quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ao encontro da paz

Paz!... é um desejo que parece nascer no coração de todos os homens. Surge em todas as discussões ou encontros como "pano de fundo" digamos assim.
Reza-se pela paz... os países dialogam em torno do processo de paz... assinam-se acordos de paz... Mas, em contrapartida, os noticiários, os jornais, a rádio, a televisão, bombardeiam-nos com notícias de guerra, de lutas, de mortes.
E tudo isso, estas ideias e acções contraditórias quase nos fazem esquecer aquela outra paz, a paz interior, aquela quietude serena que por vezes nos envolve e nos enche de Deus. Às vezes nos sítios e ambientes mais inesperados.
Recordo sempre com emoção a visita que fiz, uma vez, a uma igreja dum convento que me era desconhecido.
A primeira impressão foi desagradável. Quase me senti esmagada pelo peso do cimento envolvente; chocada com a luminosidade que emanava dos bancos de madeira; admirada com o jardim que se podia observar duma janela lateral.
Tudo estranho. Tudo perturbador. Tudo diferente daquilo a que estava habituada.
Sentei-me diante do sacrário, a única coisa que, desde o primeiro instante ,me deslumbrou, me seduziu. Não sei se me sentei para rezar, para apreciar e compreender o que me rodeava ou, ao contrário, abstrair dessa sensação de desconforto que me inquietava.
Mas a verdade é que, ao olhar aquele sacrário me senti bem, descontraída, envolvida por uma paz e serenidade como há muito não sentia. Esqueci tudo o resto e só agradeci aquela alegria interior que me invadiu.
Já lá vão dois anos mas lembro-me como se fosse hoje e gostava de me sentir como naquele dia, naquela igreja , naquele banco em que parecia ser apenas Deus e eu..
Não sei se rezei,  não me lembro se disse alguma coisa àquele Senhor que parecia olhar-me... Mas do que tenho a certeza é que a Paz, aquela que Jesus nos prometeu,me encheu o coração.
E também tenho a certeza que essa paz não fui eu que a pedi; foi Deus que ma ofereceu e eu a aceitei.
Procuremos abrir o coração a esta paz que é dom, é oferta.
                           Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Qual a razão do sofrimento?

Paul Claudel traz muitas vezes a resposta mesmo às perguntas que não nos atrevemos a fazer. Ontem encontrei esta, perdida no meio de apontamentos vários: "Cristo não veio suprimir o sofrimento, mas enchê-lo coma Sua presença; não veio explicar a cruz mas deitar-se nela " .
Claro que podemos ver esta resposta de dois ângulos diferentes e podemos utilizá-la como uma explicação simplista para a atitude de desânimo e e resignação que tantas vezes é a nossa.
Mas, é uma utilização errada, uma falsa interpretação, sobretudo se pensarmos na atitude amorosa e consoladora de Jesus face aos doentes, qualquer que seja o seu mal. Basta lembrarmo-nos do texto de ontem e 
daquela mulher enferma há 18 anos. Ela entra no Templo sem qualquer pensamento reservado, sem fazer qualquer pedido. É Jesus que a vê, que se compadece dela e a cura. Aliás, Ele fez assim com muitos outros doentes: uns que solicitam a sua ajuda; outros que só lhe mostram o seu estado; outros ainda que apenas estão próximo, com os seus males, as suas dores.
É claro que podemos sempre interrogar-nos : Se Jesus é todo compaixão, por que sofremos ? Se Jesus quer a paz na Terra, porque permite a guerra?
Para estes factos a ciência e a filosofia arranjam sempre mil explicações, umas mais interiorizantes do que outras... mas, para o cristão, o sofrimento e a morte fazem parte dum todo que é a Vida. E esta Vida, é a missão que temos que realizar na Terra e que vai encontrar no céu a plenitude .
Aliás, se pensarmos no Amor de Jesus por nós que O levou a entregar a Vida pelos Homens, percorrendo o caminho do sofrimento e da dor, que o conduziu até à cruz, temos um incentivo para não ver a dor apenas pela negativa mas descobrir nela a presença do Amor. E assim, não enveredar pelo desespero nem pela resignação.
                 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.                                       

sábado, 25 de outubro de 2014

A vocação a que fomos chamados


Ouvir comentar o capítulo 4 da Epístola de S. Paulo aos Efésios, por uma pessoa com dom de palavra e vida interior, causa uns certos arrepios na espinha.
É que S. Paulo faz uma chamada de atenção aos Efésios que nos diz também respeito a nós: " Exorto-vos... a andardes de modo digno da vocação a que fostes chamados, com humildade, mansidão... suportando-vos uns aos outros..."
E aqui, põe-se-nos a primeira questão : Estamos conscientes de que fomos chamados? Qual a vocação a que Deus nos chamou? Como a estamos a viver? Como correspondemos a essa vocação, qualquer que ela seja?
E S. Paulo tinha acrescentado ..." suportando-vos com amor, procurando conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz"
E agora outra pergunta , igualmente oportuna : Como trabalhamos para a unidade? Onde encontramos o amor, dom do Espírito e contributo para a construção da paz ?
E S. Paulo continua lembrando:" ... é uma só a esperança da vocação com que fostes chamados...Há um só Senhor, uma só Fé , um só baptismo, há um só Deus e Pai de todos"
É  uma forma de consolação, talvez, mas também um incentivo e um "despertador " para as nossas faltas de certezas, as nossas dúvidas, as nossas frustrações.
Mas no fim, Paulo deixa-nos uma certeza: " a cada um de nós foi dada a graça pela medida do dom de Cristo" . E Cristo deu-nos um dom infinito que foi a Sua vida, morte e ressurreição; que é a Sua presença na Eucaristia.
Vale a pena ler, devagarinho, este capítulo da Epístola de S. Paulo aos Efésios.
                         Ir. maria Teresa de carvalho Ribeiro,O.P.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

800 anos depois...

Pensando nos Dominicanos, nos seus conventos, nas suas actividades, na sua fundação, constatei que em 2016 fará 800 anos de existência  a Ordem dos Pregadores - os Frades Dominicanos como vulgarmente são conhecidos.
800 anos... 8 séculos... milhares de frades e freiras espalharam-se pelos cinco continentes, constituíram uma variedade de Províncias, dedicaram-se a difundir a verdade e o bem. Em toda a parte exerceram a sua missão evangelizadora, de pregadores que são.
E há santos e mártires; Bispos e Papas; religiosos e religiosas; frades e Irmãos cooperadores; monjas e fraternidades leigas...
Muitas Universidades foram criadas pelos Dominicanos; em muitas outras são eles professores. Muitos colégios são obra e trabalho de Dominicanos e Dominicanas; em muitas paróquias há a marca do seu trabalho , da sua pregação, da sua vida.
E no entanto, quantas pessoas conhecem realmente a vocação dominicana , a sua origem, a figura e vida do seu fundador? Quantos jovens o procuram seguir?
Quem sabe que S. Domingos  era cónego da catedral de Osma e que foi depois de uma viagem ao norte da Europa, como companheiro do seu Bispo - Diego de Osma , que teve contacto com a heresia de Tártaros e Albigenses e aí começou o seu apostolado?
Quem conhece a preocupação de S. Domingos pela pregação da Verdade e portanto a necessidade de arranjar colaboradores que, com ele, levassem ao mundo a pregação mas também o testemunho de vida?
Quem compreende que um ano após a constituição do 1º convento em Toulouse, S. Domingos tenha enviado os seus Frades, dois a dois, a pregar pela Europa?
Quem sabe que o 1º convento da Ordem Dominicana , em Prouille, se destinou não a Frades mas a um grupo de mulheres convertidas da heresia  e que pretendiam seguir Domingos? Eram monjas e , como as de hoje, não pregavam nem exerciam qualquer forma de apostolado exterior...

Quem alguma vez leu que um dos prémios Nobel da Paz foi entregue em 1958 a um Dominicano belga - Frei Dominique Pire - pela sua liderança do "Europe du coeur au service du monde" associação que ele fundou para ajuda dos que sofriam, depois da 2ª Grande Guerra?
Quem consegue perceber o que são os conventos dominicanos e qual a importância que tiveram e têm nas cidades e na cultura?
Quem, por curiosidade, foi investigar e descobriu que os Jogos Olímpicos tiveram o seu início no sec. XIX num convento dominicano, perto de Grenoble?
Quem já ouviu dizer que os quatro pilares da vida dominicana são a oração, o estudo, a pregação e a vida comum?
Será que hoje se considera difícil ser Dominicano/a?
Talvez seja a hora dos jovens deste tempo procurarem saber as respostas a estas perguntas e compreenderem que Deus continua a chamar hoje, como há 8 séculos, para se fazerem filhos e filhas de S. Domingos.
                     Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Amizade em duplicado

Cada vez me convenço mais que as amizades do tempo de estudante são verdadeiras, constantes, persistentes. Criam-se laços muito fortes que nada consegue quebrar: nem distâncias, afastamento ou modo de vida.
Passam dias, meses, talvez anos... Falamo-nos  apenas de longe em longe.... Vemo-nos "quando Deus quer" mas, nada abala a estima que sentimos, os laços que nos unem. Sabemos que elas estão lá, firmes, disponíveis, prontas a acolher-nos. Temos a certeza que não fomos esquecidas. Tudo como nos anos distantes em que estudávamos juntas, discutíamos matérias, trocávamos apontamentos, naquelas salas inóspitas da velha faculdade.
Mal pensava eu, quando escrevi um texto sobre a Amizade, que ela vinha , fresca e verdadeira, ao meu encontro, como antigamente. Intuição ou saudades? Deus o sabe!
O facto é que me encontrei com duas amigas  de sempre, dos tempos antigos, dos dias de hoje: uma ao telefone ( foram minutos sem fim...); outra em pessoa, numa conversa amena e cheia de recordações.
Que alegria! Que comoção!
Acho que só agora, algumas horas depois, sentada a escrever o que me vai na alma, me consciencializo da realidade do que costumo afirmar: Amizades verdadeiras não se esquecem nem se apagam. São! simplesmente.
Falámos como se tivéssemos estado juntas ontem; recordámos episódios passados; pessoas que conhecemos, que fizeram parte do nosso imaginário; rimos com nomes que não recordávamos... Enfim!...
Um sem número de "ontems " e de "hojes". E, porque nos conhecemos e somos amigas, não precisamos de explicações nem averiguações. Tudo simples. Tudo natural.
 E, não terminou, porque o nosso adeus é simplesmente um até sempre, até à próxima.
E, junto do Pai ,não posso deixar de me ajoelhar e  Lhe agradecer estas e outras Amizades que se têm vindo construindo ao longo dos tempos e que são um reflexo do Amor que Ele tem por cada um de nós. 
                             Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sábado, 18 de outubro de 2014

Amizade

" Onde estão os meus velhos amigos?
Onde estão? O que é feito de vós?
Tanto tempo passou entre nós..."
Cada vez que oiço esta canção recordo todos aqueles que passaram pela minha vida e a quem tive a felicidade de poder chamar Amigos.
Talvez me achem piegas, mas não faz mal. É que a amizade é um dom que eu cultivo com carinho. Por isso, por que não hei-de dizer que ao recordá-los sinto uma certa saudade, uma vaga nostalgia , uma lembrança alegre e triste de coisa que fizemos juntos, de acontecimentos que vivemos em unísseno, de projectos que construímos em conjunto?...
Alguns destes Amigos já estão no céu , junto do Pai, mas acredito que de lá, apoiam as minhas iniciativas, inspiram os meus "quereres", corrigem as minhas aspirações, ajudam a viver melhor o meu dia-a-dia.
Outros Amigos perdi-lhes o rasto, afastámo-nos e não sei por quê deixámos de nos relacionar. Uma vez ou outra encontramo-nos numa rua de Lisboa e é com alegria e comoção  que nos reconhecemos e abraçamos.
Estamos diferentes, claro! O tempo deixa as suas marcas... Às vezes hesitamos ao esbarrar com uma cara que nos parece conhecida, mas... há sempre um "todo" que nos interpela e que não nos deixa enganar.
Mas ainda há os outros, os Amigos presentes que, mesmo longe estão, para nos acolher, para uma palavra de repreensão ou de esperança, para nos oferecer o seu ombro onde as nossas lágrimas podem correr.
Um Amigo é um bem precioso que é preciso cultivar, compreender, aceitar como é, ajudar a santificar.
Mas não esqueçamos que, entre todos, sobrepondo-se a todos, está aquele Senhor que, presente cada dia e cada hora, do Sacrário nos fala e lá nos espera. É o grande Amigo que nunca se ausenta e que nunca falha quando precisamos . E mesmo quando julgamos que não necessitamos Ele lá está.
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.