quinta-feira, 10 de julho de 2014

Acreditar sem ver

Na quinta feira passada foi a festa de S. Tomé, aquele apóstolo incrédulo que duvida da informação dos seus colegas tão extraordinária e impossível lhe parece.
Ele era um homem positivo para quem só se acredita naquilo que se vê, naquilo que se experimenta, naquilo que tem realidade aos seus olhos.
Conhecia talvez demais!...
Temos muitas vezes a ideia de que só as pessoas com pouca cultura acreditam sem ver, confiam sem experimentar. Por isso ele teve aquela exclamação: " Só acredito se colocar a minha mão na chaga do Seu lado..." 
Mas, perante a pessoa de Jesus ele nem hesitou : "Meu Senhor e meu Deus!" . E Jesus não o rejeitou nem lhe deu qualquer explicação adicional. Simplesmente o convidou a fazer aquilo que Tomé considerava essencial - a experiência. E deu-lhe uma lição que é também para nós " Bem aventurados os que não viram e acreditaram".
A grande maioria dos cristãos não viram Jesus. Isso é um privilégio de almas de eleição... Mas, não importa. A todos nós foi dada a Fé, no Baptismo, e é por ela que podemos dizer como Tomé : "Meu Senhor e meu Deus" . 
E a Fé é isso. É acreditar sem ver ; é crer, porque se tem a certeza  e a confiança na Verdade que é Deus.
Claro que hoje em dia há uma tendência enorme para duvidar de tudo o que não passa pelo crivo do nosso conhecimento imediato. É a influência do desenvolvimento experimental e técnico. Mas aos cristãos, Jesus pede a sua confiança, que acreditem no Seu testemunho.
E Tomé é um exemplo para nós. Começou por exigir provas, experimentar, ver. Mas diante de Jesus, não precisou de mais nada. Esqueceu as suas exigências e as suas dúvidas. Dobrou-se ao inevitável: a certeza que lhe inundava o coração.
E nós, não temos Jesus sempre vivo, presente, convidando-nos a reconhecê-Lo e a segui-Lo?
Diante do Sacrário digamos com Tomé :" Meu Senhor e meu Deus"

Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Bis


Mais uma ida ao hospital. A quarta nestes últimos tempos. Cada uma a seu hospital e nunca eu a doente. Simplesmente a acompanhante. 

Hospitais diferentes, públicos ou privados,mas com situações muito idênticas. Mandam-nos estar a certa hora da manhã e nós convencemo-nos que a consulta vai ser à hora que nos marcaram. 
Equívoco!
Esquecemo-nos das "esperas" : espera para tirar a senha, espera para entrar para a "sala de espera" , espera pela nossa vez, e, no fim... espera para fazer a marcação da consulta que o médico já marcou.
No fim foi uma manhã inteira para, quando muito, um quarto de hora de consulta.
Mas o que me incomoda mais não é bem isto. São as dezenas de doentes, a maioria idosos e muitas vezes inválidos, ali em pé. esperando resignadamente a vez de serem chamados para que o médico os veja.
Em pé, sim!... porque em alguns hospitais, para as dezenas de pessoas, há aí um terço de cadeiras disponíveis. Mas ninguém desiste. Esperam. Talvez nem sequer impacientes, como eu. Simplesmente aceitando a situação.
De vez em quando passam médicos, bata branca aberta, a esvoaçar, estetoscópio pendurado, olhar distante. Certamente têm tanto que pensar que nem se apercebem que ali está gente que sofre e que precisava, ao menos, dum sorriso.
Os enfermeiros fazem uma aparição rápida. Ali, não são necessários. São tudo doentes ou acompanhantes (poucos) mas sem necessidade de apoio de enfermagem.
E a manhã vai passando, entre algumas conversas e as chamadas lentas para as consultas. Quando alguém se levanta, logo um grupo se movimenta na tentativa de ocupar o lugar que ficou vazio. Nunca tentei . Para quê? E por quê? Havia ali pessoas que precisavam bem mais do que eu dum sítio para descansarem um pouco.
Também não me irritei mas ainda menos me resignei com a situação.
Fiquei pensando em toda aquela gente, mais ou menos entregue à sua sorte e com quem ninguém se preocupava, para quem ninguém olhava.
"Bem aventurados... diria Jesus no Sermão da Montanha. Mas... onde centramos a nossa misericórdia e o nosso amor?
Estas visitas são uma lição para a nossa indiferença e o nosso egoísmo.
               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Encontros e desencontros

As minhas idas a Lisboa são sempre pródigas em acontecimentos. Há sempre uma história para contar: mais alegre ou mais preocupante, mais animada ou mais séria. Geralmente são encontros com sentidos distintos, testemunhos de conhecidos ou desconhecidos, que sei eu!  Gente que me encontra na rua e me faz pedidos ou confidências... gente que me bate à porta para me pedir ajuda...Um mundo de coisas que acontecem numa cidade que é a minha - Lisboa. Acontecem e deixam sempre lições para aprender , ensinamentos a facultar.
Encontros!... Mas desta vez não foi um encontro. Antes um desencontro.
Tinha combinado ir almoçar com uma amiga com quem não estava há tempos. Mas, tive uma manhã agitada e cheguei já tarde a casa e sem saber bem o que, afinal, tinha ficado combinado. Era eu ou ela quem telefonava?
E o almoço, era onde? Na casa dela não era de certeza e na minha impensável...
Esperei um quarto de hora e o telefone mudo. 
Impaciente com as horas e com a incerteza liguei eu. Mas, nada! ... apenas o tocar insistente do telemóvel, este instrumento indispensável nos nossos dias nas muitas vezes inoperante, como nessa altura.
Como não conseguia falar concluí que ela já teria saído de casa, que o almoço era no sítio do costume e que quem estava atrasada era eu, coisa que detesto! Portanto, sem mais delongas, pus-me a caminho para o restaurante habitual.
Cheguei e sentei-me, mais uma vez à espera. Quase me convenci que afinal tinha era ido ao hospital. Lá é que são habituais estas esperas sucessivas.
No meio destes meus pensamentos críticos, toca o telefone e uma voz algo irritada::
- Afinal, onde é que tu estás?
- Eu?... Aqui, onde é costume...
- Mas o almoço não era na tua casa?
- Oh! menina... mas desde quando cozinho e preparo almoços em casa?
- Então era o encontro que era aqui? Estou à porta de tua casa...
- Bom! Mas afinal vens cá ter ou vou ter que ir aí buscar-te?

Finalmente, com duas horas de atraso, conseguimos encontrarmo-nos e almoçar.
E que almoço divertido! Mil histórias a contar, mil aventuras a partilhar...
O desencontro fora esquecido e ficara apenas a alegria da partilha entre velhas amigas.
                     Ir. Maria Teresa de carvalho Ribeiro,O.P.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O nascer e a morte dos "impérios"

Hoje, enquanto me arranjava para sair, ouvia na rádio música portuguesa. Temas comuns por demais conhecidos, uns mais modernos do que outros. Dava pouca atenção às letras. Seguia mais a música que me acompanhava no que ia fazendo. 
Mas de repente, um clic que me fez parar. Era aquela música do Vitorino ,bem conhecida e cheia de significado "A queda do Império ".
Fala, claro! do império colonial, aquele que tivemos e perdemos ou demos... E  por quê? Porque não era nosso , tinha sido conquistado, talvez injustamente , e depois colonizado e desenvolvido "à nossa maneira", sem o devido respeito pelas populações locais.
"Novos ventos", novas ideias, novas aspirações, mudaram o rumo da vida e lá se foi o Império. " A César o que é de César" ?
Continuando a ouvir a música, vieram-me à ideia outros "impérios" que também se foram desmoronando ou que estão sendo lapidados e oferecidos. Impérios familiares, conseguidos com trabalho e esforço que uma qualquer sede de diferença reduz a cinzas.
Impérios regionais, construídos pela persistência de alguns e que o desejo de liberdade de outros vai fazendo reduzir e eliminar.
Impérios, maiores ou menores... olhamo-los e perguntamo-nos como se formaram e porque se desmoronaram.
Os "impérios reais" são ganhos e perdidos, conquistados e oferecidos.
Os "impérios plebeus"  são também ganhos e perdidos. As motivações é que são bem diferentes. A ambição ou o desprendimento, a luta ou a desilusão levam a resultados que entusiasmam uns e entristecem outros.
Mas todos nós construímos impérios no nosso coração, no nosso espírito. São impérios de ideias, de desejos, de projectos.
Uns são melhores; outros menos bons.
Analisemo-los. Escolhamos os que correspondem ao plano da nossa vida e não os deixemos desmoronar. Peçamos apoio, ajuda, colaboração... Confiemos n´Aquele que tudo pode.
A queda do Império... foi um facto. A queda de outros impérios podem também ser factos que magoam e fazem sofrer, se não estivermos atentos aos perigos que os assolam.
                 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O passado e o presente

Realmente dá que pensar estas mudanças bruscas de condições atmosféricas : num dia faz sol, noutro está nublado, a seguir chove; depois... o sol mostra um sorriso tímido como a anunciar o Verão que já é mas não parece. E tudo isto não corresponde, de modo nenhum, à sucessão periódica das estações habitual na nossa latitude e posição geográfica.
Nós éramos um país com quatro estações e, neste momento, o calendário indica que o Verão devia ter chegado. Só que não demos por isso ainda.
Éramos!...
Este verbo "ser" define muito bem a diferença entre o que somos e o que fomos.
Éramos um país de navegadores, de apaixonados pelo mar; hoje, temos uma frota pesqueira cada vez mais reduzida.
Éramos um país rico que se podia dar ao luxo de construir grandes monumentos e estruturas que ficaram para testemunho desses tempos áureos; hoje somos um país pobre que tem que enfrentar dívidas, juros e privações.
Éramos um país de muitos analfabetos que só deixavam a sua terra por absoluta necessidade e com o desejo sempre de voltar; hoje somos um país de muitos intelectuais sedentos de concretizar sonhos noutros mundos.
Éramos um país de conquistadores que conseguiu um grande império; hoje somos um pequeno país à beira-mar plantado.
Éramos um país onde os filhos eram a "riqueza" da família; hoje lutamos para saber se é melhor ter ou não ter filhos.
Mas, apesar de tudo, continuamos a ser um país de Fé e de Esperança.
Permanece a nossa certeza de que temos uma Mãe, Rainha de Portugal, que nos protege e intercede por nós.
Certamente não foi em vão que o Rei de Portugal coroou como Rainha Nossa Senhora da Conceição.
Guardemos a nossa Fé e as nossas certezas; continuemos a confiar que Maria, nossa mãe e senhora, vela por nós e nos acompanha.
                           Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Datas que se relembram

Faz hoje anos, muitos!... que foi a minha Tomada de Hábito.
Aqui no Ramalhão, numa cerimónia simples mas cheia de significado.
Um dia muito feliz, o primeiro de muitos outros.
E a universitária alegre, divertida e despreocupada...

...tornou-se a religiosa responsável, atenta e preocupada com a correspondência ao dom do Pai.
Cantemos um Magnificat imenso de acção de graças!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Opiniões e acasos

Muitas vezes é com a maior das facilidades que fazemos juízos a respeito de pessoas que não conhecemos e, sobretudo, sem nos basearmos em dados objectivos. Rotulamo-las, afastamo-nos indiferentes, como se elas não fizessem parte do universo em que vivemos. Esquecemo-nos simplesmente do que dizemos no Pai Nosso.
Evidentemente que, como consequências, gostamos ou não gostamos delas, apreciamos ou não o que elas fazem e dizem. Somos injustos muitas vezes e perdemos oportunidades únicas.
Comigo ia acontecendo isso e não aconteceu não sei bem por quê. Acaso? graça? circunstâncias?...
Durante dois anos assisti, mais ou menos, a conferências duma pessoa que, logo à partida, sem razão, não fazia parte do grupo das minhas simpatias e não caiu nas minhas "boas graças". Falava bem e com interesse mas não me cativava. Também, eu não queria ser cativada...Não gostava e pronto!
Logo, estava sempre de "pé atrás" e com um ar um pouco provocador.
Um dia, talvez irritada demais ou farta de me sentir nesta posição ingrata de " participante - ausente " resolvi tomar uma grande decisão e pedi uma audiência ao dito conferencista..
Ele concedeu-ma e eu comecei dizendo o que queria, o que talvez não quisesse mas saiu , o que pensava. Fui delicada, claro! mas um pouco agressiva, penso, como não podia deixar de ser.
Esperava uma reacção correspondente, talvez beligerante, competitiva, para a qual me preparara inconscientemente.
Mas qual quê!O senhor ouviu-me calmamente e de modo respeitador; aceitou, sem replicar ou interrogar, tudo quanto me tinha apetecido dizer-lhe. Acolheu-me... E no fim, ganhei uma Amizade.
Agora, dou todos os dias graças a Deus por tudo isto e peço-Lhe para não voltar a hostilizar ninguém.
Aliás, é a lição que Jesus nos dá. Ele que não nos julga, não nos afasta quando pecamos. Antes nos acolhe como somos, com as nossas qualidades e defeitos. Só espera que melhoremos as qualidades e tentemos corrigir os defeitos.
Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.