segunda-feira, 30 de junho de 2014

Opiniões e acasos

Muitas vezes é com a maior das facilidades que fazemos juízos a respeito de pessoas que não conhecemos e, sobretudo, sem nos basearmos em dados objectivos. Rotulamo-las, afastamo-nos indiferentes, como se elas não fizessem parte do universo em que vivemos. Esquecemo-nos simplesmente do que dizemos no Pai Nosso.
Evidentemente que, como consequências, gostamos ou não gostamos delas, apreciamos ou não o que elas fazem e dizem. Somos injustos muitas vezes e perdemos oportunidades únicas.
Comigo ia acontecendo isso e não aconteceu não sei bem por quê. Acaso? graça? circunstâncias?...
Durante dois anos assisti, mais ou menos, a conferências duma pessoa que, logo à partida, sem razão, não fazia parte do grupo das minhas simpatias e não caiu nas minhas "boas graças". Falava bem e com interesse mas não me cativava. Também, eu não queria ser cativada...Não gostava e pronto!
Logo, estava sempre de "pé atrás" e com um ar um pouco provocador.
Um dia, talvez irritada demais ou farta de me sentir nesta posição ingrata de " participante - ausente " resolvi tomar uma grande decisão e pedi uma audiência ao dito conferencista..
Ele concedeu-ma e eu comecei dizendo o que queria, o que talvez não quisesse mas saiu , o que pensava. Fui delicada, claro! mas um pouco agressiva, penso, como não podia deixar de ser.
Esperava uma reacção correspondente, talvez beligerante, competitiva, para a qual me preparara inconscientemente.
Mas qual quê!O senhor ouviu-me calmamente e de modo respeitador; aceitou, sem replicar ou interrogar, tudo quanto me tinha apetecido dizer-lhe. Acolheu-me... E no fim, ganhei uma Amizade.
Agora, dou todos os dias graças a Deus por tudo isto e peço-Lhe para não voltar a hostilizar ninguém.
Aliás, é a lição que Jesus nos dá. Ele que não nos julga, não nos afasta quando pecamos. Antes nos acolhe como somos, com as nossas qualidades e defeitos. Só espera que melhoremos as qualidades e tentemos corrigir os defeitos.
Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.
                                

sábado, 28 de junho de 2014

A curiosidade perturbadora da criança

Não há como as crianças para nos fazerem perguntas simples que se tornam embaraçosas.
Outro dia estava no pátio do recreio conversando com umas pessoas conhecidas, antigas alunas e família, quando uma pequenita aí do 1º ano se chega ao pé de mim e, entre denunciadora e curiosa, me diz:
- Os grandes estão a falar de amor . O que é isso?
Houve um momento de silêncio algo inquietante. Que responder a uma criança de 5 anos? Apeteceu-me dizer a frase de S. Paulo : O amor é Deus , mas seria demasiado transcendente. Então, falei do carinho dos pais para com ela, da estima que ela sentia pelos amigos, doutros "lugares comuns" sempre úteis quando não se sabe o que se há-de dizer.
Ela deve ter ficado satisfeita com a explicação porque se foi embora, a correr, continuar as brincadeiras.
Mas eu fiquei preocupada. Que responderia se fosse uma aluna mais velha a fazer a mesma pergunta? Muitas vezes elas não fazem perguntas destas porque julgam saber tudo a respeito dum assunto que, para elas, se identifica mais com paixão e sensualidade. Mas... e se me perguntassem?
Como a definição que vem no dicionário claro que não me satisfaz, nem a ninguém, procuro nos recônditos da memória algo do que aprendi no meu tempo de estudante de Filosofia.
Lembro-me dum professor que nos apresentou o conceito de amor como manifestação da alma, nas suas três vertentes: conjugal, materno-filial e de amizade. Tentei reler os apontamentos dessa época.Tudo verdade mas tudo muito árido e abstracto. Satisfazia por ventura uma adolescente?
Aliás, penso que mesmo para nós, nessa altura, era simplesmente matéria de exame...
É que o Amor é visto de maneira diferente para os adultos, os jovens e os amigos.
Para os mais velhos é geralmente encarado também como compreensão, entendimento, partilha. Para os jovens é sobretudo visto como afectividade, sexualidade, presença. E para os amigos, é confiança, disponibilidade, diálogo.
Mas se quisermos uma fórmula mágica que engloba tudo isto, temos que abrir a Bíblia e vamos descobrir muito simplesmente que, Deus é amor.
E foi por amor que nos deu o Seu filho que nos fez filhos de Deus.
E este amor, à imagem e semelhança de Jesus, é aceitação das dificuldades, é disponibilidade para tudo e para todos, é perdão, é dádiva.
Fácil tudo isto? Claro que não. Exige esforço, oração, fidelidade.
Mas Jesus ao chamar os discípulos não lhes prometeu uma vida fácil. Simplesmente lhes disse que "grande seria a sua recompensa" .
E essa é também a nossa se amarmos como Ele amou.
                  Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A variabilidade do tempo e da vida

Cada ano, cada dia, marcam uma etapa da nossa vida, sempre diferente da anterior, sempre diferente da que nos espera.
Neste momento estamos em férias porque acabaram as aulas para a maioria dos alunos. Até o trânsito manifesta esta mudança de situação. Mas também as férias vão terminar e o trânsito voltar a aumentar de intensidade, porque começou um novo ano lectivo. Mas igual ao anterior? Não! Tudo igual mas tudo diferente.É assim o ciclo da vida feito de sucessões , de igualdades e de diferenças, de contratempos e previsões, de alegrias e tristezas.
Até o tempo muda. Ora Primavera, ora Verão, alternando com Outono e Inverno. Ante-ontem chovia; ontem o tempo estava nublado com uns raios tímidos de sol a afirmar que estamos no Verão; hoje faz sol. É a variabilidade do tempo mostrando as suas várias facetas, que nos agradam mais ou menos.
E nós também mudamos como o tempo. E as mudanças ora nos agradam ora nos aborrecem.
"Mudam-se os tempos mudam-se as vontades" diz o poeta. E as vontades mudam mesmo sem esperarmos ou contarmos.
E nem sempre é fácil ultrapassar vontades, mudanças, dificuldades e incertezas.
Mas quem disse que a vida era fácil? Quem se esqueceu de nos dar o testemunho de Jesus, no momento da Sua Paixão : "Pai, se é possível ,afasta de mim este cálice" ? Mas imediatamente depois, " que se faça a Tua vontade e não a minha".
Tem que ser esta a nossa atitude, vivendo intensamente a nossa humanidade, ultrapassando as nossas fragilidades, sem medo, seguindo em frente, mesmo no escuro e na incerteza.
Os tempos mudam mas a vida continua e o Pai espera-nos.
É preciso aproveitar a vida , tirar partido das mudanças, das que agradam e das que nos incomodam.
Olhar o dia-a-dia com optimismo e confiança. 
Saborear a beleza das flores, a alegria das aves, a imensidão da natureza que nos convida a construir uma vida melhor e mais feliz.
 "Nada acontece por acaso"
É um slogan que pode acompanhar as nossas vidas e nos dá a certeza da presença dum Deus que é criador e Pai.

 Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Os conselhos dos mais novos

Sempre que me encontro com casais amigos ou conhecidos é inevitável: a conversa acaba sempre por ser em torno da educação das crianças e jovens, das dificuldades que se encontram, dos erros que se cometem.
Rapidamente se fala na facilidade com que os pais dão licenças sem critério ou trocam a sua presença por presentes, também eles muitas vezes, inúteis ou despropositados.
É a vida moderna... o pretexto de sempre.
Para satisfazerem os pedidos dos filhos e também as suas aspirações pessoais, trabalham demasiado, estão ausentes demasiado tempo e apagaram do seu vocabulário a palavra NÃO.
A este propósito lembrei-me dum artigo que li há tempos. Era como se uma criança falasse aos pais e lhes dissesse o que eles deviam ou não deviam fazer, para ajudar à sua educação .
Nesse artigo dizia-se que se os filhos pudessem dar a sua opinião seriam os primeiros a afirmar que os pais estão muito enganados quando os deixam entregues a terceiros ou lhes arranjam múltiplas actividades para os ocuparem longe da família. Diriam aos pais que a sua presença é indispensável para os ajudar a crescer , a entender o que é bem e o que é mal, a encontrar o caminho da Verdade.
Se as crianças pudessem emitir a sua opinião diriam que sabem muito bem que as suas exigências são simples tentativas  de chamar a atenção dos adultos e de testar a sua capacidade de subornar a família.
E depois, quando de crianças passam a adolescentes e se mostram revoltados e chocam com as suas atitudes, querem simplesmente que os adultos se apercebam que eles estão ali e precisam da sua ajuda.
Se crianças e adolescentes fossem chamados a dizer aos pais como gostariam que eles procedessem, diriam para eles não serem tão transigentes e flexíveis, para não aceitarem tão facilmente as suas exigências e teimosias, para não viverem como se eles não existissem e não pagassem as ausências com brinquedos e presentes disparatados.
E o artigo terminava discorrendo sobre o que as crianças e jovens pensam mas não podem dizer  e sobre o que os pais julgam ser o melhor para os filhos e não é.
Na sequência de tudo isto fiquei a pensar que os erros das crianças  precisam de ser corrigidos e a liberdade conquistada e compreendida. E, para tudo isto, o papel do exemplo e do testemunho dos pais é indispensável.
               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Teste ao discernimento

Cada vez que vou a Lisboa há sempre qualquer coisa de novo para me surpreender. Outro dia, quando estive em casa dos meus pais não foi excepção.
Começara a arrumar umas " traquitanas " que precisava para a minha estadia em Fátima e encontrava-me na fase: Levo? Não Levo? Vou precisar?  É melhor levar... quando me tocaram à campainha da porta.
Estranho! pensei. Quem sabia que eu estava em casa? Nem abrira os estores, pois não me ia demorar... Mas, sempre fui à porta. Deparei-me com uma jovem ( já nem muito jovem...)  que morava com a família num dos andares do prédio. Lembrava-me vagamente dela...
Começou por fazer uma série de perguntas sem grande sentido ou oportunidade. Pareceu-me logo um pretexto.
Mandei-a entrar e, sem preâmbulos, depois de sentada na sala, começou a contar-me a sua história recente:
Tinha ido, um tanto contrariada, para fora, fazer um estágio de três meses. Mas, entusiasmara-se. Com o trabalho, o ambiente, os elogios, as atenções, um certo bajulamento... E os três meses transformaram-se em dois anos. Deixara tudo: família, amigos, responsabilidades.
Agora estava de férias e tinha tempo para pensar no que deixara, no que trocara. Não sabia que fazer e pensava que eu a podia ajudar.
Sorri! Não tinha solução para o problema. A solução tinha ela que a encontrar, dentro do seu coração e com toda a sua razão.
Eu conhecia demasiado bem essa situação: esta troca do essencial pelo acidental que parece fazer-nos felizes; este deixar o necessário para agarrar o efémero mas que nos dá alegria; o esquecer o importante para deixar que o que não é nos envolva e nos desvie do que seria desejável.
Não dei conselhos mas ouvi e acho que ela entendeu que a decisão estava nas suas mãos  e era ela que a tinha que acolher.
Ninguém dá por nós a resposta aos nossos problemas...
Foi-se embora e eu fiquei a tentar resolver "o meu problema" : fazer uma mala com o essencial para quinze dias em Fátima.
                       Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, o.p.

domingo, 15 de junho de 2014



                            
                        Domingo da Santíssima Trindade


sábado, 14 de junho de 2014

Contradições que são convites

Abrir o Evangelho e os nossos olhos caírem no Sermão da Montanha será acaso ,coincidência ou convite à reflexão? É que, se pararmos um instante para compararmos a nossa visão da vida com as afirmações de Jesus, não podemos deixar de nos interpelar. É que há um mundo de contradições entre o que pensamos habitualmente e o que o Evangelho afirma. Não podemos deixar de nos surpreender. Certamente os Apóstolos também se interrogaram sobre o significado das palavras de Jesus :
Bem-aventurados os pobres... os que têm fome... os perseguidos... os que choram...
O Sermão da Montanha apresenta-nos como felizes todos aqueles que, naturalmente, seriam considerados como infelizes pela sociedade. Diz-nos que são felizes aqueles que nós pensamos só terem motivo para se lamentarem; afirma que são felizes os infelizes do mundo.
Dá que pensar!...
Mas não podemos esquecer o final desta exortação: "Exultai e alegrai-vos porque grande será a vossa recompensa no céu".
De facto, tudo o que acontece aqui no nosso mundo, não é mais nem menos do que aspectos da caminhada que nos vai levar até Jesus, onde será grande a nossa recompensa.
Só que nós, habitualmente, vemos o céu como um futuro longínquo e nubloso , sem relação de continuidade com o presente. E pior, queremos viver o imediato, aquilo que nos faz feliz, hoje e agora.
Mas o Sermão da Montanha é um apelo à esperança, um hino ao optimismo, talvez uma recordação nova daquele convite : "Ide e não leveis nada para o caminho" .
E este caminho é toda a nossa vida.
Seria preciso acreditar que felizes somos se confiamos, se não pusermos a nossa felicidade nas alegrias imediatas, se os nossos sonhos forem mais além do fácil, do terreno.
Precisamos cultivar a certeza de que " nada acontece por acaso "  mesmo quando não vemos o porquê e o como.
Não nos podemos deixar abater por "crises" externas e internas, por dores, por mudanças, por dificuldades. Temos que ter a certeza que "grande será a nossa recompensa no céu".
               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.