quarta-feira, 16 de abril de 2014

A espera

Vão-se escoando lentamente os dias que nos separam dos grandes acontecimentos desta semana.
Jesus retirou-se discretamente, sabendo que o queriam prender mas que ainda "não tinha chegado a Sua Hora".
São já dias de dor, angustiantes. É que fazer a vontade do Pai pressupõe sofrimento, humilhação, despojamento, morte...
" Pai, que se faça a Tua vontade"  é o grito assumido desde a primeira hora mas não deixa de vir repleto de sofrimento e inquietação. A humanidade de Jesus Cristo revolta-se apesar do dom oferecido e aceite voluntariamente.
Durante estes dias "de espera", digamos assim, os acontecimentos futuros vão já passando pelos seus olhos e atravessar o seu coração : para além da Paixão, a traição de Judas, a negação de Pedro, o abandono dos apóstolos... 
São dias de grande angústia e de dor. Associemo-nos a esta dor e, no silêncio da espera, procuremos encontrar a verdade da nossa vida, aquela que nos colocará mais próximo d´Ele. Aceitemos essa verdade e vivamo-la com toda a abertura e disponibilidade.
Sentemo-nos diante do sacrário, despidos de tudo o que desvirtua as nossas relações com Deus. E, em Amor e com Amor, nesta longa espera que nos separa da Ressurreição, digamos o nosso Sim, aquele que pronunciámos no dia da nossa escolha. E continuemos, calmamente, à espera dos alleluias pascais.
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

terça-feira, 15 de abril de 2014

A Grande Semana

Começou a Semana Santa, esta semana cheia de Graças,  de Mistérios, de contradições. Esta semana densa, pesada, em que temos uma sensação de desconforto, de tristeza, de perca.
É a capela despida de flores, ornamentada de roxo,; é o silêncio algo forçado; são os textos magníficos mas pesados...
Uma semana em que não sabemos bem se nos havemos de sentar aos pés da cruz, chorando todas as dores e todos os erros, se havemos de correr gritando de alegria porque o Cristo que morre vai ressuscitar para sempre. Uma semana de conflitos.
E começou já esta semana cujo início oficial será na 5ª feira, com a oferta eterna da presença de Jesus Cristo na Eucaristia da Última Ceia. Esta Ceia devia ser uma festa mas torna-se chocante com a atitude dum Mestre que se prostra a lavar os pés aos discípulos; com a saída abrupta de Judas com o seu plano de traição. Depois, vem o caminho até ao Horto das Oliveiras,a angústia do Mestre, o sono inoportuno dos discípulos que "não puderam velar uma hora com Ele". E a chegada dos soldados comandados pelo discípulo traidor. E aquele beijo que Jesus permitiu numa tentativa última de conversão, que não resultou. Em seguida, o percurso até ao palácio de Pilatos, as idas e vindas entre Anás e Caifás... E, antes da subida para o Calvário, a grande dor da negação de Pedro.
Estamos em Sexta Feira Santa- Paixão e Morte de Jesus. Junto da Cruz, Maria e João. E a promessa da maternidade divina para todos nós naquela que é a Sua Mãe : "Eis aí a tua mãe!.
Três horas ... um grande silêncio. Jesus morreu para salvação de todos nós.
Ajoelhemo-nos diante da Sua Cruz e agradeçamos este dom de Morte e Vida que vai tornar-se Ressurreição porque o amor do Pai quer a nossa salvação.
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Um conto adequado

A internet é um grande motor de busca e descoberta. às vezes dá-nos informações inoportunas mas outras fornece-nos conhecimentos importantes. E até nos conta histórias que nos fazem reflectir.
É o caso desta, que nos transmite uma mensagem bem oportuna.

A corda e nós
Num ponto qualquer do globo, não importa onde, vivia um homem sempre alegre e sereno. Pela sua maneira de estar atraía quantos passavam por ele e paravam para conversar.
E a todos causava curiosidade o motivo daquela constante alegria e bondade. Mas ninguém tinha coragem de o interrogar.
Um dia o Rei  daquele país procurou-o e disse-lhe:
- Você está sempre alegre. Será que nunca se preocupa com coisa alguma?
  Não se preocupa com o seu destino?
  Será que nunca pensa nos seus pecados, de que um dia Deus lhe vai pedir     contas?... Afinal, nesta vida, todos somos pecadores!...
Então, o homem respondeu:
- Vossa Majestade tem toda a razão em dizer que devemos dar contas do mal que fazemos.
  Eu por mim penso e ajo assim:
  Imagino que estou agarrado a Deus por uma corda.
- Como assim? - perguntou o Rei
- Quando eu peco corto essa corda ; mas quando me arrependo e peço perdão, Deus pega nas duas       pontas da corda  e faz um nó para reatá-la.
  Deste modo a corda fica mais curta  e eu fico mais perto de Deus.
  Os anos passam e eu, apesar do esforço, continuo a falhar, mas Deus vai fazendo mais nós na corda
  e, desta forma, vou chegando cada vez mais perto d´Ele...
  Então, porque me devo preocupar ou entristecer?

O Rei ficou muito admirado com a sabedoria do homem e entendeu a situação daqueles que, embora pecadores, conhecem e amam a Deus.
Que tal a lição para a Quaresma?

domingo, 13 de abril de 2014

Viver as contradições

Entramos na Semana Santa, a semana das grandes contradições, das grandes glórias e das grandes humilhações, dos grandes testemunhos e da imensa traição.
É Domingo de Ramos. Lembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.
E quando empunhamos aquele ramo simbólico, lembramos a euforia , os gritos de alegria e de louvor da multidão.
Hossana oh! filho de David.
Saúdam o Rei, o libertador, aquele que eles julgam os vai libertar do domínio do povo estrangeiro, que pensam que lhes vai conseguir um reino de abundância, de felicidade, o reino anunciado outrora pelos profetas.
Mas aqui, temos que considerar a primeira contradição: o Rei vem montado num jumentinho que nem sequer lhe pertence.
E depois, a outra grande contradição: os mesmos que o exaltam e aclamam são aqueles que o vão entregar, que o vão acusar de prejúrio e vão ser cúmplices da crucificação.
O Rei, o nosso Rei, é um Rei crucificado, morto mas ressuscitado. E o reino, o Seu reino, está dentro de nós e só será diferente quando conseguirmos ver Deus e observar a Vida  despidos da roupagem enganadora com que os tentamos disfarçar para que não os vejamos com a Luz da Verdade.
É este Reino novo, passado pelo sofrimento e centrado na Verdade, que Jesus nos quer oferecer. Um reino de desprendimento, de alegria no dom e na partilha.
É para esse reino que Ele nos convida neste Domingo, de glória e de drama antecipado. Queremos pertencer-lhe?
A escolha é nossa. Queremos um reino terreno, ilusório ou ser testemunhas deste Rei crucificado?
                         Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sábado, 12 de abril de 2014

Tu sabes que Te amo

Meu Deus eu me entrego
nas Tuas mãos.
Modela e remodela este barro
como argila nas mãos do oleiro.
Dá-lhe uma forma
e, depois, se quiseres, desfá-la...
Pede, ordena, Que queres que eu faça?
Que queres que eu não faça?
Exaltada ou humilhada, perseguida,
incompreendida, alegre e triste
 ou inútil para tudo, só direi a exemplo da Tua Mãe:
" Faça-se em mim segundo a Tua palavra "
Dá-me o amor por excelência,
o amor da cruz. Não das cruzes heróicas,
que poderiam aumentar a minha vaidade,
mas de cruzes vulgares que, no entanto,
suporto com repugnância: aquelas que se
encontram todos os dias na contradição,
no esquecimento, no fracasso, nos falsos juízos,
na frieza, nos desaires
e nos desprezos dos outros, no mal-estar
e defeitos do corpo, na obscuridade da morte
e no silêncio e aridez do coração.
Então, e só então, Tu saberás que Te amo.
E. mesmo que eu o não saiba, isso me basta
                  R. Kennedy



sexta-feira, 11 de abril de 2014

A escolha...

Enquanto tentava pôr em ordem os pensamentos duma noite atribulada, quase instintivamente abri a Bíblia ao acaso. Saiu-me o Evangelho de S. Lucas e nele a parábola da ovelha perdida. Directamente não tinha nada a ver com os meus pensamentos revolto. E daí...
Não pude deixar de me perguntar o que tinha levado o pastor a deixar todo o rebanho para ir à procura duma única ovelha que se tinha perdido. Porquê? Era menos uma ? Tinha que dar contas dela? Era um prejuízo material acrescido? Aquela era uma ovelha especial?
Por tudo isso talvez... o pastor tinha ido à procura... mas o mais natural é que a preocupação do pastor se centrasse simplesmente na ovelha que se tinha perdido. Apenas isso. Daí a alegria ao encontrá-la.
Se das ovelhas passarmos ao " rebanho " a que nós pertencemos, constatamos como é fácil perdermo-nos.
E aqui entro no campo dos meus pensamentos. 
O trabalho, os interesses, os projectos, as preocupações, o imediato e o indispensável são outros tantos motivos que nos levam, fàcilmente e quase sem darmos por isso, a nos afastarmos do caminho certo e a nos enfiarmos por "veredas tenebrosas".
Às vezes perdemo-nos voluntariamente, sabende de antemão que estamos a escolher caminhos que nos conduzem a metas indesejáveis. Só muito mais tarde lamentamos o tempo e os esforços desperdiçados... Mas outras vezes é a inconsciência , o ambiente pelo qual nos deixamos envolver ou o grupo ao qual pertencemos que nos levam a um percurso do qual não encontramos a saída.
Perdemo-nos!... Talvez um dia , olhando para trás, para esse "passado que já não é" constatemos quão longe nos encontramos da meta onde o Senhor nos espera.
Mas não vale a pena "chorar sobre leite derramado" . Vale sim a pena recomeçar, certos de que Deus não nos quer nunca perdidos. E tal como o pastor que leva a ovelha ao colo; tal como o pai do filho pródigo, que sai ao seu encontro, também Deus nos aguarda para se congratular com o nosso regresso.
Aproveitemos este tempo de Quaresma, que é tempo de reencontro, para procurar e seguir o caminho certo.
           Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O importante é dar-se

Não sei porquê, quando há pouco, estava em frente do computador, à procura de inspiração, lembrei-me daqueles dois apóstolos a quem se dirige um paralítico. Não sei a pedir o quê; não me lembro se formulou o pedido, mas recordo muito bem da resposta dos apóstolos : " Não temos ouro nem prata mas o que temos vamos dar-te: Levanta-te e anda! E o paralítico começou a andar.
Transferindo este episódio  para a nossa vida, interrogo-me se não será isto que os outros esperam de nós, os amigos, os indiferentes, os que passam ao nosso lado... Mais importante do que dar-lhes coisas não estarão eles à espera de que nos demos?
Não contarão que nos lembremos que o "sol quando nasce é para todos"  e que isto leva a pensar em igualdade, partilha, fraternidade ? Não acharão que devemos ter presente que ninguém é maior do que o outro, nem merece mais do que ele, só porque sim?
É que, de facto, todos somos iguais, irmãos, filhos do mesmo " Pai que está nos céus " e portanto a colaboração e a solidariedade são exigências de vida, sobretudo para os cristãos.
Na rádio está-se a fazer uma campanha em favor dos bebés com necessidades " Malhas que o amor tece". É habitual no Natal e na Páscoa, como têm tempos determinados as campanhas do Banco Alimentar contra a fome. Mas, a partilha não deve fazer parte do nosso dia a dia, mesmo que seja a partilha dum sorriso ou duma palavra?
Não podemos apagar o sol a nosso belo prazer , porque estamos tristes ou aborrecidos, como não o podemos fazer surgir para alegrar as nossas vidas.
" O sol quando nasce é para todos " Não deixemos que a injustiça apague o sol nos olhos daqueles que se cruzam connosco; não façamos com  a nossa atitude que o sol esmoreça no coração daqueles que esperam de nós pelo menos uma palavra, um sorriso, um olhar.
Ontem uma pessoa amiga disse-me que nos meus olhos havia luz e alegria... Fiquei a pensar se sempre era assim e se sempre partilharia desse dom.
                    Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.