quarta-feira, 12 de março de 2014

Uma tarde no hospital

Uma tarde passada num hospital, à espera duma consulta,é uma situação simultâneamente desesperante, cómica e trágica, ao mesmo tempo. 
Primeiro são as filas : para entregar carta de chamada; para confirmar exames; para assegurar a consulta. E até para pagar, se o "sistema" estiver em stand by.
Depois são as esperas, nas várias salas: aguardar para os exames; esperar para ser atendida...
Mas... também há comicidade, se a quisermos assim entender, e não estivermos de todo desesperados. As conversas dos doentes são muito elucidativas: para uns, os médicos são óptimos, verdadeiros santos; para outros, nem tanto. Uns queixam-se do serviço de enfermagem ou de atendimento mas outros são só elogios. E quando chegamos ao sector "maleitas" é um nunca mais acabar de doenças conhecidas ou desconhecidas. Lembramo-nos logo da lista do Raul Solnado no seu monólogo "Ida ao médico".
Mas, no meio de tudo isto, quantos dramas humanos ali são revelados ou deixados adivinhar...quantas angústias testemunhamos ou descortinamos... quantas pessoas idosas, sòzinhas, com dificuldades e tendo que enfrentar este mundo de barreiras que é preciso transpôr...
Acho que ficamos doentes só de constatarmos quanto sofrimento, físico ou moral, quantas situações dramáticas, quanta angústia recalcada.
E esquecemos o que há de desesperante ou de cómico para apenas nos centrarmos no que representa, para muitos, a necessidade dessa visita ao hospital.
Em tempo de Quaresma tenhamos presente os dons que recebemos e saibamos partilhar, comunicar, estar presente.
                 Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quarta-feira, 5 de março de 2014

4ª feira de Cinzas

"Lembra-te ó homem que és pó e em pó te hás-de tornar"
É uma alusão ao início da vida sobre a terra, quando Deus criou Adão e Eva usando o pó da terra e, ao mesmo tempo, uma chamada de atenção para o quanto é fugaz a permanência do homem na terra dos vivos. Do pó da terra o homem foi feito; em pó se há-de tornar 
Daí, a colocação das cinzas sobre as nossas cabeças, neste dia : recordação e apelo.
Recordação do que somos, do que fizemos, do que temos; apelo à conversão, à mudança, à viragem para uma vida melhor.
Mas aqui estamos a considerar apenas a parte material - o corpo. Não entramos em linha de conta com o espírito, a alma, o coração. A pensar neles, nas suas circunstâncias  e realidades, para atender às suas necessidades o texto de S. Mateus " ...entra no teu quarto, fecha a porta e ora".
É uma sugestão para que nos encontremos connosco mesmos, para nos confrontarmos com as nossas fragilidades e deficiências, para constatarmos quantos dons  desperdiçámos e quantas infidelidades cometemos nas nossas vidas.
Seria razão para termos medo de entrar e parar; teríamos motivo para não querermos fechar a porta da nossa alma... O medo pode querer apossar-se de nós ... mas não podemos deixar, porque no fundo do nosso quarto, à nossa espera, para um encontro de Amigo, de Confidente, de Irmão, está Jesus Cristo. E Ele, é a Luz que nos vai iluminar, a força que nos vai encorajar à mudança a que a Quaresma nos convida.
Com coragem, com confiança, entremos no nosso quarto e comecemos este tempo que nos vai levar até à Ressurreição.
Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

terça-feira, 4 de março de 2014

A Ousadia do Dom

Estamos por demais habituados à situação de receber porque, em boa verdade, desde sempre, na nossa vida, esteve presente a componente" recepção".
O bebé recebe o carinho da mãe e a graça do Baptismo; o jovem a quem os pais dão a educação e os professores a instrução; os adultos que recebem a recompensa do seu trabalho e os dons do dia -a-dia; os idosos que são acolhidos com compreensão e amor pelos mais novos.
Por isso, quase achamos que receber é um direito e uma obrigação dos outros, esquecendo-nos que "é dando que se recebe".
Dar: a alegria da criança; o obrigado do jovem; o abraço do adulto; a palavra certa do Amigo.
É que  o prazer de ter recebido transforma-se em dom e até se apelida de gratidão. André Conte-Sponville diz mesmo que " a gratidão não tem mais a dar que este prazer de ter recebido". E a gratidão é a alegria que enche o nosso coração nesta simbiose entre o dar e o receber.
Recordemos, na cena do Evangelho, aquela mulher que deposita na caixa das esmolas duas pequenas moedas- tudo quanto tinha- e que Jesus elogia porque ela deu mais do que todos os outros porque deu tudo quanto possuía. E certamente voltou para casa de alma cheia porque no dar tinha recolhido a sua recompensa e encontrado o prazer da oferta.
E, se remetermos novamente ao Evangelho, recordando uma outra vez o jovem rico, temos a convicção de que foi esta alegria do receber dando, que ele recusou; foi o prazer de recolher gratidão na dádiva, que ele não quis aceitar.
Estejamos, então, nós abertos a esta partilha, a esta oferta, a esta libertação que é também a ousadia de oferecer ao mundo o testemunho dum Deus que se fez Homem- Jesus Cristo - que se deu para fazer de nós, como Ele, filhos de Deus.
                          Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sábado, 1 de março de 2014

Escolhas e certezas

"Vem por aqui, dizem-me alguns com olhos doces
... seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "Vem por aqui"
Eu olho-os com olhos lassos
( Há nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali..."

São versos de José Régio, versos talvez dum certo desencanto, duma certa frustração. Versos de quem talvez não tenha uma perspectiva maior? Ou de quem anda à procura dela? Será assim que se escolhe "a melhor parte" de que Jesus  falou, respondendo a Marta?
Evidentemente que não podemos deixar-nos levar por sugestões apresentadas por quem não conhecemos, aceitar convites de que desconhecemos a origem, as intenções ou os pressupostos... 
"Não vamos por aí!", como José Régio
Mas há o conselho do amigo, a opinião do irmão, o fruto da nossa reflexão e tomada de consciência... Então sim. é de ir, é de acolher, é de seguir.
"Não vou por aí!" ... pelo errado, o desconhecido, o perigoso.
Mas vou atrás da Luz que guiou os Magos ao presépio, vou seguir a opção que Jesus elogiou a Maria Madalena: "ela escolheu a melhor parte"
Mas às vezes temos dúvidas!
A observação de Jesus é um paradigma para nós, de certo.
"Maria escolheu a melhor parte..." Mas qual a parte que devemos escolher? Onde a encontramos nas nossas vidas? 
A parte da reflexão, da partilha, do perdão?
"Não vou por aí!" 
Escolher o caminho mais difícil, a tarefa mais árdua, o encontro mais complexo?
Para escolher "a melhor parte" é preciso estar atento, de joelhos aos pés de Jesus, ouvindo-O. É preciso não ir por ali, pelo caminho mais fácil, pela vereda mais plana, pela estrada mais luminosa.
É estar simplesmente expectante e ouvir Deus no nosso coração. Ele não deixa de nos indicar qual é "a melhor parte"
                        Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.





sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Construtores de Paz


Esta noite, ao abrir o Novo Testamento, deparei-me com a carta de S. Paulo aos Coríntios , cap.13 em que ele nos fala das características do amor. Um amor que é paciente e prestável;  que não é invejoso ,vaidoso ou orgulhoso; que não se irrita nem se alegra com a vaidade; um amor que tudo suporta, tudo espera , tudo sofre com paciência...
E, mesmo sem querer, comparei com o problema da paz, do perdão, do testemunho.
Se o nosso amor de irmãos tivesse ao menos algumas das características enumeradas por S. Paulo, haveria tanta guerra no mundo? Ser-nos-ia tão difícil perdoar, à imagem do que o Pai faz permanentemente connosco? Não seríamos, mesmo sem esforço, testemunhos de alegria, de paz, de Jesus Cristo?
Afinal este amor é, nem mais nem menos , que o mandamento  que o Senhor nos deixou: "Amai-vos uns aos outros" , esse mandamento novo que resume todos os outros e que tem que estar presente no dia-a-dia da nossa vida.
No fim deste dia, que foi muito cheio de graças não posso deixar de pedir: 
Fica connosco, Senhor, ao longo desta noite e que Te sintamos presente no dia que recomeça àmanhã.
Dirigi a nossa aprendizagem do Amor para que cada dia o vivamos melhor e dele demos um melhor testemunho.
Conduzi, ó Pai, os que mandam nos destinos dos homens para que entendam e promovam a fraternidade.
Amen.
             Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

24 de Março de 1994

Começou neste dia, manhã cedo, a nossa grande viagem de Finalistas por terras da Suiça, Alemanha e Áustria.
Éramos mais ou menos trinta alunas, três Irmãs e um grupo de professores entre os quais Paula Dias Agudo, Ângela Oliveira, Paula Carvalho, João Carlos ...
Uma grande excitação à saída no aeroporto da Portela, sempre com gente que chega "depois da última hora" fazendo o sr. Eliseu ficar para trás à espera. Mas maior excitação foi quando chegámos a Zurique e fomos recebidos por um grupo de tocadores de gaita de foles. Claro que não se destinavam exclusivamente a nós mas nós acreditámos que sim!... Esta recepção serviu para fazer desaparecer o medo que se tinha instalado no coração de algumas pessoas que não gostavam de andar de avião. Lembram-se que a Ir. do Rosário não queria que se falasse durante a viagem e que a Ir. Solange só pensava nas fotos "para mais tarde recordar"?
A viagem foi directa Lisboa -Zurique. Pensámos que íamos logo visitar a cidade, mas não. Encaminharam-nos para uma visita a umas minas. Não fazia parte do "pacote "mas não houve como fugir... E lá foram uns escudos suplementares. O que vale é que estávamos no inícío...Depois, de camioneta, chegámos às margens do Lago Zurick que nos presenteou com uma paisagem magnífica.
Mas outro lago nos aguardava - o Lago Constança. Esse, atravessámo-lo de ferryboat. E assim chegãmos à Alemanha.
A primeira cidade em que parámos foi Landau, na margem do lago. Aí almoçámos com um sol magnífico e uma paisagem deslumbrante. A escolha do menú é que foi um erro de opção. Mas, em viagem tudo serve de divertimento. Seguimos para Meersburg eMunique. Dormimos nesta cidade e aproveitámos para conhecer a célebre taberna onde Hitler costumava ir. Fomos recebidos com gritos e aplausos sem fim, por uma multidão de jovens. Depois de um pouco atarantados, os criados lá nos arranjaram um espaço sossegado para bebermos a nossa cerveja.
De manhã partimos para o circuito pela Áustria com uma primeira paragem em Salzburg para recordar a "Música no coração"e conhecer a casa de Mozart . Depois, Viena para visitar os belos palácios da Sissi.
Ainda almoçámos na Cortina de Ampezo, dormimos em Villach, contornámos o país, fomos conhecer Innsbruck e acabámos a viagem tomando o avião para Lisboa. Chegámos dia 31, cansados mas felizes.
Graças a Deus!


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pasteur

Li ontem um artigo sobre Louis Pasteur que me deixou algo admirada. É que ali ele era apresentado apenas como um cientista francês conhecido sobretudo pelo seu interesse pela Química.
O artigo falava dos seus  estudos com o ácido tartárico, os quais lhe tinham  permitido descobrir o dimorfismo deste ácido. Igualmente indicava a  sua descoberta da polarização da luz o que lhe tinha valido a "Legion d´Honneur francesa. Era mesmo apresentado como professor de Química na Universidade de Strasbourg e em Paris.
Evidentemente que estas informações não eram novidade. São do conhecimento de qualquer pessoa que se interesse por Ciência O que me admirou foi outra coisa. É que,  para mim, Louis Pasteur esteve sempre ligado à Biologia. A ele se deve a descoberta da causa da raiva, que ataca  por exemplo os cães. E. mais importante ainda, a queda da abiogénese e a descoberta das bactérias e do processo da pasteurização.
Foi ele que afirmou que os micro-organismos não se reproduzem sem que haja um princípio exterior favorável ao seu desenvolvimento. E esta afirmação deitou por terra a ideia da geração expontânea de micro-organismos.
Foram também  os seus trabalhos com o microscópio que levaram ao estudo das doenças infecciosas e a afirmar-se que todas estas doenças são resultado de micro-organismos com grande capacidade de se reproduzirem. Daí, a necessidade de descobrir a causa da doença para se poder combatê-la. Assenta aqui a base do conhecimento e fabrico das vacinas .
A técnica da pasteurização foi utilizada depois em cirurgia para eliminar as infecções que ocorriam com frequência nestas situações. O seu precursor foi Joseph Lister mas depois estendeu-se, com sucesso a outros hospitais.
Hoje, quem não conhece as vacinas, não acredita no seu "poder" e não as utiliza?
Como podemos deixar de relacionar Pasteur com a Biologia?
                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.