sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Construtores de Paz


Esta noite, ao abrir o Novo Testamento, deparei-me com a carta de S. Paulo aos Coríntios , cap.13 em que ele nos fala das características do amor. Um amor que é paciente e prestável;  que não é invejoso ,vaidoso ou orgulhoso; que não se irrita nem se alegra com a vaidade; um amor que tudo suporta, tudo espera , tudo sofre com paciência...
E, mesmo sem querer, comparei com o problema da paz, do perdão, do testemunho.
Se o nosso amor de irmãos tivesse ao menos algumas das características enumeradas por S. Paulo, haveria tanta guerra no mundo? Ser-nos-ia tão difícil perdoar, à imagem do que o Pai faz permanentemente connosco? Não seríamos, mesmo sem esforço, testemunhos de alegria, de paz, de Jesus Cristo?
Afinal este amor é, nem mais nem menos , que o mandamento  que o Senhor nos deixou: "Amai-vos uns aos outros" , esse mandamento novo que resume todos os outros e que tem que estar presente no dia-a-dia da nossa vida.
No fim deste dia, que foi muito cheio de graças não posso deixar de pedir: 
Fica connosco, Senhor, ao longo desta noite e que Te sintamos presente no dia que recomeça àmanhã.
Dirigi a nossa aprendizagem do Amor para que cada dia o vivamos melhor e dele demos um melhor testemunho.
Conduzi, ó Pai, os que mandam nos destinos dos homens para que entendam e promovam a fraternidade.
Amen.
             Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

24 de Março de 1994

Começou neste dia, manhã cedo, a nossa grande viagem de Finalistas por terras da Suiça, Alemanha e Áustria.
Éramos mais ou menos trinta alunas, três Irmãs e um grupo de professores entre os quais Paula Dias Agudo, Ângela Oliveira, Paula Carvalho, João Carlos ...
Uma grande excitação à saída no aeroporto da Portela, sempre com gente que chega "depois da última hora" fazendo o sr. Eliseu ficar para trás à espera. Mas maior excitação foi quando chegámos a Zurique e fomos recebidos por um grupo de tocadores de gaita de foles. Claro que não se destinavam exclusivamente a nós mas nós acreditámos que sim!... Esta recepção serviu para fazer desaparecer o medo que se tinha instalado no coração de algumas pessoas que não gostavam de andar de avião. Lembram-se que a Ir. do Rosário não queria que se falasse durante a viagem e que a Ir. Solange só pensava nas fotos "para mais tarde recordar"?
A viagem foi directa Lisboa -Zurique. Pensámos que íamos logo visitar a cidade, mas não. Encaminharam-nos para uma visita a umas minas. Não fazia parte do "pacote "mas não houve como fugir... E lá foram uns escudos suplementares. O que vale é que estávamos no inícío...Depois, de camioneta, chegámos às margens do Lago Zurick que nos presenteou com uma paisagem magnífica.
Mas outro lago nos aguardava - o Lago Constança. Esse, atravessámo-lo de ferryboat. E assim chegãmos à Alemanha.
A primeira cidade em que parámos foi Landau, na margem do lago. Aí almoçámos com um sol magnífico e uma paisagem deslumbrante. A escolha do menú é que foi um erro de opção. Mas, em viagem tudo serve de divertimento. Seguimos para Meersburg eMunique. Dormimos nesta cidade e aproveitámos para conhecer a célebre taberna onde Hitler costumava ir. Fomos recebidos com gritos e aplausos sem fim, por uma multidão de jovens. Depois de um pouco atarantados, os criados lá nos arranjaram um espaço sossegado para bebermos a nossa cerveja.
De manhã partimos para o circuito pela Áustria com uma primeira paragem em Salzburg para recordar a "Música no coração"e conhecer a casa de Mozart . Depois, Viena para visitar os belos palácios da Sissi.
Ainda almoçámos na Cortina de Ampezo, dormimos em Villach, contornámos o país, fomos conhecer Innsbruck e acabámos a viagem tomando o avião para Lisboa. Chegámos dia 31, cansados mas felizes.
Graças a Deus!


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pasteur

Li ontem um artigo sobre Louis Pasteur que me deixou algo admirada. É que ali ele era apresentado apenas como um cientista francês conhecido sobretudo pelo seu interesse pela Química.
O artigo falava dos seus  estudos com o ácido tartárico, os quais lhe tinham  permitido descobrir o dimorfismo deste ácido. Igualmente indicava a  sua descoberta da polarização da luz o que lhe tinha valido a "Legion d´Honneur francesa. Era mesmo apresentado como professor de Química na Universidade de Strasbourg e em Paris.
Evidentemente que estas informações não eram novidade. São do conhecimento de qualquer pessoa que se interesse por Ciência O que me admirou foi outra coisa. É que,  para mim, Louis Pasteur esteve sempre ligado à Biologia. A ele se deve a descoberta da causa da raiva, que ataca  por exemplo os cães. E. mais importante ainda, a queda da abiogénese e a descoberta das bactérias e do processo da pasteurização.
Foi ele que afirmou que os micro-organismos não se reproduzem sem que haja um princípio exterior favorável ao seu desenvolvimento. E esta afirmação deitou por terra a ideia da geração expontânea de micro-organismos.
Foram também  os seus trabalhos com o microscópio que levaram ao estudo das doenças infecciosas e a afirmar-se que todas estas doenças são resultado de micro-organismos com grande capacidade de se reproduzirem. Daí, a necessidade de descobrir a causa da doença para se poder combatê-la. Assenta aqui a base do conhecimento e fabrico das vacinas .
A técnica da pasteurização foi utilizada depois em cirurgia para eliminar as infecções que ocorriam com frequência nestas situações. O seu precursor foi Joseph Lister mas depois estendeu-se, com sucesso a outros hospitais.
Hoje, quem não conhece as vacinas, não acredita no seu "poder" e não as utiliza?
Como podemos deixar de relacionar Pasteur com a Biologia?
                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Contemporizar com os imprevistos

Ontem tivémos, aqui no Ramalhão, uma situação que não é insólita mas também não é vulgar.
Foi preciso substituir o quadro da central eléctrica que alimenta toda a casa e por isso não houve electricidade uma grande parte do dia. Faltou a luz, o aquecimento, o fogão, a televisão, os computadores e... claro, pior que tudo, a internet.
Sentíamo-nos no sec. XIX! Mas sem sabermos cozinhar a lenha ou ocuparmo-nos sem TV ou computadores.
O almoço esteve para vir de fora mas acabámos por nos remediar com "a prata da casa", até porque tinha havido uma alma caridosa que, bem cedo, preparára uma sopa e um arroz, que manteve quentes. Juntando fiambre, batatas fritas, pão e fruta, foi um almoço de pic-nic, para variar. 
Lavar a louça, com água fria, é que era pior. Mas, "para grandes males, grandes remédios".A louça ficou calmamente esperando pela hora do jantar altura em que tinha  sido anunciado já haver electricidade.
E porque não havia TV, ocupámos o tempo a ler, a estudar e a conversar, o que nem sempre é fácil.
E falámos dos tempos em que a comida era feita à lareira, num lume de lenha, que também servia para aquecer as casas e as gentes. E pensámos nas aldeias do interior em que a electricidade ainda não chegou... E nos momentos de catástrofe, quando nada resta senão alguma lenha...
A vida moderna e a nossa dependência actual do carregar num botão faz-nos esquecer tudo o que ficou para trás e como é precário aquilo a que chamamos modernidade, sem o que achamos não poder passar.
São valores ou contra-valores o que a vida moderna nos oferece?
Talvez fosse importante pararmos para reflectir no que se está a passar nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Não foi vontade do Homem. Simplesmente as condições ambientais. E as populações a braços com dias e dias de falta de energia...
Agradeçamos ao Pai os dons que nos faculta, mesmo a Ciência e a evolução da História, e aproveitemo-los, com alegria.
Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

De filósofa a Santa

"Quem procura a Verdade procura Deus ainda que não o saiba"
Foi esta frase assinada por Edith Stein, que li por acaso num velho marcador, que me fez recordar a história desta mulher. Foi filósofa, teóloga, religiosa carmelita descalça e mártir dos campos de concentração e extermínio nazi.
Na sua infância e juventude, na Alemanha, nada fazia prever o percurso que a caracterizou e conduziu aos altares. Nessa altura, dizia-se mesmo ateia e acompanhava a mãe à sinagoga apenas por delicadeza. Era judia por nascimento, nascida numa família judia, nos finais do sec. XIX.
Estudou filosofia na Universidade de Gotinga tendo como mestre E. Husserl.
Quando da 1ª guerra mundial, teve um primeiro apelo de interesse pelos que sofriam. Deixou os estudos e trabalhos na Universidade e ofereceu-se para ir ajudar num hospital de campanha.
Depois, voltou e, numas férias, tinha 30 anos, teve oportunidade de ler um livro que a impressionou. Era de Santa Teresa de Ávila. Ao lê-lo, sentiu o chamamento de Deus: "Esta é a Verdade " -disse. Mas a verdade tinha um nome - Jesus Cristo e foi Ele que a levou a converter-se e a estudar S. Tomás de Aquino. Dez anos mais tarde entrou na Ordem das Carmelitas Descalças onde tomou hábito e professou com o nome de Teresa Benedita da Cruz. 
Porque judia, foi perseguida,  maltratada e deportada para o campo de extermínio de Auschwitz.
A sua Fé e a sua forte formação deram-lhe a força de, mesmo ali, testemunhar o seu amor a Jesus Cristo.
João Paulo II canonizou-a e declarou-a, com Sta Brígida da Suécia e Sta Catarina de Sena co- padroeira da Europa.
Encontrou a Fé naquela noite, naquele livro porque soube ouvir o coração e acolher o dom e corresponder a ele.
Saibamos nós seguir este exemplo de amor de Deus.
                       Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os heterónimos da Paz

Há já uns dias que a televisão nos vem bombardiando com notícias , mais ou menos,
dramáticas de ódio, violência, guerra.
É a situação da Ucrânia. 
Um desentendimento entre governo e população, sem fim real à vista e que pode degenerar em guerra civil.
Não sei quem tem razão! Se é o governo que acusa a oposição de terrorismo, se é a população que acusa  os governantes de opressores e violadores da Lei.
Não sei nem quero saber! Aquilo de que eu tenho a certeza é que não foi este o testemunho que Jesus nos deixou quando disse: "dou-vos a minha paz; deixo-vos a minha paz..." O que eu sei é que as palavras de S. Paulo têm um sentido bem diferente quando ele afirma :"Já não há judeu nem grego; escravo ou homem livre..."
De paz é que Jesus falou. Paz é o pressuposto das palavras de S. Paulo...
Paz que não é exclusivamente ausência de guerra mas muito mais do que isso.
Paz... que é tranquilidade de coração, disponibilidade para ouvir, satisfação nos pequenos e grandes actos.
Paz... que pressupõe estabilidade emocional, relação calma e tranquila com o meio e os outros, abertura à alegria, à convivência, ao diálogo.
Paz... que nos enche na madrugada clara que chega, no entardecer límpido do Outono, no canto alegre dos pássaros na Primavera, na música alegre ou triste que escolhemos para acompanhar as nossas tardes de trabalho.
Paz... que se vive na satisfação do dever cumprido, no equilíbrio entre a vontade do Pai e a nossa, na correspondência entre o querer  e o dever.
Paz... que é abertura, disponibilidade, concórdia, Amor.
Paz... que é o inverso de guerra porque é a capacidade de aceitação do outro, do acolhimento das diferenças, da compreensão dos anseios.
Lutemos pela paz na Ucrânia e no mundo...
E comecemos por apaziguar o nosso coração criando um ambiente de tranquilidade propenso à calma e à oração. Dai-nos, Senhor, a Tua paz!.
                            Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Os vários tipos de riqueza

A parábola do jovem rico sempre me interpelou e levantou sérias interrogações. Aquele jovem que queria ser perfeito, que julgava que já fazia tudo o que a Lei de Deus lhe mandava e que, no momento de tomar a grande decisão, não tem coragem, questiona-me. Até porque não é caso único... Que lhe faltava? Que lhes falta? Porque hesitam?
" Vai e vende o que tens e depois segue-Me" - disse-lhe Jesus. E foi aí que residiu a questão : Vai e vende... E nós pensamos no despojamento, na renúncia total, no aniquilamento. E achamos que o que faltou ao jovem e a tantos outros foi a coragem de ficar assim pobre, desprotegido, sem apoio, sem recursos. Mas, lendo Albert Nolan, O.P. ficamos com uma impressão um pouco diferente. Ele chama a nossa atenção para o facto de que aquilo que Jesus diz ao jovem não é que fique sem conforto, na penúria, na miséria, ao desamparo. O que Jesus lhe propõe é que troque uma segurança por outra segurança, é que dê o que tem e confie na comunidade dos que seguem Jesus e o vão acolher a ele; que acredite na partilha entre os irmãos; que esteja disposto a receber aquilo que necessita dos que o vão integrar na sua fraternidade, no seu grupo.
Jesus propõe-lhe desprendimento que significa liberdade, de espírito, de coração, de acção.
E isto, não é uma proposta dirigida apenas ao jovem rico. Também serve para nós, que tantas vezes estamos libertos dos bens materiais mas presos a pequenas coisas que nos impedem de caminhar: as nossas ideias, os nossos costumes, os nossos gostos, os nossos projectos.
São cadeias , leves, invisíveis, que nos prendem, que não nos deixam ser livres para seguir o apelo do Pai.
Quando pensamos nesta liberdade não podemos ficar a pensar apenas nos bens materiais. Esses, muitas vezes, são os mais fáceis de eliminar da vida, sobretudo se sabemos o futuro assegurado...
Mais difícil é abdicar do que pensamos e queremos em favor de aceitar as opiniões e projectos dos outros; não querermos ser senhores dos nossos pareceres e planos mas sermos capazes de abdicar deles para integrar o plano de outrem.
É esse desprendimento que Deus nos pede, essa liberdade que Ele nos propõe.Queremos segui-Lo?
                        Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.