quinta-feira, 30 de maio de 2013

"A tua Fé te salvou"

Hoje, no Evangelho da Missa, leu-se a história de Bartimeu - o cego que Jesus curou porque lhe pediu insistentemente a sua cura.
O episódio fala em muita gente : Jesus e os apóstolos; o cego e os que o rodeavam: aqueles que o mandavam calar porque não queriam que ele gritasse por Jesus...
É uma descrição interessante e cheia de pormenores. Até o nome do cego é mencionado no Evangelho -  Bartimeu!
Mas não foi nada disso que me impressionou, mas sim o diálogo estabelecido:
" Que quereis? "- diz Jesus
" Mestre, que eu veja!"-responde o cego
" A tua Fé te salvou" - é a conclusão de Jesus
E o homem retirou-se curado...
Jesus não fala de pecado nem de virtude; não menciona arrependimento nem perdão; não recomenda nova vida nem lembra os mandamentos; não cita dádivas nem partilhas. Jesus simplesmente fala de Fé; unicamente diz que foi a Fé que salvou aquele homem, que foi ela que o fez acreditar que Deus o podia curar por intercessão do mestre.
Foi a Fé que fez o cego gritar por Jesus e conseguiu que Ele o ouvisse.
Ao reflectir neste episódio, apeteceu-me perguntar quantas vezes, nas nossas angústias e dificuldades, gritamos por Jesus com a Fé de Bartimeu?
Quantas vezes dizemos a nós mesmos que é a Fé que nos livra dos problemas, das tentações, das dúvidas?
Quantas vezes dissemos, convictamente, que "é a Fé que nos salva"?
É muitas vezes a nossa falta desta Fé sem medida que nos torna infelizes, sem coragem, sem entusiasmo.
Nestas vésperas da festa da Eucaristia tomemos como exemplo o cego Bartimeu e como ele gritemos: Senhor que eu veja!
                        Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Imprevisíveis

Estávamos na hora do recreio das alunas e eu,como de costume, estava com elas. Uma funcionária deu-me o recado: a Madre Geral  mandava-me chamar pois queria falar comigo. Nada de novo... Nada de extraordinário... Não me perguntei porquê nem elaborei hipóteses. O que fosse soaria.
Deixei as alunas entregues a si mesmas e fui...Simplesmente.
E simplesmente também, a Madre Geral, com o ar mais natural do mundo, comunicou-me que eu ia ser a nova directora do Colégio. O meu cérebro parece que parou e não tive palavras nem para aceitar nem para recusar. Tinha vindo para o convento longe de pensar que me ia servir do curso e, mais longe ainda de que ele ia ter esta finalidade.
Em boa verdade, não fazia ideia nenhuma do que o futuro me reservaria. 
Comecei no dia seguinte, sem saber o que significava dirigir um estabelecimento de ensino como este, nem o que era preciso fazer e, menos ainda, como. Mas era jovem e aos jovens a "aventura" não mete medo. Acreditam que sabem tudo e que tudo é fácil de realizar. E assim comecei essa experiência feita de inexperiências.
Foi o tempo, a equipa com que trabalhava, os professores mais antigos, que me foram ajudando e ensinando.
Nesse tempo, anos 60, para se ser director dum colégio era necessário um diploma, passado pelo Ministério e atestado por um inspector que creditava as nossas capacidades. Claro que esta era outra cláusula que eu desconhecia. Por isso, fui apanhada de surpresa quando um senhor muito sério e distinto me entrou pelo Laboratório, onde eu já tinha iniciado uma aula de Botânica.
Não estava nos meus melhores dias mas pensei que tinha 5 minutos para mostrar o que valia. Invoquei o Espírito Santo e recomecei a aula, utilizando um método inovador na época e que fazia parte da cultura aprendida nos cursos para professores, ministrados na Gulbenkian -o método de pesquisa.
Acho que "meti um pouco os pés pelas mãos" mas o sr. Inspector devia saber pouco de corolas e pecíolos e menos ainda deste método experimental que " não tinha ainda visto em parte nenhuma".
Saiu satisfeito e mandou-me o necessário diploma. Foi o princípio!
Dou graças a Deus por todo o trabalho realizado e peço por todos os que me ajudaram e pelas alunas com quem tive o prazer de trabalhar.
                            Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Impressão digital



                                                
                              Impressão  Digital
                                               
                               Os meu olhos são uns olhos
                               E é com esses olhos uns
                               que eu vejo no mundo escolhos
                               onde outros, com outros olhos,
                               não vêem escolhos nenhuns.

                                                Quem diz escolhos diz flores
                                                De tudo o mesmo se diz.
                                                Onde uns vêem luto e dores
                                                uns outros descobrem cores
                                                do mais formoso matiz.

                                Nas ruas ou nas estradas
                                onde passa tanta gente
                                uns vêem pedras pisadas
                                mas outros gnomos e fadas
                                num halo resplandecente.

                                              Inútil seguir vizinhos,
                                              Querer ser depois ou ser antes.
                                              Cada um é seus caminhos.
                                              Onde Sancho vê moinhos
                                              D. Quixote vê gigantes.

                               Vê moinhos? São moinhos.
                               Vê gigantes? São gigantes.
                                            António Gedeão, Poemas escolhidos
                                     

domingo, 26 de maio de 2013

Imposições e escolhas

Mudar está na ordem do dia. E esta é uma realidade bem profunda, da qual nem sempre temos consciência e na qual não reflectimos com a frequência com que as mudanças se nos apresentam.
Razão tinha Camões quando escreveu o seu soneto:
Mudam-se os tempos / mudam-se as vontades / todo o mundo é feito de mudanças...
Cada três meses mudam-se as estações do ano e por isso, variam as condições meteorológicas, a agricultura modifica-se e até o nosso temperamento e disposição são influenciados.
Duas vezes no ano muda-se o ritmo de vida porque o relógio adianta ou atrasa e o dia começa mais tarde ou mais cedo.
De quatro em quatro anos, na melhor das hipóteses, mudam os governos e alteram-se as leis, os regimens estabelecidos, a estabilidade da vida.
Quando terminam os contratos ou a satisfação do ou com o clube, mudam-se os jogadores, vendem-se os passes, vestem-se outras camisolas.
Muda-se o vestuário porque mudou a estação ou se vai a uma festa.
Até o sol muda cada dia. Nasce de manhã e com ele a alegria, um certo optimismo, uma inevitável vontade de viver. Depois, ele vai empalidecendo, descendo no horizonte e chega a noite com o seu manto de mansidão e, às vezes, de tristeza.
Estas são as mudanças que o planeta ou a vontade dos Homens nos apresentam.
Mas há outras, mudanças mais profundas, como o crescimento, a maturidade, o desenvolvimento da Fé, a adaptação a novos tempos, a variadas circunstâncias.
Há as mudanças de vida, de ambiente, de casa, de cidade, de hábitos.
Mudanças que se esperam, mudanças com que não se conta! Mudanças que se procuram e mudanças que nos procuram. Mudanças que escolhemos e mudanças que se nos impõem.
"Todo o mundo é feito de mudanças".
E a nossa realização está em aceitar a mudança, colaborar com ela e agradecê-la como um Dom.
Fácil? Difícil? depende da disponibilidade do nosso coração e da entrega que fazemos nas mãos do Pai. Com Ele tudo se vai tornando fácil...
Olhemos com optimismo cada mudança que a vida nos apresenta na certeza de que "Deus não nos pede nada além das nossas forças" e que "nada acontece por acaso".
                                    Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Contradições

" Vem por aqui"  - dizem-me alguns com olhos doces
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom que os ouvisse
quando me dizem " vem por aqui"
Eu olho-os com olhos lassos
(Há nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali...

Não sei porque me lembrei hoje deste Cântico Negro de José Régio. Talvez pelas contradições que ele suscita. Não conheço o estado de alma do autor ao escrever este poema: desânimo, revolta, liberdade, idealismo? Pode ser tudo e nada . Apenas sensibilidade e imaginação de poeta. Talvez uma chamada de atenção ... a procura dum sentimento de Fé e de confiança, a busca dum apoio em Deus e nos Homens...
A verdade é que na vida há ocasiões em que não adianta apontarem-nos um caminho porque a nossa intenção é bem diferente: seguir outro caminho, talvez o oposto. Por contradição? Porque estamos convencidos que o nosso é o melhor? Porque não gostamos de seguir, como carneiros, o percurso delineado por outros?... Talvez!...
Sobretudo quando jovens este desejo de experimentar o "novo" , de fugir à rotina, de contrariar a experiência dos outros, é muito frequente e notória.
E, se calhar, não é mau. Sobretudo se levamos connosco uma "bússola" , o apoio seguro dum Pai que fala ao nosso coração e nos aponta a Verdade de cada escolha.
São as nossas experiências pessoais , os nossos avanços e retrocessos, os nossos conhecimentos de "tentativa e erro"  que nos fazem crescer.
Mas, atenção! olhai que temos que levar na bagagem a humildade de reconhecer que errámos, a coragem de voltar atrás e recomeçar, a alegria de encontrar o caminho certo, a Fé e a Esperança que vão iluminar e fortalecer as nossas derrotas e vitórias, a confiança nos Amigos que contam connosco.
Não olhemos com indiferença aqueles que nos aconselham " seguros que seria bom que os ouvíssemos" ... Que não haja "ironia e cansaço" nos olhos que se erguem ou fogem daqueles que gostariam de nos mostrar o caminho... E, sobretudo, nunca " cruzemos os braços" , indiferentes ao apelo do nosso coração. É que Deus está lá e Ele, esse sim, tem a certeza que "seria bom que O ouvíssemos".
                              Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Sim e os sins

" Deus me deu, Deus me tirou. Louvado seja Deus! "
Esta foi a atitude de Job face ao despojamento que lhe foi pedido. É a atitude dos místicos e dos santos que tudo colocam nas mãos de Deus: alegrias, tristezas, dificuldades e conquistas.
E nós? Qual a nossa atitude e disposição face a qualquer sacrifício que nos é pedido? Era bom que também nós fôssemos capazes de proceder assim, numa total entrega ao Pai e à Sua vontade, numa absoluta disponibilidade ao desejo de Deus a nosso respeito.
Quando rezamos o Pai nosso... ( e dizemo-lo algumas vezes ao dia e todos os dias...) pedimos que " seja feita a Sua vontade ". Mas, podemos perguntar-nos se sabemos realmente qual é a vontade do Pai em relação a nós.
Temos mesmo a tentação de dizer que não sabemos bem porque... é difícil conhecê-la; porque é obscura; porque temos dificuldade em discerni-la entre as mil solicitações que nos são feitas.
Mas não será que o que acontece é que temos dificuldade não em saber mas em seguir aquilo que Deus nos pede?
O que custa não é discernir, compreender, mas sim aceitar a Vontade de Deus, sobretudo quando Ele nos pede aquele despojamento, aquela doação, aquela mudança que pressupõe um hoje e um àmanhã bem diferentes do ontem que foi o nosso.
Mas é nessa altura que temos que mostrar a nossa lealdade ao Pai, a nossa disponibilidade, a nossa correspondência ao nosso compromisso de cristãos, apesar dos nossos limites, das nossas fraquezas e dos erros que cometemos a cada passo.
" Seja feita a Vossa vontade " continuamos a dizer cada dia. Mas a vontade de Deus não se realiza sem a nossa colaboração, sem o nosso esforço.
Deus quer...
O Homem sonha...
A obra nasce.
Assim fala o poeta que põe em primeiro lugar a Vontade de Deus mas não omite que  a realização  depende do nosso sonho e do nosso querer.
                             Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.
 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A Ciência, ontem e hoje



Não foi certamente por acaso que, ao pensar na frase daquela senhora, em Lisboa, " Haja quem cuide de nós!..." me lembrei da Fundação Champalimaud. É que fui lá outro dia almoçar com uma amiga e aproveitámos para passear no espaço ao ar livre e obter algumas informações. Achei um óptimo ambiente e um espaço muito agradável.
Certamente que os doentes se sentirão acolhidos e mais bem dispostos e os médicos e investigadores mais motivados no seu trabalho.
Explicaram-me que a Fundação tem duas valências que se completam e entrecruzam: a investigação científica e a actuação clínica.
Para isso, duas zonas também distintas: uma de atendimento, consultas e exames aos doentes; outra de trabalho de Laboratório, experimentação e investigação.
Estas duas zonas estão instaladas, uma no centro clínico, que orienta a sua actividade para o doente, promovendo a qualidade de vida e ministrando cuidados personalizados de excelência, com uma equipa multidisciplinar e programas inovadores de diagnóstico e tratamento; a outra, é o centro de investigação, no campo da biomedicina (especialmente direccionada para o problema do cancro)  em que trabalham académicos e investigadores nacionais e estrangeiros.
O Centro está aberto ao público e pode ser usado por todos , com o seu restaurante, zonas verdes e anfiteatro.
Que todos os que precisam de tratamento e aqueles que querem apenas passear saibam usar e aproveitar deste espaço.
                                          Ir.M.Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.