectos têm que passar pelo crisol do respeito, da disponibilidade, da doação, da generosidade.
Mas, Senhor, mantem-nos esta capacidade de amar que é o dom que nos deixaste.
Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sábado, 8 de novembro de 2014

Tristezas e alegrias da História

25 anos sobre a queda do muro de Berlim! A Alemanha está a comemorar o acontecimento e tem razão para isso. O mundo mudou e ela foi a primeira a testemunhá-lo,
A queda do muro de Berlim não foi só a possibilidade da unificação da Alemanha, a felicidade do reencontro de famílias separadas há 30 anos, o grito de liberdade para todos. Foi muito mais do que isso, porque afectou positivamente toda a Europa, dando-lhe a liberdade de expressão e de vida. E por que não dizer da mudança para todo o mundo? Claro que também houve excessos, erros, deficiências... É inevitável. Mas o saldo é positivo.
No meio de toda a euforia das comemorações, ouvi ontem na TV que alguém tinha retirado algumas das cruzes que, no lugar mítico do muro, assinalavam o sítio em que tinham morrido os que tentavam saltar.
E retirado, para quê? Disse o repórter, para as colocar noutro lugar em que fossem  uma chamada de atenção para o facto de que muitos ainda não têm as mesmas possibilidades do povo da Alemanha.
Realmente ainda muitos homens e mulheres ,no mundo,estão longe de ser livres, de poderem expressar as suas ideias, de viver ao seu gosto, a sua vida.
E é para testemunhar esta realidade que aquelas cruzes foram levadas. Serão colocadas algures num ponto onde indiquem que são a voz dos que não têm voz, são a expressão dos que não podem exprimir-se, são a vida dos que não têm vida própria.
Que não nos esqueçamos nunca de todos esses que o mundo às vezes parece esquecer e, se não podemos fazer mais nada,ao menos podemos rezar  Podemos ter presentes, junto do Pai, aqueles que sofrem , aqueles que não foram abrangidos pela felicidade da queda do muro de Berlim.
                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ao encontro da paz

Paz!... é um desejo que parece nascer no coração de todos os homens. Surge em todas as discussões ou encontros como "pano de fundo" digamos assim.
Reza-se pela paz... os países dialogam em torno do processo de paz... assinam-se acordos de paz... Mas, em contrapartida, os noticiários, os jornais, a rádio, a televisão, bombardeiam-nos com notícias de guerra, de lutas, de mortes.
E tudo isso, estas ideias e acções contraditórias quase nos fazem esquecer aquela outra paz, a paz interior, aquela quietude serena que por vezes nos envolve e nos enche de Deus. Às vezes nos sítios e ambientes mais inesperados.
Recordo sempre com emoção a visita que fiz, uma vez, a uma igreja dum convento que me era desconhecido.
A primeira impressão foi desagradável. Quase me senti esmagada pelo peso do cimento envolvente; chocada com a luminosidade que emanava dos bancos de madeira; admirada com o jardim que se podia observar duma janela lateral.
Tudo estranho. Tudo perturbador. Tudo diferente daquilo a que estava habituada.
Sentei-me diante do sacrário, a única coisa que, desde o primeiro instante ,me deslumbrou, me seduziu. Não sei se me sentei para rezar, para apreciar e compreender o que me rodeava ou, ao contrário, abstrair dessa sensação de desconforto que me inquietava.
Mas a verdade é que, ao olhar aquele sacrário me senti bem, descontraída, envolvida por uma paz e serenidade como há muito não sentia. Esqueci tudo o resto e só agradeci aquela alegria interior que me invadiu.
Já lá vão dois anos mas lembro-me como se fosse hoje e gostava de me sentir como naquele dia, naquela igreja , naquele banco em que parecia ser apenas Deus e eu..
Não sei se rezei,  não me lembro se disse alguma coisa àquele Senhor que parecia olhar-me... Mas do que tenho a certeza é que a Paz, aquela que Jesus nos prometeu,me encheu o coração.
E também tenho a certeza que essa paz não fui eu que a pedi; foi Deus que ma ofereceu e eu a aceitei.
Procuremos abrir o coração a esta paz que é dom, é oferta.
                           Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Qual a razão do sofrimento?

Paul Claudel traz muitas vezes a resposta mesmo às perguntas que não nos atrevemos a fazer. Ontem encontrei esta, perdida no meio de apontamentos vários: "Cristo não veio suprimir o sofrimento, mas enchê-lo coma Sua presença; não veio explicar a cruz mas deitar-se nela " .
Claro que podemos ver esta resposta de dois ângulos diferentes e podemos utilizá-la como uma explicação simplista para a atitude de desânimo e e resignação que tantas vezes é a nossa.
Mas, é uma utilização errada, uma falsa interpretação, sobretudo se pensarmos na atitude amorosa e consoladora de Jesus face aos doentes, qualquer que seja o seu mal. Basta lembrarmo-nos do texto de ontem e 
daquela mulher enferma há 18 anos. Ela entra no Templo sem qualquer pensamento reservado, sem fazer qualquer pedido. É Jesus que a vê, que se compadece dela e a cura. Aliás, Ele fez assim com muitos outros doentes: uns que solicitam a sua ajuda; outros que só lhe mostram o seu estado; outros ainda que apenas estão próximo, com os seus males, as suas dores.
É claro que podemos sempre interrogar-nos : Se Jesus é todo compaixão, por que sofremos ? Se Jesus quer a paz na Terra, porque permite a guerra?
Para estes factos a ciência e a filosofia arranjam sempre mil explicações, umas mais interiorizantes do que outras... mas, para o cristão, o sofrimento e a morte fazem parte dum todo que é a Vida. E esta Vida, é a missão que temos que realizar na Terra e que vai encontrar no céu a plenitude .
Aliás, se pensarmos no Amor de Jesus por nós que O levou a entregar a Vida pelos Homens, percorrendo o caminho do sofrimento e da dor, que o conduziu até à cruz, temos um incentivo para não ver a dor apenas pela negativa mas descobrir nela a presença do Amor. E assim, não enveredar pelo desespero nem pela resignação.
                 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.                                       

sábado, 25 de outubro de 2014

A vocação a que fomos chamados


Ouvir comentar o capítulo 4 da Epístola de S. Paulo aos Efésios, por uma pessoa com dom de palavra e vida interior, causa uns certos arrepios na espinha.
É que S. Paulo faz uma chamada de atenção aos Efésios que nos diz também respeito a nós: " Exorto-vos... a andardes de modo digno da vocação a que fostes chamados, com humildade, mansidão... suportando-vos uns aos outros..."
E aqui, põe-se-nos a primeira questão : Estamos conscientes de que fomos chamados? Qual a vocação a que Deus nos chamou? Como a estamos a viver? Como correspondemos a essa vocação, qualquer que ela seja?
E S. Paulo tinha acrescentado ..." suportando-vos com amor, procurando conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz"
E agora outra pergunta , igualmente oportuna : Como trabalhamos para a unidade? Onde encontramos o amor, dom do Espírito e contributo para a construção da paz ?
E S. Paulo continua lembrando:" ... é uma só a esperança da vocação com que fostes chamados...Há um só Senhor, uma só Fé , um só baptismo, há um só Deus e Pai de todos"
É  uma forma de consolação, talvez, mas também um incentivo e um "despertador " para as nossas faltas de certezas, as nossas dúvidas, as nossas frustrações.
Mas no fim, Paulo deixa-nos uma certeza: " a cada um de nós foi dada a graça pela medida do dom de Cristo" . E Cristo deu-nos um dom infinito que foi a Sua vida, morte e ressurreição; que é a Sua presença na Eucaristia.
Vale a pena ler, devagarinho, este capítulo da Epístola de S. Paulo aos Efésios.
                         Ir. maria Teresa de carvalho Ribeiro,O.P.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

800 anos depois...

Pensando nos Dominicanos, nos seus conventos, nas suas actividades, na sua fundação, constatei que em 2016 fará 800 anos de existência  a Ordem dos Pregadores - os Frades Dominicanos como vulgarmente são conhecidos.
800 anos... 8 séculos... milhares de frades e freiras espalharam-se pelos cinco continentes, constituíram uma variedade de Províncias, dedicaram-se a difundir a verdade e o bem. Em toda a parte exerceram a sua missão evangelizadora, de pregadores que são.
E há santos e mártires; Bispos e Papas; religiosos e religiosas; frades e Irmãos cooperadores; monjas e fraternidades leigas...
Muitas Universidades foram criadas pelos Dominicanos; em muitas outras são eles professores. Muitos colégios são obra e trabalho de Dominicanos e Dominicanas; em muitas paróquias há a marca do seu trabalho , da sua pregação, da sua vida.
E no entanto, quantas pessoas conhecem realmente a vocação dominicana , a sua origem, a figura e vida do seu fundador? Quantos jovens o procuram seguir?
Quem sabe que S. Domingos  era cónego da catedral de Osma e que foi depois de uma viagem ao norte da Europa, como companheiro do seu Bispo - Diego de Osma , que teve contacto com a heresia de Tártaros e Albigenses e aí começou o seu apostolado?
Quem conhece a preocupação de S. Domingos pela pregação da Verdade e portanto a necessidade de arranjar colaboradores que, com ele, levassem ao mundo a pregação mas também o testemunho de vida?
Quem compreende que um ano após a constituição do 1º convento em Toulouse, S. Domingos tenha enviado os seus Frades, dois a dois, a pregar pela Europa?
Quem sabe que o 1º convento da Ordem Dominicana , em Prouille, se destinou não a Frades mas a um grupo de mulheres convertidas da heresia  e que pretendiam seguir Domingos? Eram monjas e , como as de hoje, não pregavam nem exerciam qualquer forma de apostolado exterior...

Quem alguma vez leu que um dos prémios Nobel da Paz foi entregue em 1958 a um Dominicano belga - Frei Dominique Pire - pela sua liderança do "Europe du coeur au service du monde" associação que ele fundou para ajuda dos que sofriam, depois da 2ª Grande Guerra?
Quem consegue perceber o que são os conventos dominicanos e qual a importância que tiveram e têm nas cidades e na cultura?
Quem, por curiosidade, foi investigar e descobriu que os Jogos Olímpicos tiveram o seu início no sec. XIX num convento dominicano, perto de Grenoble?
Quem já ouviu dizer que os quatro pilares da vida dominicana são a oração, o estudo, a pregação e a vida comum?
Será que hoje se considera difícil ser Dominicano/a?
Talvez seja a hora dos jovens deste tempo procurarem saber as respostas a estas perguntas e compreenderem que Deus continua a chamar hoje, como há 8 séculos, para se fazerem filhos e filhas de S. Domingos.
                     Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.