segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O tempo e o espírito

Aqui há uns tempos, chovia e eu, à janela, pensava na inconstância do tempo.
É que, primeiro a chuva se resumia a uns pingos suaves e lentos, como lágrimas que brotam do coração. De repente, uma bátega de água que lavou  ruas e caminhos  e encharcou quantos,  imprudentes, saíram  de casa sem protecção adequada. 
Depois... tudo voltou à quase normalidade. Apenas uma chuvinha leve que refrescava o espírito e o coração a chuvinha que, no momento, eu observava da janela.
E, porque o espírito é fantasista e salta de assunto em assunto, lembrei-me duma amiga que, um dia, também de chuva assim incerta, falando da vida e das dificuldades  que se lhe apresentavam me disse: Era bom que a vida fosse assim como a chuva; simples e de transformações imediatas como o tempo. Era bom que depois das grandes "tempestades", das imensas dificuldades e lutas, das inúmeras contradições e dores... chegasse a "bonança" e o nosso coração voltasse a cantar de esperança.
Tentei esquecer tudo o que de contradição às vezes passa pela nossa mente e responder-lhe com entusiasmo: Mas é assim a Vida, sim! É assim se nós fizermos por isso; se acreditarmos que Deus conta connosco e nos guia; se O tivermos como companheiro de viagem; se deixarmos que o Espírito Santo seja a nossa luz e a força que nos conduz em frente.
Não podemos é deixar, disse-lhe, que o desgaste, o cansaço, o desânimo, a neurastenia ou a depressão possam mais que a Graça; que nos levem a adiar pequenas e grandes decisões que modificariam o que queremos e sentimos. Não podemos permitir que o dia-a-dia nos arraste e nos leve a conformarmo-nos com o que temos, sem desejar o mais e o melhor. Não deixemos para àmanhã o que tem que ser feito hoje; não adiemos a procura das soluções que se impõem  nem nos enganemos,  tentando convencer-nos que está tudo bem.
Deus conta com o nosso querer em procurá-Lo e em corresponder aos dons com que encheu a nossa Vida.
No fim, acho que ambas acabámos mais ricas e que tinha valido a pena.
                        Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.


domingo, 20 de outubro de 2013

Fátima em Roma


Realmente Fátima é o altar do mundo e Nossa Senhora de Fátima é reconhecida e venerada por toda a parte. 
No fim de semana passado, no âmbito da Peregrinação Mariana, integrada neste ano da Fé, a imagem da Virgem de Fátima viajou até Roma. O objectivo era a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, a qual, segundo Lúcia , devia ser feita na presença dos cardeais. Por isso, a pedido do Santo Padre, lá foi a imagem da capelinha passar o fim de semana à praça de S. Pedro. 
E foi um acontecimento pois esta imagem, nestes 96 anos, apenas três vezes saiu da capelinha das aparições em Fátima. E foi um acontecimento pois, da praça de S. Pedro, Maria vai assumir-se como traço de união entre Fátima e o mundo.
É a consagração do mundo ao Imaculado coração de Maria mas é também o reconhecimento de Fátima como local de culto, como espaço de devoção, como crédito na palavra de três crianças que, contra tudo e todos, continuavam a afirmar: " Nós vimos a Senhora ".
Mas mais do que dizer, eles viviam, testemunhavam.
Nossa Senhora pedira-lhes para rezar o rosário e eles faziam-no; Maria solicitara que o sacrifício fizesse parte das suas vidas e eles corresponderam, muito acima do que seria de esperar de crianças.
Tudo isto tem que ser  uma chamada de atenção para nós. Os pedidos de Nossa Senhora não eram destinados apenas àquelas três crianças. Eles eram para nós, para os cristãos e os não cristãos, para todos "os Homens de boa vontade".
Tal e qual como a promessa que lhes foi feita " No fim, o meu Imaculado Coração triunfará!" se dirige a todos os que temos Fé e consideramos Maria como Mãe, bem como aos outros que Ela também ama.
Confiantes na Mãe que nos guia e nos acolhe, olhemo-La,correspondamos ao que nos pede e, sem medo, sigamos em frente.
                           Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sábado, 19 de outubro de 2013

O Ramalhão fez anos

Dia 15 de Outubro. Festa de Santa Teresa de Ávila

Estávamos a festejar o encerramento do 70º aniversário da abertura do Colégio de S. José - Ramalhão.
Sonhávamos com uma grande festa, uma Missa com alunos, professores, funcionários, pais, antigos alunos..., actividades desportivas várias, uma tarde cultural, que sei eu!... Tudo aquilo a que 70 anos de existência, de cultura e formação tinham direito. Mas, "o homem põe e Deus dispõe". As circunstâncias trocaram-nos as voltas e os nossos planos abortaram. "Não vale a pena chorar sobre leite derramado". Os tempos mudam, as circunstâncias modificam-se mas a vida continua. Por isso, recordamos...
O ano passado, neste dia, houve realmente uma grande festa. Era o início das comemorações.
De manhã,houve competições desportivas, entre turmas, com os professores Tiago e Ricardo presidindo a elas. Muita competição, muita alegria, muito desportivismo.
Aliás repetimos estas competições no dia de S. José, outra ocasião de festa, em que o Colégio do Restelo veio festejar connosco. E houve medalhas e tudo para as equipas participantes.
Mas voltando ao 15 de Outubro... Depois do almoço, uma tarde aberta . Na Biblioteca, um chá, durante o qual os prof. João Carlos, Ângela e Manuela tinham preparado uma sessão cultural. E houve declamações, récitas, etc. apresentadas pelos alunos. Simultaneamente, uma exposição de cartas geográficas, preparada pela professora Agostinha.
Na sala de Moral era o reino da Matemática, com as professoras Paula Cruz, Sofia Lopes e Ana Festas. Havia quebra-cabeças, jogos, puzzles... tudo para entusiasmar jovens e adultos e desenvolver as suas aptidões matemáticas. O facto é que teve imensa adesão, mesmo dos pais. Acho que todos queriam testar as suas capacidades.
Na "sala escura" e na sala de Desenho eram os ateliers de artes e História. Foram patrocinadoras as respectivas professoras: Ana Passarinho e Ana Isabel que apresentaram uma grande variedade de trabalhos. Aqui colaborou também o 1º ciclo que fez pequenas lembranças para oferecer aos visitantes, bem como bolinhos e bolachinhas, fabrico dos próprios.
No Laboratório de Química, as actividades científicas, coordenadas pelas respectivas professoras. Houve experiências, demonstrações, explicações detalhadas dos procedimentos a realizar.
O final passou-se no Ginásio, com o Hino do Colégio, dirigido pela professora Ilka e cantado por todos e um power point sobre a história do Colégio, preparado pelos professores Angela, Sofia Lopes e João Paulo.
Foi um dia inesquecível!...
Temos que o agradecer a Deus  e a todos aqueles que  o tornaram possível, preparando, colaborando, incentivando e participando.
                                           Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Nossa Senhora da Lapa


Nossa Senhora da Lapa

Barro pintado apenas
Duas, três mãos de barro,
amassado e moldado
por duas mãos serenas.

Mas em toda a capela,
e a capela é imensa,
nada tem mais presença
do que a presença d`Ela.

Quem não se comovera?
Tão íntima, tão minha,
como se as mãos que põe
por mim só as pusera.

E um vago sentimento
de ter que lhe pedir
(mas por quem? mas o quê?)
me desprende do tempo.  

Criança ajoelhada,
falei-lhe num murmúrio,
não fosse perturbar
a penumbra em que estava


Que palavras Lhe disse
(se é que disse palavras...)
tão cá dentro, tão baixas,
que só Ela as ouvisse?

                                       
O que pedi? por quem?
Que vai acontecer
que eu possa perceber
que é de Ela que vem?

 Mas não, Virgem, não quero
 um sinal que me explique.
 - em Tuas mãos me entrego
 como se ao mar me desse.
             Sebastião da Gama

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ramalhão - o começo


Engraçado como quase sem querer, nos chegam às mãos dados que tornam vida aquilo que foi passado e muita gente desconhece. Ocasionalmente li um comentário dum Dominicano sobre uma carta da Madre Teresa Catarina Lavradio para o Padre Tomás Videira, outro Dominicano. Conheci bem uma e outro e por isso me impressionou esta carta, que o comentador transcreve, carta dum tempo em que eu ainda não pensava em ser Dominicana. Era demasiado pequena...
A carta em causa, falava das perspectivas da compra do Ramalhão para aqui instalar o convento e um Colégio.
Nela, citam-se muitas coisas diferentes mas sobretudo fala-se das "andanças" das Madres , na busca duma casa adequada, das preocupações que tiveram, das dificuldades, de toda a ordem, com que se depararam, dos sonhos que as alimentavam, dos desejos que as mantinham.
Como parece longe tudo isto!... Já lá vão 70 anos!... Certamente a maioria das pessoas que por aqui passou não imagina o que foi necessário de esforço e de persistência para que em 1942/43 o Colégio abrisse as suas portas.
No seguimento desta carta, o comentador transcreve um poema da mesma Madre Teresa Catarina, poema esse sobre o Ramalhão já aberto e a funcionar. E diz como o chocaram os últimos versos que pareciam pronúncio dum futuro que agora é presente: "... e quando te falarem, verás que, de repente
 te custará a crer não estares no Ramalhão "
Claro que o Ramalhão continua a ser a nossa casa, o nosso Colégio; não o vendemos nem o alugámos; continuamos a viver aqui e a marcar aqui a nossa presença e o nosso testemunho Dominicano.
Simplesmente, 70 anos de Projecto Educativo deram lugar a outra linha orientadora, outro projecto, outra maneira de fazer e de viver. É assim a vida..." Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades..."
Há lágrimas nos olhos de muita gente; há revolta no coração de outros tantos; há aceitação nas mentes dos restantes.
Como diria a Madre Fundadora, que o mesmo artigo evoca, "temos que viver na esperança, e continuar esperando, contra toda a esperança".
Esperando... não sei bem o quê. Mas certamente que a alegria, a felicidade e o bem renasçam das cinzas e que aqui se continue a educar crianças e jovens que serão o futuro de Portugal.
                                Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Escadas que falam

Revendo o power point que apresentámos na Reunião dos Antigos alunos que deu início às comemorações do 70º aniversário do nosso Colégio, encontrei um slide que me chamou a atenção. Eram várias fotos sobrepostas, de locais do Colégio, que tinham por objectivo levar os antigos alunos a recordarem sítios e acontecimentos.
Entre elas, a fotografia duma escada que já não existe, mas muitas histórias teria para contar. Foi retirada recentemente com receio de que houvesse um acidente, coisa que nunca aconteceu em 70 anos. Mas... são outros tempos e outras crianças e jovens.
Esta escada, a que me refiro, muitos se lembrarão dela, quer alunos, professores ou funcionários. Começava na "sala escura" que dá acesso à sala de Desenho e terminava na sacristia.
Por ela desciam as alunas internas, ao fim do dia, no mês de Maio, para irem à capela rezar o Rosário a Nossa Senhora.
Dela se serviam, em tempos mais recuados, as internas quando, de manhã cedo, iam à Missa da comunidade.
Por ela subia a Irmã sacristã, que vinha da capela e ia até às tribunas fazer qualquer mudança ou arranjo.
Por ela subiam também os alunos, quando havia Missa na capela para um grupo mais diminuto.
Era uma maneira rápida e eficiente de chegar às aulas sem ninguém se "perder" pelo caminho.
Mas, claro! há sempre mentes ardilosas que arranjam ocupação para espaços que têm outras funções... Por isso, aquelas escadas eram também utilizadas para quem, à hora do recreio do almoço,  se queria esconder para conversar ou estudar. Sempre houve e sempre haverá "desvios de utilização".
Hoje essa escada foi tapada, desaparecendo também a balaustrada, evidentemente. Em seu lugar, mesas e cadeiras para quem quer estudar ou fazer trabalhos.Mas, cada vez que por ali passo, recordo a escada e as mil aventuras que ela evoca. O nosso Colégio está cheio de pequenos e grandes espaços que evocam outras vidas e outras aventuras.
                            Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Magia em Outubro


Este mês de Outubro é um mês especial para mim, um mês mágico. É o mês do Rosário, aquele em que, no dia de hoje, se festeja Nossa Senhora do Rosário, aquela a que todos nós, Dominicanos, temos especial devoção.

Também foi o mês em que Nossa Senhora apareceu, pela última vez, em Fátima; em que João Paulo II foi baleado... enfim... Tudo direccionado para Maria e para a reza do Rosário.
Aliás, como Dominicanos, o Rosário é uma das nossas devoções especiais. A tradição até diz que foi Nossa Senhora que deu o Rosário a S. Domingos, como forma de tornar mais eficaz a sua pregação. E não há capela ou convento em que não se encontre um quadro com S. Domingos aos pés de Nossa Senhora que lhe estende um Rosário...
Mas claro, que isto é história e ninguém pode pensar que Maria deu o Rosário assim como nós o conhecemos: 10 contas que representam Avé-Marias, uma que é o Pai Nosso, outras 10 Avé Marias e por aí fora... Mas Nossa Senhora deve realmente ter inspirado S. Domingos para rezar assim. Aliás, também contam as vidas dos Santos Dominicanos que enquanto uns iam pregar, sempre havia outros Irmãos que ficavam rezando o Rosário , pedindo à Mãe do céu o sucesso para a pregação.
Em Outubro, na Igreja, honra-se de modo particular a Virgem Maria e convida-se os cristãos a rezar-lhe, com mais devoção, a oração do Rosário, lembrando  assim o pedido que Maria fez em Fátima aos pastorinhos.
Mas, como vimos, a devoção do Rosário é muito anterior a Fátima. Vem da Idade Média embora não com a estrutura que utilizamos actualmente. Esta é do sec. XV e deve-se ao venerável Alano de la Roche e depois, no sec. XVI ao Papa Dominicano S. Pio V. E são os Dominicanos que ficam como depositários desta devoção e da sua divulgação pelo mundo.
Aliás em Portugal a prática do Rosário é um tradição generalizada. Reza-se nos conventos, nas comunidades religiosas, nas paróquias, na família. Rezam os pobres e os ricos, os intelectuais e os humildes, os idosos e as crianças.
Façamos um esforço para este mês tornarmos ainda mais viva esta tradição.
                               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, o.p.