terça-feira, 29 de outubro de 2013

Agradecer é preciso

Voltei hoje a ler no Evangelho o episódio da cura dos leprosos. Aliás foi o Evangelho dum dos domingos passados! É um episódio que nos põe dúvidas e interrogações, ao mesmo tempo que nos chama a atenção para situações da nossa vida corrente.
Um grupo de leprosos, gente proscrita e sem qualificação, acerca-se de Jesus e pede-Lhe misericórdia. Ele atende-os e cura-os. Mas do grupo, apenas um e logo o estrangeiro, volta atrás para agradecer a graça recebida.
E o resto do grupo? Que aconteceu? Porque não vieram? Todos foram curados... E Jesus até perguntou por eles...
Podemos ser levados a pensar que lhes aconteceu o que se passa connosco tantas vezes: ficaram tão felizes por terem conseguido o que desejavam que se esqueceram de parar, de voltar atrás, para dizer obrigado.
Achei interessante que fosse precisamente esta palavra "Obrigado" uma das que o Papa recomendou às famílias como indispensável ao seu progresso e mesmo à sua  subsistência no tempo.
É que saber agradecer é uma manifestação de humildade mas também de justiça e de partilha. É reconhecer o bem que o outro nos faz, o contributo que nos traz para a nossa felicidade. É o testemunho de que não estamos fechados em nós mesmos, no nosso egoísmo  e que sabemos reconhecer o outro e como a sua acção é actuante em nós.
Há muitas formas de agradecer. O leproso voltou para trás e ajoelhou-se aos pés de Jesus... Mas às vezes basta parar, dizer uma simples palavra, mostrar um sorriso, um olhar... É simplesmente partilhar o nosso reconhecimento pelo que recebemos.
Se o nosso coração não está fechado, somos sensíveis a estas formas de reconhecimento que indicam que não estamos centrados em nós mesmos.
Talvez os leprosos ainda não tivessem encontrado a luz que significava a sua cura.
Também nós, quantas vezes!...estamos tão encerrados em nós e preocupados com as nossas coisas que não vemos a luz que alumia o nosso caminho, aquele que nos conduzirá à casa do Pai e "torna novas todas as coisas".
Peçamos a Deus que nos abra o coração e que nos ajude a dizer, hoje e sempre, o nosso obrigado. Que a nossa humildade se reflicta no nosso reconhecimento.
                                   Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A força que nos sustenta

"O Senhor é a nossa força e confiança. Ele deu-nos a liberdade"
Esta mensagem que me chegou às mãos sem ser esperada, quase me fez saltar da minha intrínseca apatia para a necessidade de reflexão e acção.

O Senhor é a nossa força, a nossa certeza, a nossa capacidade de agir, na medida da nossa Fé.
"Se tiverdes Fé do tamanho dum grão de mostarda..." 
Com Ele, sabemos que tudo podemos, que somos capazes de ultrapassar dificuldades, vencer contratempos, esquecer dúvidas. Às vezes o "tudo" parece um pouco exagerado mas não é., porque com Deus e para Deus nada é impossível. É um problema de Fé e de confiança, realmente.
Ponhamos n´Ele a nossa confiança, conscientes de que nos acolhe, acompanha, orienta, perdoa...
Nem sempre tudo corre bem; nem sempre somos capazes de sorrir e olhar a Vida com optimismo. Às vezes é difícil enfrentar dúvidas e contrariedades e continuar cantando. Sobretudo se nos debruçamos sobre nós mesmos e não contemplamos o Além.
É então que a confiança tem que entrar em campo; saber que não estamos sós, que há sempre uma mão amiga que se nos estende e ampara na dúvida e nos sussurra que o Senhor é a nossa força , que o Espírito Santo é a Luz que torna clara toda a escuridão.
Claro que podemos sempre escolher. Parar, ouvir, seguir na dúvida, na contrariedade, na incerteza. Ou mudar, em busca da Felicidade que o Pai nos prometeu. Deus deu-nos a Liberdade... Que Liberdade? A de opção entre o Bem e o Mal, a Verdade e a mentira, a dúvida e a certeza, a partilha e o egoismo, o passado e o futuro. 
A liberdade de O escolher e fazer a Sua Vontade ou de nos debruçarmos sobre nós mesmos e os nossos interesses. Que preferimos? 
No Sacrário  Ele espera-nos para acolher a nossa resposta.
                                     Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.


domingo, 27 de outubro de 2013

Nabucco no Ramalhão

Foi há muito tempo!
Corria o ano lectivo de 1970/71 e o Ramalhão era conhecido por todos como um Colégio de meninas. Até o corpo docente era essencialmente feminino...
Nessa altura, a Madre Cecília fazia parte do conselho directivo, com a Ir. Inês e a Ir. Ana Teresa.
Tinha um primo - O Ascenso de Siqueira - que dirigia o coro do Colégio Manuel Bernardes e dava também umas aulas no Ramalhão. Conversaram...E ,ideia para aqui, palavras para ali, tiveram uma sugestão original: apresentar, aqui no nosso Colégio, uma área do Nabucco de Verdi - o coro dos Hebreus - executada pelos alunos dos dois Colégios.
Que grande ideia!...E que novidade!...
A Madre Cecília apresentou o assunto na sala dos professores. A srª D. Bela respirou fundo várias vezes, a Maria Lúcia teve um ataque de gaguês, a "madamezinha" abriu muito os olhos e com o seu sorriso terno e a sua voz meiga exclamou: É uma experiência interessante... Os mais novos ficaram entusiasmados, embora não se atrevessem a manifestar-se perante as " sumidades " da casa.
E os ensaios começaram. O sr. João, o "carpinteiro encartado" cá de casa, preparou tudo e fez um escadório para o palco a fim de que todos os intervenientes pudessem ser vistos da plateia. Mas, tal foi o desassossego, nos primeiros ensaios, que o escadório desconjuntou-se e dois alunos caíram.
Houve esfoladela de pernas, algum alvoroço e gritaria mas nada de mais . E o ensaio continuou.
Entre Ramalhão e Manuel Bernardes, troca de números de telefone, marcações de encontros para depois, descoberta de amigos comuns. Tudo normal entre jovens de 17 anos, estudantes do ensino secundário de Colégios de prestígio.
Não tenho a certeza, mas parece-me que a apresentação foi na noite da festa de S. José. O que eu sei é que foi um sucesso. Faltou-nos a orquestra mas foi lindo na mesma. Os pais e professores enchiam ginásio e galerias e entusiasmados aplaudiram de pé estes aspirantes a cantores de Ópera. Os "artistas",radiantes também, gostariam de repetir noutras ocasiões, mas não houve oportunidade. Nem sei porquê!... Talvez também se tivessem "mudado as vontades..."

Foi uma das grandes ocasiões de festa, aqui no Ramalhão.
Muitas outras marcam as nossas memórias e fazem parte do imaginário de milhares de alunos, que passaram por esta nossa casa.
                                Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sábado, 26 de outubro de 2013

O Homem do caminho


Hoje estive a ler umas pequenas meditações sobre S. Domingos de Gusmão. Numa delas, o autor denomina-o por " homem do caminho ". E explica porquê. É que S. Domingos percorreu estradas sem fim . Estradas de Espanha, de França, de Itália, que sei eu!... Andou por veredas e caminhos de quantas aldeias e vilas conheceu. Visitou e permaneceu em quantos lugares se lhe depararam e lhe chamaram a atenção.
E isto, porquê?
Um leitor incauto ou alguém que não conhecesse nada da vida e obra de S. Domingos , poderia pensar ou dizer que ele gastou a sua vida a fazer turismo.
Homem do caminho...
Mas não. Nada disso Domingos não era um curioso das coisas e lugares. Era o caminhante que levava a palavra de Deus  a quem a não conhecia; o pregador que transmitia a mensagem  de Jesus Cristo a quantos encontrava no caminho; o apóstolo que, em busca da salvação das almas não desperdiçava tempo nem negava esforços.
Onde quer que houvesse alguém que não conhecia Jesus ou se afastara da Sua doutrina, aí estava Domingos, com a sua bondade e sabedoria, a sua paciência e a sua Luz, para o chamar à razão e lhe transmitir a mensagem do Pai.
Caminhante, sim... mas mesmo pelos caminhos não esquecia Deus e mantinha intensa a sua oração.
Cansado muitas vezes, exausto mesmo, mas atento aos seus Irmãos e às suas necessidades e problemas, a que dava prioridade.
E isto, independentemente da sua grande preocupação que era a salvação das almas. Por elas e para elas fundou a sua Ordem , uma Ordem única na época, simultaneamente comunidade orante mas com a missão de transmitir o fruto da sua contemplação, alimentada pelo estudo e apoiada por uma vida comunitária consciente e séria.
Que S. Domingos continue a proteger a sua Ordem e a dar a cada Irmão a força da fidelidade na Graça e a correspondência ao carisma da Ordem que escolheu e o acolheu.
                                 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A lição do Tempo

Quando falamos em tempo, habitualmente, estamos a referir-nos a condições atmosféricas:     Bom tempo,
 tempo de chuva, vento, sol, trovoada...
Hoje por exemplo, está mau tempo: chuva intensa, ventania, trovoada.
Nas ruas, praticamente ninguém. Apenas aqueles a quem o dever e a necessidade a isso obriga, que tiveram que sair de casa e não têm carro.
Um dia de neurastenia...
Um autêntico dia  de mau tempo!
Mas a Bíblia refere-se a um outro Tempo. Por exemplo o Eclesiastes diz-nos que "há um tempo para nascer e um tempo para morrer... tempo para chorar e tempo para rir...um tempo para acumular e outro para dispersar..."
"Há um tempo para viver... "Que significa isto para mim, para nós? Que é hoje e aqui que temos que aproveitar os dons que nos foram dados para os desenvolver e fazer crescer? Que é hoje e aqui que temos que agarrar a alegria e viver a felicidade? Que é hoje e aqui que Deus espera que sejamos nós mesmos e que distribuamos os dons que recebemos por aqueles que contam connosco? Que é hoje e aqui que a Graça nos aguarda e a Vida nos sorri?
Tanta pergunta talvez sem resposta  ou com demasiadas respostas a encher-nos o coração
" Há um Tempo para Viver..." Tempo único que precisamos de aproveitar e do qual teremos que dar contas. 
Quantas vezes deixamos correr os dias e as horas sem nos apercebermos que o tempo não volta para trás!... Podemos atrasar o relógio, fingir que o dia não passou e mudar o calendário, mas não conseguimos fazer com que o tempo volte ao ponto em que estava. E será que o queríamos? Será que era bom?
O que é importante é viver cada hora, cada minuto, segundo o plano que Deus espera que construamos.
Que o Senhor nos ajude a viver cada momento como se não houvesse àmanhã.
                                     Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Guerra ou Paz?

Novamente guerra à vista!
Não aqui em Portugal, uma guerra a sério com balas e gente que morre. Aqui, são mais guerras de palavras e lutas de ideias, mais ou menos razoáveis , mais ou menos lógicas, mais ou menos exibicionistas, sobretudo destinadas a afastar o espírito das realidades  objectivas.
Mas a guerra a sério parece estar a preparar-se em Moçambique.  Durante 16 anos, as lutas de guerrilha colocaram aquele país na miséria. Há 20 anos, em Roma, foi assinado um tratado de paz, que prometia segurança, tranquilidade e desenvolvimento. E o país progrediu.
 De repente, sem causas aparentes ( que causas há sempre, mais ou menos definidas, mais ou menos conhecidas, mais ou menos declaradas) invade-se a casa do chefe do partido da oposição, temem-se retaliações, tremem os povos pela sua segurança e a sua vida.
É o prenúncio da guerra com todas as suas tremendas consequências.
Mas, paremos para pensar!São estas guerras de destruição e horror que nos afligem e fazer tremer e talvez
rezar. Mas, guerras... quantas vezes as travamos connosco mesmos, quantas vezes pomos em confronto o Bem e o Mal e lutamos pela vitória dum deles (nem sempre a que devia ser...)
Quantas vezes nos confrontamos connosco e com os outros e não nos reconhecemos nas nossas acções e opções...
É a guerra, a luta dentro de nós, entre o prazer e o dever, entre o que agrada e o que deve ser feito, entre o desejo e o sacrifício, entre o tudo e o nada, entre a conquista da santidade e a desilusão de não a ter ainda alcançado. 
É a luta silenciosa, sem balas mas com feridas que marcam a vida.
Aqui, entra a Fé e a Esperança, a certeza da Paz que nos vem do Amor de Deus.
Aqui,  temos que contar com a Graça e o esforço,  o entusiasmo e  o dom,  a oferta e a partilha.
Queremos perder ou ganhar?
Deus conta que vença a Sua Graça!...
Por isso,  continua presente,  mesmo quando, no meio da guerra, nos esquecemos d´Ele.
Ir . M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A Dedicação da Igreja

Hoje, no Calendário Romano, é mais um dia da Féria, um dia de caminhada ao encontro do Advento. Um dia em que , lentamente, a Igreja nos vai preparando para a vinda do Deus que se fez Homem para salvação da Humanidade.

Mas, na Ordem Dominicana, a celebração é outra. Festeja-se a Solenidade do Aniversário da Dedicação da Igreja conventual.
E não é por acaso. É que hoje há  festa em  Tolouse,  berço da Ordem. Lá  se comemora  a dedicação  da Igreja  Dominicana " Les Jacobins ", dedicação essa realizada em 1385.
Esta Igreja foi a primeira grande igreja entre as primitivas da Ordem.
O Papa Urbano V tinha declarado ser sua vontade que esta Igreja de Tolouse se destinasse a guardar os restos mortais de S. Tomás de Aquino. 
Realmente, em 1369 as relíquias deste doutor da Igreja foram transladadas para este templo.
E, são palavras do Papa: " Como S. Tomás brilha entre todos os doutores pela beleza do seu estilo e do seu pensamento, assim a Igreja de Tolouse supera em beleza todas as outras Igrejas dos Pregadores.
                                                 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.