terça-feira, 10 de setembro de 2013

Aventuras de estudantes e não só

Quando esbarramos com questões relacionadas com conhecimento, mesmo sem querer somos levados a recordar o tempo de estudante, a nossa vida de faculdade, os momentos bons e menos bons que por lá passámos. As alegrias e as contrariedades.

E eu, mesmo sem querer, lembro as salas velhinhas da mais velhinha Faculdade de Ciências, na R. da Escola Politécnica. Sim, que eu fui aluna em tempos anteriores  ao fogo, quando no último andar havia um museu que possuía espécie únicas; quando as aulas de Química eram dadas no anfiteatro do rez-do-chão; quando o Jardim Botânico era o grande campo de observação para as práticas de Botânica;quando a subida para as aulas de Anatomia era feita em corrida acelerada...
E recordo o Prof. Tavares, pontualíssimo, que do início ao fim do tempo da aula falava e apresentava slides, sem interrupção. O pior, eram as orais de Sistemática, obrigatórias, e em que só passava quem  tivesse  identificado, correctamente, as   três  folhas  com  plantas secas que nos eram apresentadas. Quantas horas passadas no Laboratório a reter formas e memorizar nomes!...
E o professor de Física, que sempre se atrapalhava nas demonstrações e puxava dos apontamentos que tinha na algibeira, à voz dum aluno atrevido :"Olha para a cábula!..."?
E o prof. Serra cuja exposição da matéria de Anatomia era sempre feita por detrás duma máquina de projecções, nunca utilizada, mas óptima para impedir a audição? É por isso que havia lutas para conseguir lugar na primeira fila e equipas com a missão de escrever o princípio, o meio ou o fim da frase. Depois se compunha o enredo, nem sempre muito exacto.E os exames... 10 perguntas que habitualmente contemplavam as notas em rodapé, na sebenta  Sim, que era uma das cadeiras em que havia um sebenta que tinha mais de 20 anos.Que delícia !...
E a Mineralogia, com exame escrito, prático e oral? Era um terror...
Foram tempos difíceis, em que só os melhores chegavam ao fim nos quatro anos. Mas, os que se interessavam, iam às aulas, arranjavam os apontamentos, passavam horas na biblioteca e estudavam, eram recompensados.
Como agora!... E como sempre!...
E havia tempo para outras coisas: para a JUCF, para a Conferência de S. Vicente de Paula, para as tertúlias na Associação, para as conversas sem fim, no "General", a pastelaria defronte da faculdade...
                              Ir. Maria Teresa de Carvalho,O.P.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Preferências

É do "conhecimento público", pelo menos do meu, que de todos os ramos da Biologia aquele de que eu mais gosto e mais me entusiasma é a Genética. Pelas questões que põe, pelas dúvidas que levanta, pelas respostas que vai tentando dar...
Mas, perante uma notícia tão sensacional como a que ouvi nestes dias, não podia ficar indiferente. E foi, nem mais nem menos, do que a notícia do aparecimento dum fóssil de Dinossauro carnívoro, quase completamente conservado, nas arribas da praia de Porto Dinheiro, no concelho da Lourinhã.
Quem ficaria encantado, se fosse vivo, era o meu professor de Paleontologia - o Prof. Carlos Teixeira. Esse sim, tinha uma autêntica paixão por tudo o que fosse fóssil, os testemunhos dum passado mais ou menos longínquo da vida na Terra.
Mas este fóssil de Dinossauro é tanto mais extraordinário quanto é um animal cuja a idade remonta ao Jurássico superior, de há mais ou menos 150 milhões de anos, e os fósseis nesta região são habitualmente já do Cretácico. Do Jurássico só, até agora, vestígios e pouco mais.
Ora este fóssil, dum animal de mais ou menos metro e meio, apresenta-se muito bem conservado e isto põe questões às quais os cientistas estão a tentar responder, com estudos minuciosos no terreno e em laboratório. É que, para termos estes fósseis, foi necessário que os animais tivessem tido, nestas regiões, boas condições para nela viverem e morrerem. Depois, tiveram que ser ràpidamente cobertos com areias ou arenitos poderem fossilizar sem se deteriorarem, ao abrigo do ar.
E agora, teve que haver um trabalho cuidado de escavações paleontológicas para pôr a descoberto os estratos em que o fóssil estava "encaixado".
Ora tudo isto tem que ser motivo de estudo e análise cuidadosa para depois se chegar a conclusões que permitam saber mais àcerca da história da Terra e da Vida.
Quantas vezes as "pedras" com que tropeçamos no caminho não são pedaços dessa história e da nossa história pessoal?!...
A ciência ajuda o conhecimento e a Fé a compreensão.
                         Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

domingo, 8 de setembro de 2013

Natividade de Nossa Senhora

Faz hoje anos - exactamente 54 - que fiz a minha Primeira Profissão que, em boa verdade, foi já a definitiva porque não houve retorno.

Vivi a Missa deste dia,  que  hoje foi na minha paróquia, como se fosse a  da   própria festa. Recordei a capela do Ramalhão,( o nosso Colégio e o "ninho" da grande maioria de nós), o celebrante, as Irmãs, as famílias, os amigos.
Os  textos da Missa, hoje, não foram os mesmos,  porque  é  domingo   e  a liturgia obriga a seguir o ritual. Mas, engraçado!... Falavam de seguir Cristo, de cruz, de despojamento e de amizade. Coincidência?!...
Ainda houve uma lágrima solitária e discreta. Não sei se de alegria, se de saudade, se de estar ali sòzinha, lembrando outros dias e outras situações.
Também houve um momento especial de oração por todos os que trago no coração e de agradecimento pelas graças recebidas.
Foram 54 anos de caminhada nem sempre fácil. "Deus escreve direito por linhas tortas" diz o povo. Não sei! Acho que os caminhos d´Ele são sempre direitos; nós é que às vezes os fazemos tortos. Ou melhor, essas encruzilhadas e desvios, que por vezes nos surpreendem, são, simplesmente, chamadas de atenção para que entendamos o que é melhor para nós.
Afinal, um dia, fizemos uma opção, decidimo-nos pela "melhor escolha" . Já sabíamos que não ia ser fácil "Quem quer ser meu discípulo tome a sua cruz ".Às vezes são doenças, incompreensões, dificuldades, mudanças. Mas, temos alguma razão para duvidar que Deus está lá e quer a nossa felicidade? Então!...
                          Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

sábado, 7 de setembro de 2013

A Fé e os interesses dos homens

Quando saímos de casa, nem sonhamos com as surpresas que nos esperam nem com o tipo de pessoas que podemos encontrar. Talvez atraídas pelo nosso hábito ou pelas nossas atitudes.

Ontem necessitei de apanhar dois taxis. No 1º, um motorista todo entusiasmado , falador, conhecedor de futebol. Todo o caminho falou de seu clube de eleição e dos aspectos positivos que esperavam ao clube e aos jogadores. Tão entusiasmado estava que quase íamos dando a volta à cidade. E o taxímetro a contar... Era por uma boa causa mas ele no fim fez um desconto dos Kms perdidos
Mas  quem realmente me surpreendeu, pela positiva, foi o 2º taxista. Logo que entrei, um acolhimento afável e delicado. E uma pergunta discreta: "Vai para o convento dali da Estrela?" Não, respondi. Vou à Missa.
E aqui começou uma conversa interessante em que ele me declarou que era católico e não escondia isso de ninguém. Realmente eu reparara que ele tinha uma imagem de Nossa Senhora no tablier e um terço pendurado no espelho. "Não é um, são dois"- esclareceu-me." É que levo Nosso Senhor à minha frente , para me guiar e atrás para me proteger".
Achei lindo mas mais encantada fiquei quando ele me contou que um dia levara um Bispo do aeroporto a casa e que, ao tirar-lhe as malas, o Bispo lhe tinha feito uma cruz na testa e lhe dissera " Nosso Senhor estará sempre consigo". E esta palavra o tem acompanhado pela vida fora.
Era um homem simples, não muito novo, mas um homem de fé e de testemunho.
Não lhe disse muitas coisas nem tinha para lhe dizer mas agradeci-lhe o testemunho que me tinha dado e disse que rezaria por ele. E ele... respondeu-me que lhe tinha dado muito prazer fazer esta pequena viagem comigo.
Fui para a Missa, para a minha Basílica, mas levei comigo a lembrança deste Homem e da sua Fé.
Mas porque as surpresas não acabam e o hábito convida a confidências, novas declarações de Fé, hoje. E até um jovem a perguntar-me como fazer para ser Frade.
E como duvidar? E como não ter esperança? E como não ser fiel?
                       Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O:P:



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Notícias tristes que dão alegria


No meio dos horrores e catástrofes com que a TV nos tem vindo a inundar nos últimos tempos,de guerras a mortes e a fogos, surgem notícias que nos deixam animados. 
Esta semana foram duas, muito embora uma delas esteja envolta numa nuvem de tristeza. Nem mais nem menos do que a morte, aos 50 anos, da criadora da "OPERAÇÃO NARIZ VERMELHO" - Beatriz Quintella.
A sua morte, evidentemente que é um choque e um acontecimento doloroso. Mas a ela se sobrepõe a alegria e a gratidão de todo o imenso trabalho que deixou e realizou, primeiro sòzinha depois com o grupo de colaboradores que a quiseram acompanhar na sua missão de fazer sorrir.
" O sorriso não cura - dizia ela- mas é mais fácil curar uma criança feliz".
Começou, fazendo actividades no Natal, no Carnaval, em grandes festas, mas terminava sempre com a angústia de como animar as crianças depois. E assim  nasceu a sua obra que tem ajudado milhares de crianças. Crianças que sofrem, mas que aprendem a sorrir e a ver com outros olhos os problemas que os afectam. É ajudar a viver o tempo que resta a algumas, com melhor alegria de viver.
Outra notícia, e esta totalmente feliz, o prémio da Fundação Champalimaud atribuído a quatro instituições, sem fins lucrativos, do Nepal, que se dedicam a tratar pessoas que cegaram mas que têm cura, porque sobretudo o problema são cataratas e estas podem ser resolvidas, com cirurgia e lentes intra oculares.
Que obra maravilhosa esta de dar ou restituir a vista aos cegos!...
É seguir o exemplo de Jesus, num caso bem concreto...
Neste momento lembro aqueles casos de pessoas que, vendo, não querem procurar o caminho certo, ou não o querem ver.
Cegos que vêem!
Saibamos dar graças pela capacidade de ver, pelo dom da visão, que recebemos de Deus e ponhamos a render, sempre, todos e cada um dos nossos dons.
                                    Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O:P:


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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Viagens que são férias


Quando chega Setembro, há sempre a tentação de dizer : acabaram-se as férias. O olhamos o trabalho, a rotina, a mudança de hábitos com alguma monotonia.
Mas, de facto, esta afirmação não reflecte um facto em si mesmo: primeiro, porque as férias nunca acabam e depois, porque quando uns terminam  o  seu  tempo de descanso outros podem estar a começar e outros a meio do seu tempo de lazer.
Mas ,mesmo quando não há tempo para férias, se encararmos qualquer mudança que ocorra como uma variável na vida, já podemos pensar que tivemos férias. Aliás, elas podem também acontecer em trabalho...
Estou a pensar numa viagem que fiz com as alunas. Era trabalho... porque foi preciso assumir a responsabilidade de 30 raparigas, durante uma semana, em Paris. Mas foi tão divertido e tão compensador!... Não foram férias? Para nós foram.

Certamente que a Guigui, a Alice Flor, a Isabel, a Constança e tantas outras do mesmo ano recordam esta ida a França.
Fomos de comboio e passámos a noite em viagem. Em Lisboa,tinham-nos marcado os lugares num hotel de estudantes onde o dono  fazia de tudo, desde vigiar as saídas até tomar conta do pagamento dos banhos. Sim que duche só pago com antecedência...
Acompanhou-nos a Semisa, a funcionária do telefone, e com ela, a primeira cena cómica. Claro que também ia a srª D. Lúcia, professora de um grupo delas e a Ir. Inês Mota e Melo que, nessa altura ,trabalhava comigo no Colégio.
Fomos no tempo em que, ao atravessar a fronteira, se tinha que tomar uns comprimidos não sei bem para quê. Todas, com mais ou menos vontade, lá os engolimos. Mas a Semisa, guardou-os debaixo da língua e, assim que passámos a fronteira lá foram eles pela janela. " Era só o que me faltava... tomar essa porcaria que não sei o que é "...
Depois, segunda aventura: as nossas refeições eram numa cantina universitária num bairro do outro extremo da cidade. Logo, metro para lá, metro para cá, duas vezes ao dia, sem falar nas outras deslocações para visitas. Também foi numa visita, ao Museu do Louvre, que apanhei um grande susto. É que,depois de contar e recontar, faltava uma aluna que tinha chegado à porta connosco. E logo a mais sossegada... Nem quis fazer perguntas a mim mesma. Simplesmente confiei. Acho que era suficientemente aventureira e confiante no Pai, para não perder a calma.
E não valia a pena, porque não tinha acontecido nada ! Simplesmente  ela entrou por outra porta, por engano . E, sem bilhete, imaginem. Aventuras da Aventura que é um viagem com alunas. E que saudades nos deixam... São surpresas ,das agradáveis, que eu estou a escrever para não lembrar inquietações e preocupações que também fazem parte da vida.
                                                 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

No mundo da surpresa...


Surpresa é uma palavra que habitualmente tem uma conotação negativa. É quase sempre algo que nos causa espanto, aborrecimento, dificuldade. 
Aliás o dicionário, (que eu gosto sempre de consultar nestas circunstâncias), embora nos apresente também uma definição mais optimista, igualmente nos fala em sobressalto, admiração, choque súbito.
Mas nem sempre a surpresa é não ter Missa quando contávamos com ela, não conseguimos bilhetes quando pensávamos viajar, ficarmos retidos em casa por uma chuvada inesperada em pleno Verão...
Há surpresas que são agradáveis e nos enchem de alegria: uma operação bem sucedida, um mail dum amigo que nos traz tranquilidade, uma conversa amena e agradável com uma amiga.
Dumas e doutras, apesar de tudo, há que dar graças a Deus. É que ambas fazem parte da vida e a vida é, na verdade, uma aventura que temos que aprender a realizar.
E a vida dum cristão ainda é uma aventura maior. Ouvi esta afirmação outro dia numa homilia e na altura passou-me ao lado. Tinha outras coisas a encher-me o espírito e o coração... Agora que estou mais calma e tranquila, posso parar e reflectir nesta grande realidade. A vida do cristão é realmente uma Aventura: entre Amor e dúvida, satisfação e intranquilidade, certeza e interrogação... que mundo de coisas!...
E depois, onde pôr a coerência entre a nossa vontade e o querer de Deus? E o mal, a guerra, o sofrimento... a Liberdade do Homem e a misericórdia do Pai.
É uma aventura viver tudo isto, sem desânimo, sem inquietação, alegremente, dando graças, com a certeza de que a Vida também é um motivo de Surpresa.
Saibamos compreendê-la e dar graças ao Pai que cada dia nos dá um novo motivo de espanto e de ventura.
 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.