quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O homem das castanhas

Como faço tantas vezes, atravessei o Jardim da Estrela. 
À porta, como sempre nesta altura, sorridente, o homem das castanhas.
O carrinho um pouco decrépito, o grelhador já amolgado, os acessórios revelando anos de uso...
Mas no fundo, tudo como no tempo da minha juventude - castanhas assadas, com aquele aroma peculiar, vendidas às dúzias em pacotes de papel. Com as árvores do Jardim como fundo, o reflexo do fumo das castanhas que assavam e lançavam para o ar o perfume característico que nos convida a comprar. E o homem, chamando a hipotética clientela que passava, com o pregão tradicional: 
                          " Quentes e boas!"
É o anúncio do Outono que chegou e torna ainda mais apetecível este manjar próprio do tempo. E quanto mais frio está mais somos convidados a comprar estas castanhas quentes que se sorriem para nós com a sua boca aberta num pedido de que as provemos.
São lembranças de sempre as que se evocam nesta porta do Jardim da Estrela. Recordações de quando pequena, pela mão dos meus pais, aguardava impaciente, a nossa vez de adquirir um pacote de castanhas.
Lembranças do tempo do Liceu, quando corríamos para ver quem conseguia chegar primeiro e ter as castanhas mais quentes. Lembro aquele grupo de crianças à nossa volta, olhar de súplica de quem não podia comprar castanhas. E havia sempre partilha, uma a uma íamos distribuindo as nossas castanhas. O sorriso agradecido das crianças era suficiente para nos compensar.
Depois, mais tarde, vida de Faculdade, mas sempre o mesmo apelo das castanhas que ia comendo, lentamente, enquanto me dirigia para casa.
Desta vez, não comprei castanhas.
Mas isso não me impediu de sorrir para o homem e de lhe desejar uma boa venda, enquanto ia recordando outros tempos, outras castanhas, outros vendedores.
Comovi-me ao ouvir o homem dirigir-se-me, respondendo aos meus votos de boa venda, com um triste :" Obrigada, menina!"
                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, o.p.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Pai Nosso...

Pai nosso...
seja feita a Tua vontade...
Todos os dias rezamos esta oração que o próprio Jesus ensinou aos apóstolos. Todos os dias repetimos  as mesmas  palavras, os mesmos  pedidos... Mas  esta dicotomia  entre a  vontade  de Deus e a nossa vontade é, muitas vezes, a nossa realidade de vida. Sobretudo, não  pensamos no que significou para Jesus fazer a vontade do Pai que o enviara. Às vezes, é preciso um abanão,  na hora certa, para nos consciencializarmos que Jesus homem, descendente de Adão, com  a sua vontade própria, tinha tido que renunciar a ela para aceitar a vontade do Pai; tinha tido que vencer a tentação  e o confronto entre o que era a sua vontade e a vontade d´Aquele que o enviara.
S. João lembra-nos que Jesus desceu do céu não para fazer a Sua vontade mas a do Pai que o tinha enviado.
Pai...que seja feita a Tua vontade...
Todos os dias pedimos isto.Mas, sabemos bem qual é a vontade de Deus a nosso respeito? Procuramos verdadeiramente saber?
Habitualmente desculpamo-nos dizendo que é muito difícil saber, deixando que ela fique disfarçada entre convites vários, entre o que nos seduz e o que significa um apelo.
Mas, na realidade não é assim tão difícil. O que custa, sabemo-lo nós por experiência, é realizar essa vontade, é aceitá-la,  é fazê-la nossa,
Seja feita a Tua vontade, ó Pai... é um pedido, uma solicitação, que implica disponibilidade, dádiva, procura, abertura de coração.
É muito fácil rezar o Pai nosso e esquecermo-nos que devemos traduzir em actos, tudo o que acabámos de dizer. É demasiado fácil esquecer que Deus não prescinde do Homem para a sua salvação; que não abdica de nós para realizar o encontro com a Vontade com que nos solicita.
Procuramos muitas vezes justificarmo-nos dizendo que não sabemos, que nos enganámos, que ainda não encontrámos o caminho certo...
Mas Deus, que está sempre presente, envia-nos os seus sinais.
Pede-nos é que estejamos despertos e atentos porque Ele não se enganou ao delinear o nosso caminho.
Talvez seja altura de nos perguntarmos como vivemos a vontade de Deus. E porque não? Se vivemos a d´Ele ou a nossa.
Que seja com verdade que dizemos: Pai nosso...seja feita a Vossa Vontade.
                               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

ORAÇÃO





        







Oração pelos Sacerdotes

"Meu Deus, peço-Vos pelos vossos Sacerdotes,
por todos os vossos Sacerdotes.
Peço-Vos para eles a santidade.
Peço-Vos que eles amem profundamente
o seu sacrifício e que o vivam com amor.
Peço-Vos para eles a obediência ,
o espírito de desprendimento,
a eterna fidelidade,
uma inalterável e límpida castidade,
e também a abnegação, a humildade,
a doçura, o zelo, a dedicação.
Peço-Vos que ninguém se aproxime deles
sem que fique a amar-Vos mais.
Peço-Vos, meu Deus, que o Vosso
Reinado se dilate
e se fortifique, por meio deles, sobre a Terra.
Amen"



domingo, 17 de novembro de 2013

O sinal da Luz

A nossa capela, para além de lugar de oração, também às vezes é visitada pela professora de História com os seus alunos, para admirar o quadro da Adoração dos pastores, exemplo da pintura barroca.

Foi o que aconteceu outro dia , quando eu estava calmamente rezando.
Lá entraram os pequenos, com eles chegou a professora e a lição começou, não me despertando muito interesse. Conheço sobejamente o assunto...
Mas, de repente, a professora chamou a atenção para a luz que, no quadro, se concentra na pessoa de Jesus, deixando o resto dos personagens mais ou menos na sombra.
Como que dei um salto porque aquela luz me falava ao coração. Era uma chamada de atenção, um apelo.
Os alunos saíram e eu fiquei contemplando esse menino que parecia vivo e estendendo-me os bracinhos.
De repente, enquanto eu olhava para o quadro, que está do lado direito do altar, um raio de sol entrou pela janela e foi centrar-se no crucifixo grande do altar, ao mesmo tempo que iluminava o sacrário.
Não sou dada a interpretações místicas, mas aquela luz que pareceu vir de Jesus Menino, transitou para Jesus-Homem, dádiva na cruz e, simultâneamente, parou no sacrário onde Cristo, pão da vida se oferece cada dia, não podia deixar-me indiferente.
A luz, é a alegria, a esperança, a confiança que depositamos n´ Aquele que no-la dá para que a levemos àqueles que ainda não acreditam. A luz, passa por nós e de nós deve dar o testemunho do Senhor que em nós habita.
Fico olhando estes três aspectos do mesmo Deus que se fez Homem, que conta connosco, que não se enganou quando delineou a nossa vida. Fico olhando e perguntando o que espera Deus de cada um de nós ao dar-nos a luz da Fé e o seu Amor e, como Lhe temos respondido.
                          Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sábado, 16 de novembro de 2013

Anos que se celebram

Na 4ª feira a Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena - a nossa - fez 145 anos. 
Começou, podemos dizê-lo com a chegada das duas Irmãs que tinham ido fazer o seu Noviciado para a Irlanda.
Aqui no Ramalhão o dia não passou despercebido: Houve uma exposição de livros e outros materiais produzidos ao longo dos tempos, montou-se um placard com fotos das nossas casas e das nossas obras, espalhadas pelo mundo, e vestiram-se alunas de religiosas. Tudo para marcar uma data que não pode ser esquecida, por nós Dominicanas e por aqueles que nos estimam.
A Congregação foi um sonho de Teresa de Saldanha mas mais do que um sonho foi um apelo do Pai e uma resposta de Teresa às necessidades que Ele lhe mostrou no campo da educação das jovens, do apoio aos desprotegidos, da difusão da palavra de Deus.
Foi um Sim gratuito mas com "custos" : Inquietações, dúvidas, Imaginação, persistência, sofrimento. 
Teresa, jovem de Fé e segura do que queria e persistente na resposta ao apelo que lhe tinha sido feito gostaria de se dedicar ao serviço de Deus numa Congregação Portuguesa, em Portugal e para os portugueses. Mas viu as suas intenções frustradas por um pai intransigente e por uma situação política adversa que expulsava de Portugal as Congregações religiosas.
Mas Teresa não desistiu. Sem desobedecer ao pai  e com persistência, contornando as dificuldades, contactou a Irlanda e mandou para Drogda as duas primeiras pretendentes, para fazerem o seu Noviciado.
Ela... ficou, presente nas obras sociais a que sempre se dedicara,dirigindo à distância a sua Congregação e esperando, pacientemente, o momento de se integrar nela.
Conheceu os dramas da República, foi expulsa da sua própria casa, mas não desanimou. Aquilo que parecia o fim da sua Obra foi afinal o meio de a expandir para o Brasil, os Estados Unidos, a Bélgica, etc..
Foi a dispersão, que fez  com que hoje a Congregação esteja espalhada pelo mundo.
E a Madre Teresa, a Fundadora, certamente sofreu, viu até mudados os seus sonhos de uma Congregação Portuguesa para Portugal mas, para ela, a vontade de Deus estava acima de tudo e em tudo ela via a mão de Deus.
Foi a Fé, a confiança, a persistência, a dedicação que fez de Teresa de Saldanha a pessoa que admiramos e esperamos, um dia, ver nos altares.
                                       Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, o.p.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Celebrar a vida

15 de Novembro...
Festa de Santo Alberto Magno, um frade Dominicano , filósofo e teólogo de fama, mestre da teologia medieval.
Magno (grande) designação com que passou para a História, precisamente por isso, pela qualidade dos seus conhecimentos.
Por coincidência, foi hoje aqui, no nosso Colégio, a Missa pelo sr. P. Domingos, outro Dominicano, não sei se com tão grande sabedoria mas de certeza com uma enorme caridade e uma dedicação infinita aos seus alunos, que o não esquecem.
Tantas festas em que esteve presente, tantas brincadeiras partilhadas, tantas viagens em que nos acompanhou!...
Está no céu a rezar por nós. Nós sabemos...
Mas isso, não impede a saudade que todos manifestaram hoje, professores e alunas.
                                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,o.p.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Reflexões para um dia de sol

Novamente ontem a Igreja apresentou o Evangelho com a história dos dez leprosos. Já me fala demais de agradecimento e ingratidão, sentimentos que estão presentes nas nossas vidas e nem sempre olhamos como devíamos.
Mas , o que  verdadeiramente me chamou a atenção foi a última frase de Jesus : ..." a tua Fé te salvou".
É que a Fé não passa por acaso pela nossa vida. É ela que dá força para ultrapassar as dificuldades que se levantam a cada passo, é ela que nos ajuda a acolher alegremente aqueles projectos que não escolhemos nem desejámos.
Quando na Vida optámos por um caminho, fizémo-lo de mãos vazias e coração aberto. Para trás ficaram plano, desejos, costumes, situações.
Sabíamos onde íamos começar mas desconhecíamos os atalhos que se nos iam apresentar. Apesar disso, não hesitámos! Não pretendíamos conhecer os "se" ou os "então"... Confiávamos! Mas, queremos conhecer agora?
Há medos a paralisar-nos , a fazer adiar respostas. Ainda bem! A precipitação é inimiga da tranquilidade e da certeza. Sobretudo impede-nos de acreditar que, por detrás de cada projecto que nos é apresentado está Deus  e Ele quer sempre o melhor para nós. E depois... todo o  serviço que nos é pedido faz parte da cruz que, parece?! somos chamados  a ajudar a transportar, qual Cireneu. E, não serão reflexos daquele Sim que queríamos sem restrições?
Foi a Fé que salvou o leproso.
Que seja a Fé que nos salve de dúvidas, inquietações, erros, injustiças.
Deus está lá e acolhe-nos.
                       Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.