terça-feira, 8 de abril de 2014

"LIsboa tem mais encanto..."

Lisboa tem mais encanto de cada vez que  lá se volta.  Para mim, não é como no fado, que diz que o encanto de Coimbra chega na hora da despedida... Para mim, o encanto aumenta cada vez que se volta a Lisboa. E eu estive novamente na cidade a respirar aquele ar poluído resultante do tráfico intenso, das habitações acumuladas, das chaminés mal cuidadas.Mas também a contemplar a beleza maravilhosa do estuário do Tejo, com a sua grandiosidade, a sua cor, a sua luz.
Deixei-me envolver pelo conhecido. Desci até ao Jardim da Estrela e entrei na Basílica para, no silêncio que ali reinava, poder realizar o meu diálogo com o Pai.
Apanhei o eléctrico, o célebre 28, e segui até ao Chiado. Ali, deixei-me envolver pela multidão de turistas que entra e sai das igrejas, admira as montras das elegantes lojas da não menos elegante R. Garret e acaba na Brasileira, lado a lado com o Pessoa.
Depois, desci a R. do Carmo e encontrei-me no Rossio. Parei um instante a admirar os novos-velhos estabelecimentos , o movimento, a venda de flores, a calçada portuguesa, as fontes murmurantes, a estátua de D. Pedro IV... Entrei na Pastelaria Suiça a beber um chá e continuei pela sombra até parar diante do sempre admirável teatro Nacional D. Maria II e, à esquerda, a restaurada estação dos caminhos de ferro..
Cheguei à Praça dos Restauradores e ao seu monumento comemorativo. Para além, de baixo para cima, estende-se a Av, da Liberdade, com o seu arvoredo, os seus bancos, as seus lagos, as suas lojas caras, os seus quiosques e esplanadas...
Ao fundo, bem no centro da praça, o pedestal com a estátua do Marquês de Pombal, um homem admirado por alguns , odiado por muitos...
Estava cansada e por demais emocionada. 
Não me apeteceu subir a Avenida apesar dos seus encantos e atractivos. Apanhei um autocarro e regressei à Estrela, inebriada de cor, de cheiros, das luzes da minha cidade.
E voltei a entrar na Basílica. Agora, para agradecer as mil graças deste dia na cidade. Havia silêncio. Ninguém ! Apenas uma música suave e, no sacrário, Jesus Cristo que acolhe aqueles que O procuram e a Ele se entregam.
Fiquei, na certeza de que lá, apenas Ele e eu.

                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

domingo, 6 de abril de 2014

Aproveitar o tempo que passa

É engraçado como, à medida que vamos envelhecendo, nos vamos apercebendo melhor da velocidade com que o tempo passa. Os dias sucedem-se... o tempo corre... escoa-se entre os dedos como a areia com que brincamos na praia.
Ainda " ontem " foi Verão e gozávamos das alegrias do calor à beira mar e já estamos novamente quase a preparar as malas para férias. É que já estamos em férias de Páscoa. Páscoa "hoje" quando ainda "ontem" foi Natal ...  O tempo voa!
E porque estamos em férias e é domingo, há um grande silêncio a envolver-nos. Ainda não é o grande Silêncio da Semana Santa, mas acho que este nos começa a preparar para ele. 
E sentimo-nos estranhos com este silêncio  que nos rodeia, consequência da ausência de alunos, das suas brincadeiras, dos seus gritos por vezes incómodos.
Mas também fruto dum tempo sombrio, algo opressivo, apesar do sol querer despontar para dizer que estamos na Primavera.
O silêncio continua a envolver-nos neste início de manhã. Talvez aproveitarmos para criar em torno de nós o ambiente de sossego propício à reflexão tão adequada a estes dias de fim de Quaresma, de vésperas de Semana Santa.
Deus fala no silêncio! Deixemos que ele nos invada e nos encha de paz. Desprendamo-nos de conversas inúteis, de trabalhos desnecessários, de pensamentos incómodos , de planos desassossegados. Recordemo-nos que desprendimento significa libertarmo-nos, ficar "livres para"...entrar no nosso quarto, fechar a porta e encontrarmo-nos com Jesus, segui-Lo na Sua caminhada até ao Calvário; livres para testemunhar o Amor de Deus que exigiu a morte do Seu Filho para salvação dos homens; livres para, à semelhança de Maria, dizer o nosso Sim de adesão ao plano do Pai.
Procuremos o silêncio e nele fiquemos, com a certeza de que estamos sós mas... nós e Deus.
                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sábado, 5 de abril de 2014

Recuperar o passado

" Não podemos recuperar o passado"  era o lamento duma senhora idosa ontem na rádio. Fiquei a pensar se sim se não, dividida entre a possibilidade ilusória da reconstrução e a realidade do evoluir do tempo.
Mas realmente não; não podemos recuperar o passado, até porque vivemos no "presente que é um instante entre o passado que já não é e o futuro que ainda não foi" . O passado ficou para trás, para o baú das nossas memórias. Não o podemos desenterrar e por isso não podemos reviver o tempo que desbaratámos, apagar os erros que cometemos, ultrapassar os fracassos que lamentámos. Mas também não vale a pena. O "ontem" passou e ficou inscrito no livro dos dias passados
E se nos lembrarmos da frase de Michel Quaist " a Vida é o novo Evangelho em que nós próprios escrevemos um folha cada dia" mais nos convencemos de que o passado foi ontem e não vale a pena recuperá-lo. O importante é construir o futuro, aquele que Deus prepara para nós em cada momento. 
E a vida é cheia de novidades, de imprevistos, de alegrias e tristezas, sinais que nos querem mostrar aquilo que Deus espera de nós. E as respostas que vamos dando, são as páginas em branco que vamos preenchendo e são já os alicerces do futuro.
E devíamos preenchê-las com um sorriso nos lábios e a alegria no coração. Esse sorriso e essa alegria que nos vão faltando, por vezes, face às contrariedades que se nos deparam no caminho. Mas não deixemos que os maus momentos se instalem . Também eles vão, rapidamente, fazer parte do passado, desse passado que não podemos recuperar. Nem queremos!... 
Lembremos tudo o que de bom a vida nos vai dando, agradeçamo-lo ao Pai e construamos um futuro de Fé e alegria.
                       Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Deixemos o que nos pesa

" Não leveis nada para o caminho..."
É recomendação de Jesus aos apóstolos quando os envia a pregar.
Ide!... mas não leveis nada que vos pese, que vos impeça de andar, de caminhar ligeiros ao encontro dos que precisam de vós... é a nossa interpretação ao ler a recomendação de Jesus.
E esta palavra que Jesus dirige aos apóstolos sempre me incomodou, sobretudo quando preparo uma mala para um fim-de-semana, uma viagem ou mesmo para férias.
É que levo tudo o que preciso, tudo o que talvez precise, tudo o que não vou mesmo precisar. E a vós, não acontece isto?...
Levamos tudo, como medida de precaução...
E se pensarmos naqueles peregrinos, que fazem caminhadas a pé, estamos a vê-los carregar com uma imensidade de coisas inúteis, só porque talvez?...
E se pensarmos em Nossa Senhora, acaso ia ela carregada, quando "apressadamente" se dirigiu para casa de sua prima Isabel? Certamente que não!
Mas nós, até na vida do dia-a-dia vamos fazendo "acumulação de bens" : o que nos dão, o que adquirimos, o que juntamos , porque... nos pode vir a ser necessário, porque são recordações, porque é de estimação, porque lembra um momento ou uma pessoa especial.
E não temos a coragem de nos libertar, de nos despojarmos, para ficarmos mais livres, mais leves, mais capazes de ir ao encontro dos que nos esperam.
" Não leveis nada para o caminho" disse Jesus aos apóstolos e di-lo a nós , referindo-se à caminhada desta vida.
Às vezes recordo com saudade um "sonho " da Juventude, dos meus primeiros anos de religiosa, quando as palavras de Jesus tocavam mais fundo e mais intensamente os nossos corações cheios de entusiasmos. E pensava em viver numa tenda no deserto, sem nada, confiando apenas na Providência Divina.
Simplesmente o deserto era aqui, e a tenda, o convento em que vivia...
Mas o "sonho" tem que persistir, estar presente em todos nós. Um "sonho" de desprendimento, de liberdade, de acolhimento, de confiança num Pai que "alimenta os lírios do campo" e nos dá a nós  "o pão nosso de cada dia".
                   Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A luta entre o sol e a chuva

Finalmente a Primavera, que ainda não se quer mostrar em plenitude, deu os primeiros indícios de querer aparecer. Hoje não está a chover embora haja muitas nuvens no céu. E um sol, embora tímido, teima em querer aparecer, embora só ligeiramente.
Mas é o suficiente para que surja alegria nos corações e se sinta um ambiente mais leve e mais tranquilo.
Os dias de chuva trazem tristeza ao meio que nos envolve e sentimos que aumentam as nossas dúvidas, as nossas inquietações, os nossos medos.
E tudo isso parece que nos paralisa, que faz adiar as respostas que se impõem , respostas devidas aos projectos que escolhemos, às opções que fizemos.
O sol, quando chega, traz consigo nova esperança , transporta uma alegria nova,  e torna assim mais consistente a certeza do que Jesus afirmou um dia a um leproso que O procurou : "... A tua Fé te salvou "
É que a Fé não passa por acaso pelas nossas vidas .Ela deve estar sempre presente porque é ela que dá força para ultrapassarmos as dificuldades que se levantam a cada passo; é ela que nos faz acolher os planos que não traçámos e atingir os objectivos que se apresentam sem que os tivéssemos delineado.
A Fé que salvou aquele leproso do Evangelho também nos salva a cada um de nós... das dúvidas, das inquietações, das incertezas, dos erros... dos dias sem sol.
Abramos os nossos braços  ao sol que desponta e o nosso coração à Fé que recebemos no Baptismo.
Acreditemos que o sol vai continuar a sorrir e a alegria a encher as nossas vidas. E assim seremos Felizes.

Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Lições que se aprendem

Gosto sempre de aumentar os meus conhecimentos, venham as informações donde vierem e sobretudo, se chegam de fonte fidedigna. Foi o que aconteceu outro dia ao ler uns textos escritos por um pessoa amiga. Neles aprendi duas grandes lições, que estou a partilhar com aqueles que me lêem.
A 1ª lição foi que é preciso ambiente, tempo e persistência para se conseguirem as condições para uma boa oração.
É que para rezar é necessário encontrarmo-nos connosco mesmos , escutar, no silêncio, a Palavra que nos é dirigida, procurar a resposta que Deus espera. Rezar é realizar este diálogo silencioso entre Deus e o Homem.
Mas, não é fácil entrar dentro de nós mesmos , fazer este silêncio para escutar a palavra do Pai e encontrar em nós a resposta adequada.
Não é fácil criar o clima que se coaduna com o diálogo que se espera que efectuemos, que nos vai pôr face às questões que aguardam a nossa resposta. Não é fácil mas não podemos desanimar, porque temos que corresponder ao pedido que nos foi feito: "Sede santos como o vosso Pai é santo"...
E neste tempo da Quaresma vem mesmo a propósito esta lição que recebi.
Mas a 2ª lição é igualmente importante e fala-nos de vida. Lembra-nos que esta tem altos e baixos , tempos de euforia e felicidade e momentos de tristeza e melancolia.
Há alturas em que somos convidados a deixar projectos, planos, trabalhos que nos agradavam e achávamos mesmo necessários, para enveredar por outros caminhos, outras actividades, outras ocupações menos atraentes. Mas se calhar, é nestas que se enquadra o plano de Deus...
Como ultrapassar a frustração, o desconforto, talvez até a dúvida?
Também nem sempre é fácil!... Aqui, é preciso entrar com uma certa dose de optimismo e com toda a nossa confiança e Fé.
É preciso ter a certeza de que Deus não nos pede nada que esteja acima das nossas forças ; que Ele deseja para nós a Felicidade. Mas... o caminho que nos propõe é aquele que Ele percorreu , rumo ao Calvário.
Sigamos, confiadamente e com coragem,os passos de Jesus e com Ele encontraremos a felicidade da Ressurreição.
                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sábado, 29 de março de 2014

A liberdade da escolha


Muitas vezes quando somos chamados a fazer opções não avaliamos das consequências que elas podem ter para nós e para os outros.
E às vezes as coisas correm mal , de modo diferente dos objectivos que tínhamos imaginado e dos planos que havíamos  traçado.
Então, não recordamos a frase de Pablo Neruda. Limitamo-nos a lamentar o sucedido e... quantas vezes? a lançar as culpas para os outros, para as circunstâncias, para as limitações impostas... eu sei lá!
E, por falar e lembrar Pablo Neruda, recordei um filme que vi há tempos - O carteiro de Pablo Neruda.
Nele também havia escolhas, opções, decisões tomadas e a tomar; também houve consequências, mais ou menos graves. Mas. engraçado! não me lembro das culpas serem atiradas para alguem ou alguma coisa. Talvez não me lembre bem. Mas também não importa. O que é indispensável é ficarmos com a certeza de que Deus nos fez livres e nos quer livres.
Por isso, podemos escolher o caminho que mais nos encanta, que julgamos o melhor ou o mais conveniente. Mas, não podemos esquecer  que as consequências vão-nos ser imputadas e delas teremos que dar contas a Deus.
Ser livre é uma graça mas é também uma responsabilidade.
Mas, tenhamos uma certeza : mesmo quando escolhemos mal, temos sempre a oportunidade de retroceder e lá... está Deus à nossa espera.
            Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.