segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Partilha na confiança

Os textos da Missa de ontem falavam-nos da confiança, da certeza de que nada nos pode separar do amor de Deus. E ao mesmo tempo, da disponibilidade, da partilha, do esquecimento de nós para pensar nas dificuldades dos outros. Na 2ª leitura, S. Paulo fala-nos de algumas tentações e dificuldades que se nos podem apresentar para nos afastar de Jesus. Mas depois, faz-nos ver que nada disso é comprável ao amor de Deus, àquele que Ele tem por nós.
Depois, no Evangelho, é-nos apresentada a multidão dos que seguiram Jesus  assim que souberam onde Ele estava. Seguiram-no sem levarem nada com eles, sem pensarem em acomodação ou farnel.
Não tinham outra preocupação que não fosse ouvir Jesus, apreender a Sua mensagem... E o tempo passava.
Os apóstolos então, aconselharam Jesus a mandar embora a multidão. Por caridade, certamente, para que pudessem ir à procura de alimentos. Eles não possuíam senão cinco pães e dois peixe; não os podiam ajudar. Mas aí, Jesus mostra-lhes como estavam enganados. Com o pouco que possuíam podia-se fazer muito, se estivessem abertos à dádiva, à confiança. "Dêem-lhes vocês mesmos...."
E os apóstolos não protestam, não interrogam. Limitam-se a distribuir o que têm. E dão de comer à multidão, mais de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
Estes textos são um apelo, que nos devem fazer reflectir. Porque temos pouco, não podemos repartir com os que não têm nada?
A viúva que deitou na caixa das esmolas apenas duas pequenas moedas deu tudo quanto tinha. E Jesus elogiou-a!. 
Não serão estes os exemplos a seguir?
Bem podemos lembrar que "do pouco se faz muito" quando partilhado com generosidade.
E Deus espera a nossa confiança n`Ele e a nossa generosidader..

Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.





sábado, 2 de agosto de 2014

Férias

Estou de férias na praia. Na praia ... se considerarmos como tal a povoação marítima ... porque propriamente aquilo a que chamamos praia ( o mar, a areia, os toldos) isso!... ainda só vi de longe, do pontão. O tempo não tem ajudado. De manhã, tudo nublado, sem sol, com ar de chuva próxima. De tarde, o sol saiu de entre as nuvens mas o vento não deixa nada nem ninguém sossegado.
Mas da nossa varanda podemos apreciar o azul das águas não muito revoltas, apesar de tudo.
E somos capazes de imaginar viagens através do mar, recapitular aqueles cruzeiros, no Mediterrâneo, na Noruega, no Egipto... E lembrar os Lusíadas e recordar o Canto I : " As armas e os barões assinalados / que da ocidental praia Lusitana / se foram..."
E olhando o mar, relembrar os "feitos valorosos " que nos fizeram senhores do mar e donos de impérios...
E lá volta novamente a lembrança da "Queda do Império" do Vitorino e das mil realidades que ela nos evoca.
Olho o mar e deixo-me ficar sonhando com os mil perigos enfrentados e vencidos,as muitas conquistas conseguidas, as imensas dores sofridas. Lembro o "velho do Restelo" e os seus sempre tristes presságios; evoco Camões e a magnificência com que canta os feitos dos Portugueses.
Continuo a olhar o mar e penso na descrição da criação do mundo e do Homem, na presença do Deus criador e no testemunho que o "criado" devia dar como criatura e filho de Deus.
Apetece-me ajoelhar e dar graças por este mar que nos foi oferecido e pela Vida que recebemos para a fazermos grande e digna do Pai que nos criou.
Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pena ou misericórdia?

Dado que o tempo" não convida a banhos", depois dum passeio à beira - mar vim para casa arrumar papelada que trouxe para me entreter. 
Enquanto folheava apontamentos antigos, lembrei-me dum fado cujo refrão era mais ou menos assim:
"Não tenham pena de mim; não queiram mudar o meu norte..."
Em boa verdade, acho que "ter pena" não é sentimento adequado a ter por alguém. Podemos lamentar, achar penosa a situação, ter compaixão, sentir carinho... Mas pena!... cheira-me um bocadinho a caridade sem amor.As pessoas são dignas da nossa amizade, do nosso interesse, do nosso Amor. Pena... não me soa bem como sentimento a ter por alguém. Tem-se pena do gato doente ou do passarinho que não consegue voar. Mas dos amigos, dos conhecidos, mesmo dos que estimamos menos, não devemos sentir pena.
Concordo com o autor do fado que pede para que não tenham pena dele qualquer que fosse a sua situação.
E pensando na pena que o autor não quer e de que eu não gosto, lembrei-me do que ouvi há tempos sobre misericórdia, aquele dom que não é compaixão mas pressupõe antes uma partilha profunda que só Deus consegue mas que Jesus nos convida a tentar a viver como testemunhas de filhos de Deus.
Mas voltando à letra do fado, o segundo verso ainda me levanta mais interrogações : "não queiram mudar meu norte" .Claro que vem na sequência da primeira citação porque quando se tem pena é porque alguma coisa choca, incomoda, parece errada. Logo, a tendência é procurar mudar , julgando que fazemos bem.
E nem sempre o nosso parecer , a nossa opinião é coincidente com aquilo que é bem e bom para os outros. Às vezes o nosso desejo de colaboração e de ajuda excede os limites do que seria útil para o outro.
Não, não podemos ter pena dos que nos rodeiam.
Não devemos querer mudar os seus caminhos. Podemos e devemos ajudar a ver a luz, a seguir o plano que Deus traçou para cada uma
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P..

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Festa de Santa Marta

Esta semana uma festa que nos interpela : a festa de Santa Marta.
É uma das Mulheres de que nos fala o Evangelho: é a  irmã de Maria e da Lázaro, aqueles três irmãos, amigos de Jesus, em casa de quem Ele se instalava com os discípulos, quando se deslocavam a Jerusalém.
Marta, aquela jovem que nos surpreende quando se dirige ao Mestre pedindo para que Ele diga à irmã que a venha ajudar. Afinal ela está cheia de trabalho, demasiado ocupada a preparar tudo para o Mestre e a irmã... sentada a ouvi-Lo, Só que Maria tinha "escolhido a melhor parte..." 
Não sabemos como Marta reagiu mas temos a certeza de que nem todo o trabalho do mundo nos deve afastar da escuta do Senhor.
Mas Marta é uma mulher de Fé. E nós temos a certeza ao ler o Evangelho da sua festa. Lá é-nos contada a sua conversa com Jesus aquando da morte de Lázaro. Quando o Mestre chega ela vai ao Seu encontro e afirma acreditar na ressurreição no fim dos tempos. É uma profissão de Fé !
E mais, acrescenta que sabe que se o Mestre estivesse lá o irmão não teria morrido. Só que agora, quatro dias depois, não põe sequer a hipótese da possibilidade duma volta à vida.
É uma mulher de Fé muito embora também uma mulher de acção.
Jesus recompensa a sua certeza e Lázaro volta à vida.
Precisamos de actividade mas esta tem que estar cimentada pela Fé e pela interioridade que nos torna Jesus presente.
Em cada momento, saibamos procurar e "escolher a melhor parte que não nos será tirada"
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

terça-feira, 15 de julho de 2014

" Ninguém é uma ilha "

 A palavra solidariedade é um termo que nos aparece a toda a hora. Desde o Papa nas suas intervenções à comunicação social, passando pelas obras sociais e a homilia nas paróquias,  todos utilizam esta designação para falar da fraternidade e do amor. 
Mas esquecemo-nos que solidariedade está intimamente ligada com interdependência, relação que todos nós temos, uns com os outros. De facto damos pouca atenção à colaboração que entre os homens se deve estabelecer e procedemos mesmo com alguma indiferença em relação aos outros, como se de outro mundo se tratasse.
Com a maior das facilidades nos julgamos ilhas, independentes e donos de nós mesmos e das nossas ideias , actividades e desejos. Consideramo-nos "senhores do mundo" pensando que não precisamos de ninguém. Quando muito, admitimos, com alguma condescendência, que os outros precisam de nós.
E esquecemos a lição de Luther King que nos diz que mesmo antes de sair de casa já usámos uma dezena de coisas que outros construíram e prepararam para nós.
Que consciência temos disto? Como vemos o próximo que servimos ou nos serve a nós? Como fazemos para contribuir para uma sociedade que é fruto da acção de todos e de cada um?
Neste mundo complexo e diferente, a acção de cada um é imprescindível Mas o trabalho conjunto de todos é que pode contribuir para um mundo melhor.
Não podemos passar indiferentes ao lado de todos aqueles que nos rodeiam. Não nos podemos considerar ÙNICOS e desconhecer aqueles que estão connosco.
É verdade que nos encontramos num mundo difícil em que as diferenças são cada vez maiores e acentuam e desenvolvem ódios e inimizades, um mundo em que impera o individualismo e fazemos inimigos daqueles que Deus queria Irmãos.
Abramos os nossos corações aos que nos rodeiam, e tentemos descobrir as possibilidades ocultas no fundo de cada pessoa e de cada grupo.
Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

domingo, 13 de julho de 2014

Fátima, Terra de Fé

Estou em Fátima!
Terra de Santa Maria, lugar onde Nossa Senhora apareceu, onde falou aos pastorinhos e lhes fez promessas e pedidos.
Fátima, local onde todos os dias e, principalmente nesta altura do ano, se encontram milhares de peregrinos,  nacionais e estrangeiros.
Saí de casa e fui até ao santuário. Queria sentar-me diante de Nossa Senhora e falar-lhe das minhas alegrias e preocupações, dos meus interesses e dificuldades. Queria parar um pouco e pôr em ordem as minhas ideias, longe de casa, das pessoas amigas e conhecidas.
Boas intenções mas que não passaram de intenções. Por culpa minha, por causa dos outros ou do ambiente? De tudo em conjunto, acho eu!...
Claro que a dificuldade de concentração foi minha: mil ideias diferentes, um molho de preocupações, uma inesgotável lista de ideias e desejos. E depois, o  calor intenso e asfixiante...
Mas o ambiente, nestes dias também não facilita: são dezenas os que nos interrompem para fazer perguntas; são muitos os que falam entre si, procurando soluções;são imensos os que rezam alto e cantam nas mais variadas línguas, os que se deslocam dum lado para o outro, os que chegam depois das cerimónias começadas ou saem antes do fim.
Mas nada disto se pode apelidar de falta de Fé.
Ninguém vem a Fátima só por vir e ninguém regressa tal como chegou. Maria sempre toca os corações. E também tocou o meu apesar de não ter conseguido fazer nada do que queria. Mas... trago desejos e respostas no meu coração. É que Maria é sempre"o meu porto de abrigo"e nela deposito a minha confiança.
                                                        Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.
                                                   
               


sábado, 12 de julho de 2014

Alegria e lágrimas

"Os que semeiam com lágrimas recolhem com alegria"
 Esta frase faz parte dum salmo que rezamos no Ofício, muitas vezes e que apela para que tenhamos presente a vida , olhando-a com alegria e esperança, mesmo quando se apresenta dura e difícil.
Nada  se  constrói  sem esforço ;  coisa alguma  se  realiza  sem persistência; nada conseguimos sem confiança, sem esperança.
O salmo começa dizendo que "Quando o Senhor restaurar os destinos de Sião..." Mas Ele já restaurou, já trouxe consigo a paz, o perdão, o Amor. Ele já morreu e ressuscitou. Já nos deixou a Sua mensagem e pediu a nossa colaboração.
Jesus já veio e já nos prometeu o Seu Reino, onde encontraremos a felicidade se O acolhermos e o seguirmos.
E aqui é que entra a continuação do salmo : "Na partida vai chorando o que leva a semente... e semeiam em lágrimas ". 
É que todos nós temos um caminho a seguir , um caminho de escolha livre, que nem sempre é fácil, plano, que é feito de sucessos mas também de recuos.
Claro que levamos connosco a semente da Graça mas essa semente tem que ser lançada à terra, regada, cuidada. E isso...é muitas vezes causa de dor, de desânimo, de preocupação.
E, no caminho a percorrer quantos escolhos, quantas ilusões, quantos desvios...
Quantas sementeiras perdidas, quantas ilusões frustradas, quantos sonhos baldados!
E no entanto, a promessa contida no salmo prevalece:
"Quando o Senhor restaurar Sião..."
Temos que olhar com esperança o futuro que nos aguarda e acreditar que Sião já foi restaurado e portanto o nosso sonho pode encontrar realização. Podemos ter chorado, mas havemos de rir e de cantar.
Simplesmente, só semeando com lágrimas encontraremos a alegria da colheita e a felicidade da nossa identificação com Cristo.
                         Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.