sexta-feira, 14 de março de 2014

Hora da paragem

Estamos a viver a primeira semana da Quaresma. Aliás, encontramo-nos quase no fim da semana e é altura, pelo menos para mim, de começar a "fazer contas", a reflectir como viver este tempo em que, liturgicamente a cor é o roxo. E não é por acaso!...
É que estas seis semanas são tempo sério , um convite profundo a uma reflexão intensa, uma chamada de atenção para pensarmos como tem que ser a nossa caminhada, aquela que nos vai levar até à Páscoa.
Não podemos deixar escoar estes dias como areia que se solta livremente das nossas mãos. Porque este é tempo de reflexão, de intimismo, de oração, de penitência, de conversão.
Para muitos podem ser dias como os outros.Mas nós cristãos não os podemos ver assim e, menos ainda, podemos deixar de os viver em caminhada de renúncia, de partilha, de sacrifício.
Mas não vale a pena ter medo nem imaginar grandes sacrifícios e renúncias que nos atemorizam e que talvez não sejamos capazes de fazer. Basta viver em intensidade o nosso dia-a-dia estando atentos aos pequeninos nadas que podemos suprimir ou introduzir na nossa vida. Talvez discretamente, talvez sem grande esforço, mas sempre com Amor, como dádiva. como entrega.
São quarenta dias estes de que a Igreja nos fala, quarenta dias que vão do carnaval à Semana Santa; quarenta dias em que, sobretudo devemos arranjar tempo para "olhar para dentro", para descobrir o que nos afasta de Cristo que, do alto da cruz nos proclamou como filhos do Seu Pai.
São quarenta dias que nos chamam cada manhã para que os vivamos, para que paremos a tirar  "dos nossos olhos as traves" que nos impedem de ver o caminho; para que nos detenhamos a apanhar as pedras que dificultam a nossa caminhada e com as quais vamos construir o sepulcro em que Jesus repousou e a catedral do nosso coração.
  Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Fátima - 2001



Neste Maio de 2001, o Colégio, como todos os anos, foi a Fátima.
Éramos muitos, desde os pequeninos até ao secundário.
Fomos de camioneta, como é natural e, durante o caminho estivémos falando de Nossa Senhora, das aparições, dos pastorinhos e, rezando o Terço. Era uma peregrinação, o que supunha um certo clima de interioridade.


Em Fátima, vários momentos de celebração: no poço, nos Valinhos, na Loca do cabeço.

O almoço era pic-nic e comemo-lo nos Valinhos, antes da celebração junto de Nossa Senhora. Depois, em silêncio, mais ou menos dois a dois, subíamos até ao Anjo de Portugal onde lhe prestávamos a nossa homenagem.
Novamente de camioneta, voltávamos ao Santuário, onde íamos oferecer flores a Nossa Senhora e fazer-lhe a nossa consagração.
O regresso era mais descontraído mas ninguém esquecia a ida a Fátima e as intenções que lá nos levavam.
E aqui está mais uma recordação das actividades que aconteciam no Colégio, cada ano.
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.



Mensagem dum Amigo

Acabei de ler um texto, em forma de poema, que traduz bem o que nos acontece muitas vezes, sobretudo neste tempo.
" O meu amigo chama-me.
Bate à porta. Grita.
Não ouço.
Não estou atenta.
Não me apetece escutar o seu convite.
Faço ouvidos surdos..."
Neste tempo que estamos a viver, o tempo da Quaresma, Deus chama-nos, todos os dias, a todo o momento.
Chama-nos para que escutemos a Sua palavra, para que entremos no nosso quarto, fechemos a porta e... não paremos a ouvir música ou a escrever no computador... antes, façamos uma pausa para entrar dentro do nosso coração e ouvir a Sua palavra.
Quaresma é tempo de apelo, tempo em que Deus nos chama a mudar de vida, a acolher o Seu Filho que nos mostra o caminho a seguir.
Quaresma é tempo para abandonar tudo o que nos impede de ouvir o coração, de sermos melhores, de nos tornarmos tão florescentes como o jardim em plena Primavera.
Quaresma é tempo de abandonar os velhos hábitos que nos instalaram numa vida serena mas medíocre, de nos erguermos e, cheios de entusiasmo agarrarmos ma cruz. a nossa cruz,e seguir, com Jesus, a caminho do Calvário.
Quaresma é tempo de escolha, de opção entre fechar os ouvidos e manter os velhos costumes de egoísmo, mentira, preguiça... ou, levantarmo-nos e prepararmo-nos para a Ressurreição.
Quaresma é tempo de ouvir o apelo:
" Vamos! Ergue-te! Deus chama-te a segui-Lo"
Vamos recusar? Fazer ouvidos surdos? Continuar desatenta, porque não me apetece escutar o convite?
                 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.




quarta-feira, 12 de março de 2014

Uma tarde no hospital

Uma tarde passada num hospital, à espera duma consulta,é uma situação simultâneamente desesperante, cómica e trágica, ao mesmo tempo. 
Primeiro são as filas : para entregar carta de chamada; para confirmar exames; para assegurar a consulta. E até para pagar, se o "sistema" estiver em stand by.
Depois são as esperas, nas várias salas: aguardar para os exames; esperar para ser atendida...
Mas... também há comicidade, se a quisermos assim entender, e não estivermos de todo desesperados. As conversas dos doentes são muito elucidativas: para uns, os médicos são óptimos, verdadeiros santos; para outros, nem tanto. Uns queixam-se do serviço de enfermagem ou de atendimento mas outros são só elogios. E quando chegamos ao sector "maleitas" é um nunca mais acabar de doenças conhecidas ou desconhecidas. Lembramo-nos logo da lista do Raul Solnado no seu monólogo "Ida ao médico".
Mas, no meio de tudo isto, quantos dramas humanos ali são revelados ou deixados adivinhar...quantas angústias testemunhamos ou descortinamos... quantas pessoas idosas, sòzinhas, com dificuldades e tendo que enfrentar este mundo de barreiras que é preciso transpôr...
Acho que ficamos doentes só de constatarmos quanto sofrimento, físico ou moral, quantas situações dramáticas, quanta angústia recalcada.
E esquecemos o que há de desesperante ou de cómico para apenas nos centrarmos no que representa, para muitos, a necessidade dessa visita ao hospital.
Em tempo de Quaresma tenhamos presente os dons que recebemos e saibamos partilhar, comunicar, estar presente.
                 Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quarta-feira, 5 de março de 2014

4ª feira de Cinzas

"Lembra-te ó homem que és pó e em pó te hás-de tornar"
É uma alusão ao início da vida sobre a terra, quando Deus criou Adão e Eva usando o pó da terra e, ao mesmo tempo, uma chamada de atenção para o quanto é fugaz a permanência do homem na terra dos vivos. Do pó da terra o homem foi feito; em pó se há-de tornar 
Daí, a colocação das cinzas sobre as nossas cabeças, neste dia : recordação e apelo.
Recordação do que somos, do que fizemos, do que temos; apelo à conversão, à mudança, à viragem para uma vida melhor.
Mas aqui estamos a considerar apenas a parte material - o corpo. Não entramos em linha de conta com o espírito, a alma, o coração. A pensar neles, nas suas circunstâncias  e realidades, para atender às suas necessidades o texto de S. Mateus " ...entra no teu quarto, fecha a porta e ora".
É uma sugestão para que nos encontremos connosco mesmos, para nos confrontarmos com as nossas fragilidades e deficiências, para constatarmos quantos dons  desperdiçámos e quantas infidelidades cometemos nas nossas vidas.
Seria razão para termos medo de entrar e parar; teríamos motivo para não querermos fechar a porta da nossa alma... O medo pode querer apossar-se de nós ... mas não podemos deixar, porque no fundo do nosso quarto, à nossa espera, para um encontro de Amigo, de Confidente, de Irmão, está Jesus Cristo. E Ele, é a Luz que nos vai iluminar, a força que nos vai encorajar à mudança a que a Quaresma nos convida.
Com coragem, com confiança, entremos no nosso quarto e comecemos este tempo que nos vai levar até à Ressurreição.
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

terça-feira, 4 de março de 2014

A Ousadia do Dom

Estamos por demais habituados à situação de receber porque, em boa verdade, desde sempre, na nossa vida, esteve presente a componente" recepção".
O bebé recebe o carinho da mãe e a graça do Baptismo; o jovem a quem os pais dão a educação e os professores a instrução; os adultos que recebem a recompensa do seu trabalho e os dons do dia -a-dia; os idosos que são acolhidos com compreensão e amor pelos mais novos.
Por isso, quase achamos que receber é um direito e uma obrigação dos outros, esquecendo-nos que "é dando que se recebe".
Dar: a alegria da criança; o obrigado do jovem; o abraço do adulto; a palavra certa do Amigo.
É que  o prazer de ter recebido transforma-se em dom e até se apelida de gratidão. André Conte-Sponville diz mesmo que " a gratidão não tem mais a dar que este prazer de ter recebido". E a gratidão é a alegria que enche o nosso coração nesta simbiose entre o dar e o receber.
Recordemos, na cena do Evangelho, aquela mulher que deposita na caixa das esmolas duas pequenas moedas- tudo quanto tinha- e que Jesus elogia porque ela deu mais do que todos os outros porque deu tudo quanto possuía. E certamente voltou para casa de alma cheia porque no dar tinha recolhido a sua recompensa e encontrado o prazer da oferta.
E, se remetermos novamente ao Evangelho, recordando uma outra vez o jovem rico, temos a convicção de que foi esta alegria do receber dando, que ele recusou; foi o prazer de recolher gratidão na dádiva, que ele não quis aceitar.
Estejamos, então, nós abertos a esta partilha, a esta oferta, a esta libertação que é também a ousadia de oferecer ao mundo o testemunho dum Deus que se fez Homem- Jesus Cristo - que se deu para fazer de nós, como Ele, filhos de Deus.
                          Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sábado, 1 de março de 2014

Escolhas e certezas

"Vem por aqui, dizem-me alguns com olhos doces
... seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "Vem por aqui"
Eu olho-os com olhos lassos
( Há nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali..."

São versos de José Régio, versos talvez dum certo desencanto, duma certa frustração. Versos de quem talvez não tenha uma perspectiva maior? Ou de quem anda à procura dela? Será assim que se escolhe "a melhor parte" de que Jesus  falou, respondendo a Marta?
Evidentemente que não podemos deixar-nos levar por sugestões apresentadas por quem não conhecemos, aceitar convites de que desconhecemos a origem, as intenções ou os pressupostos... 
"Não vamos por aí!", como José Régio
Mas há o conselho do amigo, a opinião do irmão, o fruto da nossa reflexão e tomada de consciência... Então sim. é de ir, é de acolher, é de seguir.
"Não vou por aí!" ... pelo errado, o desconhecido, o perigoso.
Mas vou atrás da Luz que guiou os Magos ao presépio, vou seguir a opção que Jesus elogiou a Maria Madalena: "ela escolheu a melhor parte"
Mas às vezes temos dúvidas!
A observação de Jesus é um paradigma para nós, de certo.
"Maria escolheu a melhor parte..." Mas qual a parte que devemos escolher? Onde a encontramos nas nossas vidas? 
A parte da reflexão, da partilha, do perdão?
"Não vou por aí!" 
Escolher o caminho mais difícil, a tarefa mais árdua, o encontro mais complexo?
Para escolher "a melhor parte" é preciso estar atento, de joelhos aos pés de Jesus, ouvindo-O. É preciso não ir por ali, pelo caminho mais fácil, pela vereda mais plana, pela estrada mais luminosa.
É estar simplesmente expectante e ouvir Deus no nosso coração. Ele não deixa de nos indicar qual é "a melhor parte"
                        Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.