segunda-feira, 2 de junho de 2014

Dúvidas e interrogações


Isto da Vida Religiosa ainda é uma situação que levanta muitas interrogações e dúvidas. Sobretudo para os jovens, apresenta-se-lhes como um modo de vida estranho e fora do contexto a que estão habituados.
Uma prova disso foi o que aconteceu comigo um dia destes. Ao passar por um corredor, uma jovem que se cruzou comigo, perguntou-me sem mais nem menos:
- O´Irmã! É muito difícil ser freira?
Sorri-lhe e respondi com outra pergunta: - Achas que as Irmãs têm ar de estar a fazer um grande sacrifício?
- Não ! Mas vêmo-las pouco e não sabemos nada sobre freiras... parece assim esquisito.
 - Sabes... ser freira é, antes de tudo, a resposta a uma escolha de Deus: " Não fostes vós que me escolhestes ; fui Eu que vos escolhi."  são palavras de Deus.
- Claro que nessa escolha há propostas, há exigências. E é necessário reflectir se se tem Fé suficiente  para com coragem e disponibilidade , deixar tudo o que nos rodeia e a que estamos habituados. Se queremos deixar a nossa família para entrar numa outra, que nos vai acolher e ajudar a atingir os objectivos que o Pai traçou para nós. E há uma missão a cumprir, um testemunho de vida e de amor a dar aos outros, a Verdade do Evangelho a transmitir aos que não a conhecem.
- Eu bem digo que é muito difícil...
- Não, não é difícil. O que é preciso é querer e crer. Sabes qual é a diferença?
- Sei o que é querer. Agora crer... não sei bem.
- Este crer é acreditar, ter Fé, estar certo de que Deus é Pai e está presente em tudo nas nossas vidas. 
Afinal para qualquer coisa que nós desejamos, é preciso acreditar que vale a pena e que, esforçando-nos, a vamos alcançar. Para ser freira também.
- Mas as freiras já não são novas!...
- Mas já fomos! Só que agora é preciso que os mais novos nos venham ajudar. O pior é que eles andam demasiado ocupados com a Internet, as bandas de música , etc....
Um sorriso e uma resposta rápida:
- Obrigada, Irmã. Vou pensar.
Será que vai mesmo?
                  Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.


domingo, 1 de junho de 2014

Festividades

Primeiro dia do mês de Junho!
Este ano a Igreja festeja, neste domingo, a Ascensão de Jesus ao céu. E nós podemos imaginar Jesus elevando-se e os Apóstolos, incrédulos, estupefactos, desiludidos, olhando para o alto: " Homens de pouca Fé, porque estais a olhar para o céu?" Esta é uma festa móvel e por isso este ano coincide precisamente com o dia em que se festeja o "Dia mundial da criança". 
Certamente por ser o dia da criança, a Câmara municipal de Sintra, à imagem do que muitas outras fazem, estabeleceu um dia aberto de diversão, no Palácio de Queluz.
E por toda a parte há festejos, comemorações, divertimentos... Tudo para celebrar a criança.
Acho lindo! Até porque "o melhor do mundo são as crianças" diz quem sabe. Só que eu gostaria que o" dia da criança " fosse cada um dos 365 dias do ano.
As crianças necessitam que nos lembremos delas todos os dias, que as ajudemos a crescer, que colaboremos para que se tornem adultos responsáveis, homens e mulheres com perspectivas, com objectivos definidos e válidos.
Elas esperam o nosso exemplo para que, tenham a idade que tiverem, correspondam à questão que Jesus pôs a todos nós : "Se não fordes como crianças..." Crianças, não porque são infantis, mas porque são simples e puras, porque são confiantes, porque se colocam livremente nas mãos do Pai, porque dão sem nada esperarem em troca.
E é este o testemunho que, hoje e sempre, temos que dar às crianças que nos rodeiam: sermos livres, alegres, disponíveis, generosos, sem subterfúgios, sem falsos sorrisos, sem fingimentos.
" O melhor do mundo são as crianças" :
. as pequeninas que vemos no recreio brincando felizes, acreditando num àmanhã que é já hoje....
. as médias, as que sonham com um futuro risonho, as que lutam pelos seus objectivos, as de se desiludiram, as que pretendem desistir...
. as "grandes" a quem Jesus dirige a sua advertência : "se não fordes como crianças..." e que têm mais dificuldade em a viver.
É de todos nós este 1º de Junho, porque é o dia da crianças que todos devemos procurar ser. Aproveitemo-lo ao máximo.
                  Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, o.p.


sábado, 31 de maio de 2014

O doloroso no Rosário

Estamos no último dia do mês de Maria.
Continuando a falar do Rosário, tenho em mente os Mistérios dolorosos que são talvez os que mais impressionam pela sobreposição de emoções e contradições  que suscitam. Pelo menos a mim!...
Logo no primeiro mistério,Jesus se nos apresenta em toda a sua humanidade a qual se horroriza face à dor que se aproxima : " Pai, se é possível, afasta de mim este cálice ". Mas simultâneamente nos mostra a sua disponibilidade total face à vontade do Pai : " Mas que se faça a Tua vontade e não a Minha" .
É que Ele veio ao mundo para fazer a vontade do Pai e esta vontade vai ser um somatório desmesurado de angústia, humilhação, dor...
É que no plano de Deus estava também o mostrar-nos que nenhum dos nossos sofrimentos se podem assemelhar à oferta que Jesus fez por nós. Mas também que todos cabemos nessa oferta e nela cabem todas as nossas dores e angústias.
Mas há outra lição que devemos aprender se continuamos a meditar nos mistérios do Rosário : É que há sempre Cireneus prontos para nos ajudar a levar a nossa cruz e Verónicas que nos animam com os seus gestos de amor.
Devemos estar atentos a estas ajudas a estes gestos de carinho que se nos oferecem mais ou menos voluntariamente.
Precisamos parar neste 4º mistério para reflectir se não nos teríamos fechado num orgulho vão que nos impediu de aceitar a ajuda dos amigos, o apoio daqueles que nos estimam, o sorriso dos que passaram por nós.
Estejamos atentos a acolher os Cireneus e as Verónicas que se cruzam connosco nos caminhos desta vida.
Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O Rosário na nossa vida

Estamos quase no fim do Mês de Maria. Isso é mais uma razão para voltarmos a pensar no pedido de Nossa Senhora em Fátima. Ela, aos pastorinhos, pediu que rezassem o Rosário pela conversão dos pecadores e pela paz do mundo.
Muito antes de Fátima, já a Ordem dos Pregadores fazia do Rosário uma das suas armas para o sucesso da pregação dos seus frades.
Portanto, duas razões , entre outras, para o rezarmos.
Mas também é verdade  que muitas vezes achamos  que o Rosário, na sua simplicidade, se torna uma oração monótona e aborrecida. E ficamos espantados quando constatamos o contrário.
Outro dia vi umas fotografias dum grupo de jovens rezando esta oração e fiquei impressionada com a alegria e o entusiasmo com que o faziam. Aliás, foi esse o comentário do autor das fotos e que mais ainda me chamou a atenção.
Então, o aborrecimento e a monotonia vêm talvez da forma como rezamos e do entusiasmo ( ou falta dele) que pomos na oração. É importante acompanhar as palavras com a meditação do Mistério que estamos a rezar. É para isso que essas meditações existem. Assim por exemplo quando tratamos da Anunciação, como não pensar naquela jovem, confiante e simples, a quem o anjo surpreende com uma revelação que não espera. E a surpresa não é só pela concepção imaculada que lhe é proposta mas também por todos os pressupostos que acompanham esta revelação e põem à prova a sua Fé.
Mas se pensarmos no 2º Mistério - a Visitação de Maria a Santa Isabel- temos que ter em mente esta disponibilidade que acaba de saber que vai ser mãe do Salvador e parte, generosamente, para acompanhar a prima em necessidade.
E, quando chegamos ao último Mistério- Jesus no Templo - temos que nos surpreender com esse Menino dando lições aos senhores do Templo. Mas igualmente com a resposta (que é um pergunta) que  Ele dirige a Sua mãe que aflita o procurava : " Não sabíeis que Eu tinha que tratar das coisas de Meu Pai?"
Mas , também digna de reflexão, a atitude de obediência de Jesus: " desceu com eles para Nazaré"
Se meditarmos os Mistérios do Rosário, quantas lições não aprenderemos!...
                       Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Espigas, papoilas, oliveira e malmequeres

Nos meus tempos de juventude, esta quinta feira era "dia santo de guarda". Nele, os católicos cumpriam o preceito de ir à Missa mas viviam-se também outras tradições. Por exemplo, em cada esquina da cidade de Lisboa onde eu vivia e, certamente noutras cidades, vilas e aldeias, havia mulheres risonhas com cestos floridos , que ofereciam a cada transeunte: " Ó freguesa, compre um raminho..." E alegremente se iam esgotando aqueles ramos, que cada um levava para casa. E com eles, o simbolismo que representavam:
. as espigas, que significavam o pão e a abundância;
. as papoilas que indicavam a alegria
 . o ramo de oliveira que lembrava a paz;
 . os malmequeres brancos e amarelos que profetizavam o bem e a  riqueza.                                                     
Não sei se este velho costume se mantem. Mas era um costume que marcava um tempo litúrgico e que era igualmente a recordação de compromissos assumidos para o ano.
Ignoro se, nas grandes cidades, as pessoas continuam a debruçar-se sobre os cestos para escolher o ramo mais bonito ou mais viçoso.
Não faço ideia se os jovens, sobretudo eles, ainda sabem o significado de cada elemento do ramo que levam consigo ou que as mães trouxeram para casa.
Mas o que eu sei é que passaram quarenta dias sobre a festa da Páscoa e esta quinta - feira marca a altura em que Jesus subiu ao céu, muito embora a data só seja comemorada no domingo que vem.
Jesus elevou-se, perante o pasmo e a admiração e surpresa dos Apóstolos que, apesar de tudo, ainda alimentavam a esperança de que Jesus  ficasse com eles. Era ainda diminuta a sua Fé...
" Homens de pouca Fé, porque estais a olhar para o céu?"
A missão de Jesus na terra estava terminada. Agora, ia para o Pai mas... não os deixava órfãos. Ficava presente na Eucaristia e deixou-lhes a promessa de lhes enviar o Espírito Santo que lhes ensinaria todas as coisas. 
Como os Apóstolos retiremo-nos e fiquemos aguardando a vinda do Paráclito que aumentará a nossa Fé.
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

" Factos notórios "

Quase todos os dias , se estivermos atentos, constatamos que há acontecimentos para festejar, situações para celebrar.
Ontem, por exemplo, comemorava-se o " Dia do Vizinho ". Uma realidade simpática, ainda testemunhável nas aldeias mas quase desconhecida nas grandes cidades.
Vivemos no mesmo prédio, frequentamos os mesmos espaços, percorremos a mesma rua mas, praticamente, não nos conhecemos. 
E é pena porque perdemos uma óptima ocasião para mostrar a nossa solidariedade, para dar o nosso testemunho de amor fraterno.
Mas ontem festejava-se também o 107º aniversário do nascimento de Rachel Louise Carson, uma norte-americana de quem eu nunca tinha ouvido falar. No entanto, além de escritora ( que não era uma coisa que me impressionasse sobremaneira), era uma Bióloga e Ecologista notável. E isso, sim! são campos que me dizem alguma coisa. 
E, mais interessante ainda é que, no ano em que eu nasci, foi ela nomeada directora-chefe do Departamento de pescas e vida selvagem dos Estados Unidos da América.
Não foi por acaso que se tornou cientista  no campo da Biologia e da Ecologia. Deveu o seu interesse a sua mãe que, desde muito novinha, lhe chamou a atenção para a Natureza , sua importância e necessidade de a proteger.
E, de facto, precisamos, agora mais do que nunca, de quem se preocupe com a Natureza e sua preservação, quem se preocupe com os prejuízos que voluntária ou involuntariamente o Homem lhe causa.
Não é por acaso que o "buraco do ozono" alastra; não é consequência de "nada" o aumento da poluição, a destruição da floresta, a infestação das águas...
E as modificações do clima? E o degelo da Antártida? E o avanço súbito do mar? Tudo causas naturais apenas?
Claro que o Homem não comanda a Natureza e não tem poder sobre os fenómenos naturais... Mas, o interesse pelo meio em que vivemos, o cuidado com o ambiente que nos rodeia, os conhecimentos de Biologia e Ecologia ajudam, se não a impedir, pelo menos a prevenir e a diminuir os impactos naturais.
"Só Deus pode!"... mas o Homem , com a sua liberdade, consegue fazer opções para bem e para mal.
Não vivamos alheios às consequências das atitudes que tomamos.
                    Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Chamados e escolhidos

" Muitos são os chamados e poucos os escolhidos"
Esta frase do Evangelho sempre me colocou algumas interrogações. Evidentemente que não é por "selecção de Deus" que se faz da multidão dos chamados, ( que somos todos), o grupo diminuto dos que são escolhidos.
Então, onde procurar a causa? Certamente ela está na nossa falta de correspondência , no nosso alheamento, na deficiência do nosso compromisso. Considerando que pertencemos ao grupo dos chamados, devemo-nos perguntar se Deus pode continuar a contar connosco como fazendo parte das "virgens prudentes" que entraram para o banquete das núpcias. 
Tantas vezes desperdiçámos tempo, sem correspondermos ao dom do Pai ; tantas ocasiões em que Ele esteve presente e não conheceu a nossa presença, o  nosso pedido, o nosso obrigada ; tantas situações em que o trabalho, os interesses, os outros, ocuparam o lugar de Deus...
E os dias passam, tornam-se meses, formam anos... De jovens passamos a adultos e acabamos velhos. Perdemos o entusiasmo, as forças. Demos graças a Deus se mantemos a Fé e a Alegria...
Mas que fazer com tudo o que ficou para trás e não foi aproveitado? Que vamos responder quando Deus nos disser "Tive fome e não Me deste de comer..." Não vale a pena fazer a pergunta :"Quando é que isso aconteceu? " Sabemos muito bem quando Deus teve fome da nossa presença e andámos por longe; quando tinha sede da nossa oração e estávamos "ocupados"...
" O passado não se recupera", disse uma senhora idosa outro dia na rádio. Então, talvez seja altura de voltar para trás.
"Há sempre um caminho de regresso" -costumo afirmar, quando penso ou falo nestas situações.
Então, é procurá-lo e segui-lo, porque lá se encontra o Pai  esperando por nós.
Esqueçamos o passado e tentemos construir o futuro vivendo plenamente o presente.
Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.