terça-feira, 6 de novembro de 2012

Animais e pessoas

Outro dia assisti na TV a um programa que me trouxe alguma inquietação e levantou interrogações. Era sobre animais de estimação e indicavam-se os cuidados e atenções a ter com eles. Foram enumerados locais de observação e tratamento, atenção a dispensar-lhes, materiais a utilizar: Clínicas para gatos, hospitais de cães, cuidados a ter com os dentes, vigilância do estado do  pelo, visitas frequentes ao veterinário, medicamentos indispensáveis e até psicólogo do comportamento animal...
Sempre gostei de animais e sempre os tive em casa: o cão, o gato, o canário e até um coelho e uma tartaruga.
Sempre condenei que se possuíssem animais e não se tivesse com eles os cuidados e atenção que eles necessitavam.
Mas aquele programa levantou-me o problema dos cuidados que se têm ( ou não têm ) com as crianças, os doentes, os idosos. E não será de fazer comparações?
Quanta criança e jovem vai para as aulas sem ter tomado o pequeno almoço! Quem em casa deu por isso ou sabe as razões?
Quantos adolescentes saem da escola e vão para casa ao encontro da televisão ou da internet e comem e dormem sem ver os pais! Quem constata as suas dificuldades?
E não é certo que há doentes que não vão ao médico ou não compram os medicamentos por falta de meios?
E não conhecemos tantos casos de idosos que sofrem sozinhos a sua solidão?
Se compararmos os cuidados que nos incitam a ter com os animais e a falta de preocupação que vemos aumentar, cada dia, em relação a crianças, jovens, idosos e doentes, podemos perguntar-nos se é suposto que as pessoas já tenham todas as atenções e agora seja a vez dos animais...
Claro que continuo a considerar importante tratar bem aqueles animais que voluntariamente levamos para casa, mas... não teremos que olhar primeiro à nossa volta e atender às necessidades primárias dos que nos redeiam?
"Amai o vosso próximo como a vós mesmos " foi a lição de Cristo ao escriba. E quem é o nosso próximo?
                         Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Novembro, mês do apelo

Novembro é um mês um pouco inquietante: é um mês que nos interpela e ao mesmo tempo nos traz mensagens e faz apelo à nossa inteligência e ao nosso querer.
Inicia-se com duas celebrações que ambas nos interpelam porque foram e são apelos, quer no mundo dos homens em geral, quer entre os cristãos, em particular: no dia 1, a Festa de Todos os Santos, todos aqueles a quem Deus disse Vem!... e corresponderam plenamente ao Seu apelo; no dia 2, a celebração dos Fiéis Defuntos, aqueles a quem o Senhor chamou desta vida para que, com Ele, estivessem no Reino dos Céus.
Em ambos os casos o mesmo apelo à santidade pois só os santos entram no Reino dos Céus. Aliás à santidade todos somos chamados pois foi para todos nós a palavra de Jesus: "Sede Santos como o vosso Pai é Santo".
Santo, expressão hebraica que significa "separado", representa para os cristãos muito mais do que isso, porque cristão é aquele que pertence à família de Deus que é Santo por excelência.
A correspondência  ao pedido de Jesus, dirigido a todos os homens, pressupõe um trabalho diário e continuado de opções entre os nossos gostos e desejos e a vontade do Pai.
Mas, não é preciso ser "extraordinário"  para ser santo. Não é necessário sofrer o martírio, fazer sacrifícios exagerados, jejuar até à exaustão ou abdicar de todos os nossos gostos e alegrias. Não!... É antes, muito simplesmente, viver alegremente segundo o Evangelho, praticando a justiça e testemunhando a verdade. Aliás, é Santa Teresa que diz : " Para ser santo  basta amar muito!"
No dia 1 festejámos todos aqueles que, como tu e eu, viveram uma vida simples, desprovida de registos mediáticos, contornos de espavento ou notícias extraordinárias.
Celebramos aqueles que, como tu e eu, procuraram "passar discretamente pelo mundo fazendo o Bem" e dando testemunho do amor do Pai.
Juntemo-nos a eles, aqui e agora, levando a Fé onde há dúvidas, a Esperança onde há desespero e o Amor onde impera o ódio.
 
                                 Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro. O.P.
 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A vida na Terra

Ao abrir um album de recordações antigas, deparei-me com um texto escrito, em 2005, por três alunos do 7º ano: Andreia Costa, Teresa Dias Agudo e Pedro Miranda. Resolvi transcrevê-lo porque achei engraçada a maneira como eles apresentavam as questões e, ao mesmo tempo, constatei a verdade do que diziam.
"Existência de vida na Terra 
Já pensaste porque é que podes viver neste planeta? Queres que te diga? Então, cá vai...
Parece impossível, mas 70% do nosso planeta é água. A água é muito importante porque sem ela não conseguíamos viver; ela constitui também 70% da massa do organismo. Também sem água, as plantas não conseguiriam fazer a fotossíntese e nós não teríamos oxigénio para respirar.
Sabes o que é a fotossíntese?
É o fenómeno pelo qual as plantas absorvem o dióxido de carbono (pelas folhas) e juntamente com a água e os sais minerais ( absorvidos pelas raízes) libertam oxigénio.
Mas não é só isto que faz com que possamos viver na Terra. Também temos a luz que age sobre os seres vivos de três formas:
     . Influenciando os seus períodos de actividade;
     . Influenciando o seu comportamento;
     . Influenciando a sua distribuição geográfica.
E a temperatura, que é muito importante porque actua também sobre os seres vivos, especialmente, no caso dos animais, sobre o comportamento.
Sabes que a atmosfera é a camada de gases que protegem a Terra, ajuda-te a manter quente à noite  e, de dia, protege-te do calor demasiado, da luz solar intensa e das perigosas radiações ultravioleta?
O dióxido de carbono desta camada é importante porque sem ele não havia fotossíntese e nós não tínhamos oxigénio. E  sem ele, não podíamos respirar.
Por isso, é que se pensa que só existe vida neste planeta, porque é o único em que , parece! existem condições para a existência de vida mas... não te fies, olha que podem existir ET`s!...
P.S. Não te esqueças de poupar àgua; ela é essencial à vida."

Eram três jovens que tentaram transmitir o que tinham aprendido.Ao mesmo tempo, remetem o nosso pensamento e os nossos conhecimentos para realidades mais profundas e transcendentes: o degelo a ocorrer nos polos, o buraco do ozono, a poluição atmosférica, terrestre e marinha, etc..
Eles falam da importância da água, recomendam mesmo que não se desperdice; chamam a atenção para a função da temperatura e o papel da atmosfera.
Não entraram nos grandes problemas mundiais e suas causas porque eram demasiado novos para tratar deles e os explicar. Mas nós, adultos, estamos conscientes de como a acção do Homem pode modificar a Natureza, destruir ecossistemas, alterar condições atmosféricas... E, como tudo isso afecta, mais cedo ou mais tarde, a vida no nosso planeta.
Os cientistas estão muito ocupados em procurar vestígios de Vida em outros planetas... É missão da Ciência: saber mais e melhor.
Certamente também estão preocupados com o que se passa na Terra...
E nós?
Quando há furacões, sismos, inundações, não culpemos Deus. Ele simplesmente deu ao Homem a liberdade de escolher o que é Bem ou o que é Mal.
Peçamos-Lhe, sim, que nos ilumine e nos ajude a escolher o que é melhor.
                                 Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.
  
 
 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Ser cego e ver

O Evangelho de ontem contava a cura daquele cego a quem a Fé permitira a Jesus que lhe restituísse a visão. O sacerdote, na homilia, ligou esta cegueira com outros tipos de cegueira que se encontram nos homens e falou em Gandhi e Luther King porque ambos, lutando pela liberdade e igualdade para todos, nos seus países, duma forma não violenta, diziam dos seus compatriotas: "eles são bons mas estão cegos".
Estas cegueiras também nos afectam a nós, muitas vezes: quando não queremos ler nos acontecimentos a vontade de Deus; quando não queremos aceitar a opinião que choca com a nossa; quando evitamos ouvir a palavra amiga que nos chama à razão, porque estamos errados; quando insistimos na ignorância dos factos... mesmo quando não queremos apreciar a beleza da Natureza que nos traria a calma e a tranquilidade de espírito. Não é verdade que muitas vezes sofremos de "cegueira" e não nos queremos tratar? Aliás, "não há pior cego do que aquele que não quer ver..."
E o pior ainda, é que queremos guiar outros "cegos" como nós. E um cego a guiar outro cego não pode ser ben sucedido na sua caminhada. E, menos ainda quando essa caminhada é um percurso de Fé.
O cego do Evangelho foi curado não porque era especial, porque o conheciam, porque teve alguma "cunha" ou alguem influente intercedendo por ele. Muito ao contrário! A multidão que rodeava Jesus pretendia afastá-lo porque era incómodo, porque gritava algo que eles não entendiam mas em que ele acreditava : "Jesus Filho de David..."
O cego foi curado porque, antes de tudo, tinha acreditado: "A tua Fé te salvou", disse-lhe Jesus.
Ele era cego mas "via", para além do imediato, do tangível. Ele acolhia o transcendente, aquilo em que só podemos acreditar pelo coração, com a Fé.
Não queiramos continuar "cegos" . Procuremos alimentar a nossa Fé nos pequenos como nos grandes acontecimentos, acreditando que Deus está lá e é na Fé que nos pode curar.
                                        Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.
 

sábado, 27 de outubro de 2012

A paciência... na agricultura e na vida


No Evangelho de hoje contava-se a parábola da videira que não dava frutos há três anos e que o dono das terras queria cortar para não estar a ocupar espaço.
Até parecemos nós a resolver, rapidamente, o que nos incomoda...
Simplesmente, na parábola, há um agricultor paciente que acreditava ainda nas possibilidades da videira e pede mais um ano ao dono do campo. 
Este agricultor é, para nós, o símbolo da paciência, da esperança, da compreensão, relativamente àqueles que não querem ouvir e pôr a render os seus dons. Não produzem fruto.
Mas o agricultor, o Pai, cheio de paciência, de carinho, de amor, não desanima, não abandona, não entrega cada um à sua sorte. Continua cuidando daqueles que são os Seus filhos e com quem Ele quer contar.
A videira que não dá frutos não seremos nós, que tantas vezes não nos esforçamos para sermos melhores, para darmos frutos de santidade? Dessa santidade que nos é pedida por Jesus "sede santos..." e é o nosso objectivo de vida...
Mas o agricultor também muitas vezes somos nós, quando temos ao nosso lado jovens e adultos que precisam do nosso incentivo, do nosso apoio, do nosso testemunho, para darem fruto. E aí é que tem que estar a nossa paciência, a nossa perseverança, o nosso amor e pô-los ao serviço deles.
Não será que muitas vezes fazemos antes o papel do dono do campo? Se não destruímos amigos e conhecidos, abandonamo-los, porque não temos calma nem paciência para esperar.
Não temos calma nem paciência para aguardar que a nossa palavra e o nosso testemunho cheguem ao coração dos que precisam de nós.
Não temos calma nem paciência para acreditar que vale a pena, que o fruto pode tardar, mas chega.
E, da mesma maneira, é preciso termos paciência connosco, para os nossos pequenos e grandes defeitos, que temos que corrigir, para tudo aquilo que nos impede de crescer na graça.
Tenhamos paciência e a certeza que vamos ser capazes de desenvolver as nossas qualidades , as nossas aptidões, que são DOM e vão frutificar.
                               Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Chuva na quinta!

Está a chover. Olhei pela janela da "floresta" para o arvoredo até à "presa".
A chuva parece lavar meigamente as folhas das árvores e, de onde em onde, deixa uma poça no chão, lembrando a irregularidade do terreno.
Bate levemente nos vidros das janelas como a chamar a atenção para a sua presença nas nossas vidas.
As "presas" vão-se enchendo lentamente.
Na rua, não passa ninguém. Apenas os automóveis, mais devagar que habitualmente, porque o piso está escorregadio.
Os agricultores devem estar contentes com esta promessa dos poços, represas e nascentes voltarem a ter água e poderem alimentar campos e gentes. Talvez também as nossas nascentes voltem a ter água em abundância. É uma esperança...
Mas as flores, essas, dobram tristemente as suas corolas vergando ao peso dos pingos de chuva.
Nem tudo pode agradar a todos !
A mim, neste momento, esta chuva, de pingos mais ou menos grossos, lembra-me lágrimas: de tristeza, de fome, de dor... Faz-me pensar nos que não têm Fé, não têm Paz, não conhecem a Alegria.
A chuva, deprimente, vai continuando a cair, impedindo que gozemos a tranquilidade da quinta, que os jovens se distraiam jogando à bola, brincando à "apanhada", andando de baloiço.
Lembro-me dos meus tempos de adolescente em que, em dias de chuva, atravessava o Jardim da Estrela, metendo os pés nas poças e pisando as folhas secas. Mas , nessa altura, a chuva ainda não representava para mim a alegria das barragens cheias nem a tristeza dos que não têm lar. Não interiorizava os benefícios ou os prejuízos que a chuva pode acarretar.
A chuva é uma necessidade; marca uma época do ano; devemos agradecê-la a Deus. Mas, ao mesmo tempo, lembrar aqueles a quem ela prejudica, que não têm abrigo, que trabalham, mesmo debaixo de chuva.
E isto, para não falar em inundações, nos maremotos ou nos leitos dos rios a transbordar.
Tudo compreensível! Tudo necessário! Tudo fazendo parte do plano de Deus e da acção do Homem. Tudo só aceitável se temos Fé e acreditamos que "nada acontece por acaso"  e que "Deus não nos pede nada acima das nossas forças".
A chuva continua a cair, agora com mais intensidade. E eu continuo olhando e pensando em mil coisas, alegres e tristes, e agradecendo ao Pai esta chuva que estava a fazer falta.
                                                                  Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Em torno da Santidade

Sempre gostei daquilo que li de Paul Claudel. Pareciam-me palavras de grande transcendência mas, simultaneamente, de imensa simplicidade.
Li algumas coisas quando era muito nova e talvez não tivesse entendido até ao fim a mensagem que elas procuravam transmitir. Mas isso, não me impedia de gostar e de aproveitar.
Trago sempre por perto aquele poema a Nossa Senhora, que procuro interiorizar: "Não tenho nada a pedir, nada para dar...".
O que só recentemente soube foi que ele se converteu aos 18 anos, num Dia de Natal e levou quatro anos lutando entre o apelo de Deus e as suas convicções passadas. Talvez daí a interioridade e ao mesmo tempo a complexidade dos seus textos.
Um dia destes li um excerto duma carta dele para Louis Massignon em que diz: " Eu bem sei que é pela santidade que servimos Deus mais do que por qualquer talento ou pela ciência humana..."
E aqui, fiquei a pensar se concordava com esta afirmação, assim sem mais. É que não sei bem se ser santo é um "serviço" prestado a Deus. A santidade é o nosso objectivo último, a correspondência ao pedido de Jesus: "sede Santos como o vosso Pai é Santo!"
E como se consegue atingir este objectivo?
Pela oração, dizem os místicos, os crentes... Mas, não só, acho eu. Santa Teresa até dizia que para ser santo era preciso apenas Amar muito... E nesse Amor, está contida a adesão da nossa vontade à vontade do Pai, o testemunho da nossa Fé, a vivência quotidiana da correspondência ao apelo de Deus. E isto, como se realiza?
Talvez aqui venha a propósito a continuação da carta de Paul Claudel "... cada um faz o que pode e usa o que tem". Então, ponhamos a render os nossos talentos, utilizemos os nossos conhecimentos, empenhemo-nos no nosso trabalho, digamos  a palavra certa no momento oportuno, olhemos com carinho o Amigo que precisa de nós, testemunhemos a alegria de viver, procuremos a adesão ao lado bom das coisas, vejamos em tudo e em qualquer circunstância, o olhar amoroso do Pai.
E tudo isto é o que "nós temos" ( ou devíamos ter ) e é com os sucessos e fracassos que temos que atingir a meta a que somos chamados. A santidade não a encontramos e "vestimos" já pronta. Construímo-la, passo a passo, e é nesse  esforço  do dia-a-dia que temos que nos empenhar com entusiasmo e alegria.
                                                          Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.