quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O eu e o nós

A semana passada ouvi falar num livro cujo título me chamou a atenção:
      "Do eu solitário
        ao nós solidários"
Não sei qual é o conteúdo do livro mas pelo título tem todo o aspecto de tratar de problemas económicos, de solidariedade, de contradição entre o ter e o ser.
Até porque hoje em dia cada vez mais vai ser importante a demonstração do que se é, das suas potencialidades, dos valores vividos, em detrimento do que se tem, do poder da riqueza, da acção do dinheiro.
Mas do título do livro fixei-me apenas na primeira parte... o eu solitário... Ela questiona-me em relação às nossas opções fundamentais.
Muitas vezes, quando o ambiente não nos é favorável temos a tentação de optar por um caminho que parece apresentar-se, simultaneamente, como uma necessidade e um dom: o de seguir sozinho o nosso caminho. E levantamos triunfantes a bandeira da nossa opção, justificando: nós e Deus. Eu pelo menos...
Mas, simultaneamente me pergunto  se esta opção é assim tão linear e tão ao encontro da vontade e dos desígnios do Pai. Nós solitários ... e Deus.
Mas afinal Deus não está "sozinho". Ele é Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo...
Quando deu o 1º passo para criar a humanidade, criou-a dupla, Homem e Mulher, porque "não era bom o Homem estar só..."
Quando veio ao mundo ,feito Menino, fê-lo numa família e teve a rodeá-Lo anjos e pastores...
Quando começou a Sua vida pública, escolheu 12 para o acompanharem e seguirem...
Será que a nossa opção de ficar sós, independentes, teoricamente livres para O servir, é a mais correcta?
Às vezes defendemo-nos com o ditado popular " mais vale só que mal acompanhado"... mas, teremos a certeza de que é má a companhia que se nos impõe? Ou seremos nós que ainda não abdicámos do nosso egoismo, da nossa falta de generosidade e não cultivámos a nossa capacidade de perdão?
Deus é Amor e quer-nos alegres e capazes de amar . Será escolhendo a via da solidão que vamos encontrar a capacidade de amar e a alegria de viver?
Ainda não encontrei a resposta plena, mas...
Talvez aqueles que são incómodos estejam à espera que lhes mostremos que vale a pena ... que é juntos que vamos encontar o caminho e o  devemos seguir.
Então... teremos descoberto o "nós solidário".
                                   Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.
 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

TUDO VALE A PENA...

Começou o ano. O ano civil porque aqui, em Portugal, não coincide nunca com o ano escolar. Mas começou o ano e com ele acabaram as tão ansiadas férias do Natal.
E com o início do ano recomeçaram as aulas, as actividades, os trabalhos.
Gostaríamos que o ano novo viesse cheio de novidades, de entusiasmo, de alegria e esperança... Mas, a toda a hora a TV e os jornais nos inundam das mesmas tristes notícias, dos mesmos desalentos e da mesma falta de perspectivas:
É a U E e a sua falta de entendimentos;
É o problema do Orçamento e da sua aprovação ou não pelo Tribunal Constitucional;
É a questão da Síria todos os dias mais efervescente;
É!... É!...milhões de pequenas, grandes coisas que ensombram o entusiasmo, a alegria e o amor com que se deve começar um novo ano.
Todos os dias há crianças que nascem e jovens a fazerem promessas de amor; todos os dias há pais que esperam algo dos seus filhos e estudantes que enseiam pelo bom resultado dos seus esforços...
É importante que os ajudemos a acreditar, que lhes demos o nosso testemunho de Fé, que lhes ensinemos a seguir em frente sem medo e sem desfalecer. É necessário que inventemos formas novas de encarar e viver os problemas, que os entusiasmemos a ler e entender os sinais do mundo. Numa palavra: "É preciso fazer novas todas as coisas".
O poeta diz-nos que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena". É uma frase antiga que devemos tornar nova neste ano que começa.
E é neste novo ano e com esta "alma grande" que vamos encarar com um entusiasmo renovado e uma esperança nova, os desânimos, os males do século, as crises e as dificuldades.
Porque acreditamos que Deus, que acabou de nascer, está e continua connosco. Com Ele e a Sua Luz faremos "novas todas as coisas".
                         Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.
     
 

sábado, 5 de janeiro de 2013

História antiga

    
                       História  Antiga

                            
                Era uma vez, lá na Judeia, um rei
                Feio bicho, de resto:
                Uma cara de burro sem cabresto
                E duas grandes tranças.
                A gente olhava, reparava e via
                Que naquela figura não havia
                Olhos de quem gosta de crianças.

                                    E, na verdade, assim acontecia,
                                    Porque um dia
                                    O malvado,
                                    Só por ter o poder de quem é rei
                                    Ou não ter coração,
                                    Sem mais nem menos,
                                    Mandou matar quantos eram pequenos
                                    Nas cidades e aldeias da Nação.

        Mas,
        Por acaso ou milagre, aconteceu
        Que, num burrinho pela areia fora,
        Fugiu
        Daquelas mãos de sangue um pequenito
        Que o vivo sol da vida acarinhou;
        E bastou
        Esse palmo de sonho
        Para encher este mundo de alegria;
        Para crescer, ser Deus;
        E meter no inferno o tal das tranças,
        Só porque ele não gostava  de crianças.                   
                                                Miguel Torga

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Celebração dos Santos Inocentes

Na 6ª feira passada foi a celebração dos Santos Inocentes.
Quando eu era nova e estava no início da minha vida religiosa, este era um dia de grande euforia sobretudo para as Irmãs mais novas. Tudo era permitido, desde que não se ultrapassassem os limites.
Suprimia-se o silêncio, alteravam-se as refeições, modificavam-se as estruturas hierárquicas.
E o contraste era tanto maior quanto nessa altura a vida religiosa tinha um cunho de rigor que não lhe conhecemos hoje. Era vida de trabalho, de silêncio, de estudo, de reflexão. E o Advento tornava este ambiente ainda mais sério e rígido que habitualmente .
Logo, um dia de quebra absoluta das convenções e das normas estabelecidas era coisa que não podia passar ao lado das nossas vidas. Era uma altura de descontração total que começava à meia-noite.
As noviças invadiam a despensa que tinha ficado bem fechada mas onde sempre havia uns miminhos deixados de propósito para as nossas patuscadas. Depois, íamos para a cozinha e preparávamos a ceia tentando, no fim, não deixar tudo muito desarrumado. Lembro-me que a minha especialidade era fazer mousse de chocolate com uma tablete que sobrara do Natal. Também era a minha única habilidade culinária...
No dia seguinte, era a noviça mais nova  que fazia de Prioresa, presidia aos ofícios e dava início às refeições. Por vezes, isto era motivo para gargalhada pois a prática era nenhuma e os erros frequentes.
Tudo era diferente nesse dia e bem divertido.
À tarde, habitualmente, havia uma representação improvisada e relacionada com Natal ou a celebração que estávamos a comemorar.
No dia seguinte, tudo voltava ao normal, sem lamentações, sem pena, sem saudades.
Mais tarde, quando a vida conventual começou a ser mais aberta, com mais liberdade e menos limites, estas festas perderam o seu interesse e a sua oportunidade e acabaram definitivamente sem se saber bem porquê.
Realmente é espantoso como a vida mudou e se alteraram hábitos e costumes. Para melhor?
Acho que temos que avaliar prós e contras e não perder o que é essencial.
                                                    Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,OP

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ontem, Hoje e Amanhã

"Ontem"  foi dia de Natal. Sentiu-se alegria no ar, movimento nas ruas, dirigiam-se, a conhecidos e desconhecidos, votos de Santo Natal. As pessoas estavam animadas, aparentemente felizes.
"Hoje" parece que tudo mudou. Não sei se foi o cansaço, se foi o apagar das luzes, o terminar da música de festa, o silêncio das conversas. O facto é que as pessoas parecem tristes, já não se desejam Boas Festas, já não se cumprimentam alegremente aqueles por quem passamos. Parece que o Natal acabou!...
Mas o Natal não acabou  nem acaba, porque Jesus veio para ficar e está sempre connosco.  Esta é a realidade que nos esquecemos de viver : Jesus veio ao mundo para ficar connosco para sempre. É o Seu Amor que temos que viver e testemunhar sempre.
Natal é Jesus no meio de nós.
E "amanhã" voltamos a ser felizes. É o dia de Ano Novo, a festividade de Maria Mãe de Deus, o dia mundial da Paz.
Novamente as pessoas se saúdam com entusiasmo, se desejam um bom novo ano, se cumprimentam com alegria.
E há entrevistas na rua , pergunta-se às pessoas o que desejam para o novo ano, lê-se o texto que o Papa escreveu para este dia. E há novamente festa, e passas e champanhe à meia noite, e almoço de família... E desejamos um  Bom Ano e esperamos que ele aconteça. Mas afinal o bom ano  não depende de ninguém , nem de leis, nem de estruturas novas, nem de mais ou menos austeridade, nem de discursos ou de greves.
O ano vai ser bom se nós o desejarmos. O Bom Ano depende de nós: da nossa confiança, da nossa alegria, da nossa Fé, do nosso trabalho.
Nada nem ninguém pode fazer o que depende de nós. Comecemos o ano com entusiasmo acreditando que "tudo vale a pena" e que o Menino do presépio está presente e nos sorri.
                                             Ir. Maria Teresa sde Carvalho Ribeiro,O.P.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Um conto de Natal

Tinha acabado a Missa do Galo. Terminara já a Ceia do Natal. Os membros da família, a pouco e pouco, tinham-se retirado para as suas casas. Nós, os da "casa", arrumada minimamente a sala, recolhidos os presentes que tinham cabido a cada um, acauteladas as virtualhas para o almoço do dia seguinte, como recomendara a minha avó, íamo-nos recolhendo aos nossos quartos.
Deitei-me e dormi.
Acordei sobressaltada com uma luz intensa que parecia vir do presépio pequenino que estava em cima da mesa do canto.
Levantei-me num pulo, impressionada com aquela luz e aquele Menino que parecia saltar da mesa.
Fui à janela e sosseguei. A luz não era senão a do candeeiro da rua cuja luminosidade entrava pelas cortinas abertas.
Tudo normal... Tudo natural...
Mas o sorriso do Menino, esse ... estava lá. E estava lá também o Seu olhar, tão intenso que parecia fitar-me. E aquela voz, dentro do meu peito, igual à que um dia fora dirigida ao" jovem rico " : Queres?...
Sentei-me no chão a pensar. É Natal. Natal mais uma vez. Natal que se repete ao longo de mais de dois mil anos. Natal!... Sempre igual e sempre novo.
E o Menino que continuava a olhar-me e a perguntar : Queres?...
E eu quero, mas o quê?
Continuo a olhar o Menino do meu presépio pequenino e compreendo que o que Ele quer é que O amemos e nos amemos uns aos outros, fazendo de cada coisa pequenina, o nosso Sim como Maria.
É já manhã e eu mantenho-me a olhar esse Menino que é Deus feito Homem e que sorri, porque espera um mundo diferente, em que o amor vença o ódio e a generosidade a indiferença.
Fico olhando e acabo adormecendo. E sonho com um mundo em que "o lobo e o cordeiro habitam juntos, o menino brinca na toca da serpente e o leão e o boi comem ambos palha".
É isto o Natal: "Um Homem que olha outro Homem e o trata como irmão".
                                     Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Caminhando para o Natal...

É ante-véspera de Natal!
Ultimam-se os preparativos para a noite de àmanhã. Aqui no Ramalhão também.
E fazem-se as últimas compras. Nós não somos excepção. Também cá falta sempre alguma coisa da última hora.
Lá fora é a azáfama habitual destes dias e desta data. O próprio trânsito revela este movimento mais intenso e mesmo algo nervoso.
Podemos pensar que estão todos mais preocupados com o "acidental" do que com o "essencial" que é a vinda de Jesus e a nossa preparação interior para essa vinda.
Mas eu, que gosto de me interrogar,pergunto-me se toda essa azáfama, esse desejo de preparar uma boa refeição, de reunir a família em torna duma mesa de festa, não será também uma forma de cumprir a mensagem dos anjos: " Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade". A unidade nas famílias não será um anúncio de paz e uma atitude de glória? O esforço de montar o presépio e enfeitar a árvore, não será também uma forma de louvor, uma manifestação de Fé, ainda que disfarçada?
Às vezes fazemos uma análise demasiado simplista das atitudes e dos acontecimentos. Por detrás destas manifestações de consumismo e alegria exterior, não se esconderão desejos mais profundos de acreditar e de louvar? De esquecer amuos e perdoar ofensas? De buscar uma paz que ainda não se soube alcançar?
Tudo perguntas a que só o Menino pode responder... Ele que deitado na sua mangedoura, não condena aqueles que O não recebem mas nos estende os braços para nos acolher , a nós que O conhecemos mas nem sempre  "louvamos Deus nas alturas " nem trabalhamos para a "paz entre os Homens".
Ele que estende os braços para que O levemos a todos aqueles que O festejam, talvez sem O conhecerem, mas que no fundo O desejam.
Esqueçamos tudo o que ficou para trás e, na Alegria e na Esperança,preparemo-nos para ir até Belém, adorar o Menino que é Deus, o nosso Deus.
                                       Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.