sábado, 30 de março de 2013

Os últimos dias...

Estes últimos dias da semana são por demais densos e interiorizantes. Tornam-nos, talvez por isso, mais sensíveis e vulneráveis.
Na 5ª feira foi a cerimónia do Lava-pés com toda a sua dimensão existencial em que ficou bem patente a humildade que Jesus testemunha e que nos convida a viver.
Fazer como Ele fez, em espírito de caridade, de serviço, de disponibilidade, de partilha. Servir os mais simples, os mais humildes, os que mais necessidade têm de apoio, de acolhimento. Descer à condição de servo e abrir os braços aos que passam ao nosso lado e que não têm coragem de pedir ajuda.
Foi a lição de 5ª feira Santa, com a instituição da Eucaristia e a transmissão do poder sacerdotal.
A este dia, segue-se 6ª feira Santa, em que acompanhamos o drama da Paixão, em que recebemos outro exemplo de Jesus que, mesmo ao ser procurado, pretende proteger os discípulos. "Se é a Mim que procurais deixai ir estes..." E assim se cumprem as escrituras.
E depois, a figura de Pilatos, ressaltando de todo o processo de julgamento sumário. Pilatos, aquele homem cobarde que sabe que Jesus está inocente mas que O condena, porque tem medo de ser acusado de não ser amigo de César.
Também ele está dividido entre a Verdade e o poder . E opta pelo poder lavando as mãos do "sangue daquele justo".
E uma grande tristeza, uma grande solidão se estende sobre a terra. A Cruz, em que Cristo morreu, impõe-se a todos os homens e obriga ao silêncio e à veneração. É o único dia em que o Homem se ajoelha diante da Cruz, venerando esse instrumento da morte de um Deus feito Homem.
E hoje, é sábado, o dia do silêncio, da solidão, em que nos recolhemos em nós mesmos para agradecer ao Pai que nos deu o Seu Filho e ao Filho que foi "obediente até à morte e morte de cruz".
Ajoelhemos diante do mistério e acolhamos o dom que fez de nós filhos.
                          Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Traição, revolta, morte

A Semana Santa vai-se aproximando do seu climax e vai-nos marcando através das leituras do dia. Hoje, foi a descrição da traição de Judas que marcou e de certa maneira nos deixou interrogações. Como é que aquele homem, que viveu três anos com Jesus, presenciou os Seus milagres, assistiu às Suas pregações, viu como Ele rezava e... não aprendeu nada? Como é que ele, depois duma última tentativa de Jesus, dum último apelo à sua conversão, foi capaz de virar costas e ir entregar o seu Mestre?
E vendeu-O... Por trinta moedas, dinheiro que não chegou a aproveitar, que deitou fora, talvez num último sentimento de revolta.
Arrepiamo-nos ao pensar nisto, ao rever o texto do Evangelista S. João, ao encarar com esta personagem e relembrar cada um dos passos que são descritos e em cada uma das consequências.
E, se queremos ser realistas,  somos levados a pensar que também isto nos acontece a nós, às vezes, muitas vezes...
Também nós estudámos o catecismo, vamos à missa, fazemos retiro, rezamos, assumimos compromissos e depois, voltamos as costas e trocamos Jesus por algumas moedas... talvez por nada...por momentos de prazer e de alegria fictícia.
Judas chegou a arrepender-se mas, demasiado tarde.
Que connosco, ao menos isso não aconteça.
Que nunca nos cansemos de pedir perdão porque, como disse o Papa Francisco, Deus nunca se cansa de nos perdoar.
                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Paixão de Jesus Cristo segundo S.Lucas

Provoca sempre uma grande tensão emocional ouvir a Leitura da Paixão, qualquer que seja o Evangelista que é utilizado paraessa leitura. Mas, a de S. Lucas, que se lê no Domingo de Ramos, é por demais pormenorizada e rica de dados históricos. Nela estão sintetizados todos os acontecimentos da Semana Santa.
Começa com a escolha do local para a preparação da Páscoa. Não é um local qualquer ou previamente combinada. É aquele onde forem levados pelo Homem que lhes há-de aparecer transportando uma bilha de água.
Lá, a Última Ceia, a instituição da Eucaristia e a passagem do testemunho aos Apóstolos: Fazei isto em memória de Mim!... Mas, ao mesmo tempo, ali se anuncia a traição de Judas e a negação de Pedro. É o início do drama... que se continua no Monte das Oliveiras com a agonia de Jesus, lutando entre a Sua vontade e a vontade do Pai que O enviou.
E a seguir, a prisão, o julgamento no tribunal judaico, que não tem poder para condenar à morte. E por isso, Jesus é levado a Pilatos que, ao sabê-lo galileu, o envia a Herodes. E, ironia! por causa disso os dois se tornaram amigos.
E o Evangelho continua a contar-nos, passo por passo, as injúrias, as afrontas, as torturas a que Jesus é submetido.
E depois, a caminhada até ao calvário, a crucificação, o diálogo com os dois ladrões, a promessa do paraíso para o " bom ladrão"e, finalmente, a morte e a deposição no sepulcro por José de Arimateia.
Não há espaço nem para respirar, depois de reviver todos estes episódios que parecem ter dado vida à pessoa de Jesus que nós quisemos acompanhar.
Não se pode ficar indiferente depois de se ter lido este texto dos Evangelhos. Façamos dele vida.
                   Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

domingo, 24 de março de 2013

As contradições do Reino

Domingo de Ramos!
Entrada triunfal em Jerusalem!
Hossana, óh! filho de David...
Há júbilo, há gritos de alegria e louvor. O povo em geral e os discípulos em particular, saúdam o Rei, o Libertador, a mudança de estatuto, de regimen.Felicitam e rejubilam com aquele que eles julgam ir mudar tudo; que pensam que os vai libertar do erro e do domínio do povo estrangeiro; que consideram ir-lhes dar um reino de abundância, de paz, de felicidade, como anunciou o profeta Isaías...
E não têm razão?
Jesus não nos veio libertar , não veio fazer mudar o rumo dos acontecimentos, não veio trazer novas regras e uma nova doutrina?
Só que... o choque era inevitável! O Rei, é um Rei crucificado, morto mas ressuscitado. E o Reino, está em nós e só será diferente quando mudarmos, quando virmos a Deus e à Vida, despidos das roupagens com que habitualmente os disfarçamos para que não possamos ver claro.
O Reino novo, anunciado por Jesus, o Cristo Crucificado, é um reino que tem que passar pelo sofrimento, pelo despojamento, pela verdade. É um reino de simplicidade, de alegria na pobreza, de felicidade no dom e na partilha.
Queremos pertencer a este reino?
É o momento da escolha, neste Domingo de Ramos...
Queremos continuar à espera dum reino terreno, exterior a nós, ilusório, ou queremos ser testemunhos vivos dum Rei crucificado?
Se queremos... eis a hora!
                         Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, o.p.

sábado, 23 de março de 2013

Semana Santa

Estamos em vésperas da Semana Santa. Como correu depressa este período de cinco semanas que nos deixou no domingo de Ramos... É àmanhã!
Domingo de Ramos. Entrada triunfal em Jerusalém. Manifestação de louvor, de glória, que rapidamente se desfaz e se transforma em gritos de condenação e em pedidos de morte.
Foi assim o povo de Jerusalém... hoje em euforia , àmanhã em condenação.
É assim todo e qualquer povo quando se deixa manipular e é aliciado por vãos interesses.
Crucifica-o! crucifica-o! É  o grito que contradiz  os cânticos de louvor e acção de graças do Domingo de Ramos: Hossana ó Filho de David.
Somos assim muitas vezes: volúveis, inconstantes, deixando-nos guiar por falsos profetas e mover por questões contraditórias e secundárias.
Estamos a caminho desta semana da Paixão que é preenchida por inquietação e dor. Admiremos a tranquilidade de Jesus que se deixa saudar efusivamente sabendo o que o espera em Jerusalém, conhecendo a reviravolta que as mentalidades vão sofrer e que as levará a condenar aquele que antes louvaram e saudaram alegremente.
Mas, no meio desta semana, um sinal de alegria: a instituição da Eucaristia.
É Quinta Feira Santa! Jesus veio e ficou. Depois, será a Morte e a Ressurreição mas Jesus já tinha deixado a Sua presença entre os Homens: Fazei isto em memória de Mim.

 Ir.Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O tempo passa ... o silêncio fica

Os dias passam... o tempo corre, escoa-se entre os nossos dedos , como a areia da praia.
Ainda "ontem" era Natal e já estamos em vésperas de Páscoa. Passou um trimestre quase sem se dar por isso. Os alunos estão novamente em férias; os professores em reuniões; os funcionários em arrumações e limpezas.
A casa muda de especto e parece estranha com este silêncio em que não há gritos de crianças nem animação de adultos.
Espreita-se pela janela e apenas o ar húmido deste fim de Inverno em que uma réstea de sol parece querer animar a paisagem e os corações.
É ocasião para apreciar o silêncio e tentar aproveitar para tentar desenvolver em nós um clima de sossego que ajuda à reflexão.
Mas o silêncio às vezes oprime, cansa... Sobretudo se não estamos disponíveis para o aproveitar, se não queremos fazer desta tranquilidade o ambiente propício para acolher Deus e a Sua mensagem.
Deus fala no silêncio!
O dia desce, a luz diminui, a noite chega... o silêncio impõe-se. Já não há reuniões, nem trabalhos, nem actividade. Apenas sossego, paz.
Deixemo-nos invadir por esta tranquilidade, por esta calma, por este silêncio. Lutemos contra a tentação de letargia, de tristeza, de inação. E não tenhamos medo deste silêncio que vai tomando conta de nós. Paremos... Fiquemos diante do sacrário tentando ouvir o Senhor que, morreu por nós, mas ressuscitou e está presente para sempre . E fala-nos no silêncio do nosso coração.
Procuremos aquele ambiente em que sabemos estar apenas nós e Deus.
                      Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.
                      

domingo, 17 de março de 2013

Paciência e misericórdia

Hoje, último domingo da Quaresma, já ninguém se lembra do que ficou para trás. Coincidiu com ele o primeiro Angelus que o Papa veio rezar na praça se S. Pedro e todos nos concentrámos nisso. Já lá vai o tempo do Conclave, a espera pela eleição, a festa face ao anúncio do novo Papa... Igualmente os acontecimentos internos , importantes para o Colégio, mas muito menos que um novo Sumo Pontífice .
O Papa Francisco apareceu à janela, deu os bons dias e, baseado no Evangelho do dia, falou na paciência de Deus e na Sua misericórdia. Uma homilia curta mas em que insistiu que o Deus de misericórdia está sempre atento e disponível para perdoar. Nós é que muitas vezes não vamos pedir o Seu perdão...
Realmente não temos o coração aberto e suficientemente desprendido para acolher a misericórdia e o perdão.
Razão tem um amigo meu... que ainda acrescenta que dificilmente descemos até ao âmago de nós mesmos para nos libertarmos de todo o erro e pecado que lá se esconde, e sermos perdoados totalmente.
Jesus face aos homens que acusavam a mulher de adultério, fê-los descer ao fundo de si mesmos  e reconhecer que eram pecadores. Só aqueles que estão puros, livres, podem acusar. Por isso, eles se retiraram, um a um " começando pelos mais velhos".
É mais uma lição para a nossa caminhada da Quaresma, esta que Jesus nos dá. É tão fácil julgar, acusar e condenar!... E ficar de ânimo leve sem nos apercebermos que nenhum julgamento tem valor sem provas e que só um coração puro é capaz de ver, em verdade, a distinção entre o erro e a ausência dele.
Libertemos o nosso coração e disponhamo-lo não para acusar mas simplesmente  para usar de misericórdia, a do Pai. 
  Ir. M.Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.