segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Honrar pai e mãe...

Todos os dias a TV e os jornais nos inundam com notícias mais ou menos impressionantes. Ora é a "crise" e suas consequências dramáticas, ora são os fogos e os milhares de quilómetros ardidos, ora são os assaltos e agressões.
Mas hoje li uma notícia, de há já algumas semanas, que me deixou angustiada: filho que agride pai idoso. Não é a primeira vez que são divulgadas notícias destas, mas sempre fico chocada e a perguntar-me quem são estes filhos que agridem os seus pais? Quem são estes homens e mulheres que atacam, mesmo que seja verbalmente, aqueles que lhes deram o ser e merecem o seu respeito, se não o seu amor?
Estão completamente esquecidos dum mandamento que já vem do Antigo Testamento: "Honrarás teu pai e tua mãe..." 
Será que estes pais têm a sua quota parte de culpa na atitude dos filhos? Talvez não lhes tenham dado a atenção que eles precisavam; talvez não lhes mostrassem o amor que eles necessitavam; talvez não lhes manifestassem o afecto que sentiam por eles, porque lhes custava exteriorizar os seus sentimentos. Talvez!
Ou quem sabe? na ânsia de os compensarem, de satisfazerem os seus caprichos, por maiores que fossem, deram-lhes coisas demais, presentearam-nos demasiado, tiveram em atenção as suas exigências e não souberam dizer "Não".
Não lhes ensinaram a partilhar, não lhes mostraram a alegria de dar, não lhes fizeram saber que na vida há dificuldades e contrariedades.
Assim, cresceram crianças, adolescentes, e jovens egoistas, insensíveis, egocêntricos.
Não amam os pais, não os respeitam, não dividem com eles os seus interesses e as suas aspirações. Ficam de tal maneira fechados em si mesmos que se tornam agressivos , violentos, insatisfeitos consigo e com a vida.
Mesmo sem falar em mandamentos, onde está a solidariedade e o carinho que nos devem merecer as pessoas idosas?
Elas são muitas vezes um testemunho de vida, a herança que nos fica de valores, de saberes, de atitude de humanidade.
 
Deus diz-nos para respeitarmos os nossos pais mas nem devia ser preciso. Ele dá-nos o Seu exemplo, o Seu testemunho de Amor.
                                              Ir. M. teresa de Carvalho Ribeiro,o.p.
 

domingo, 9 de setembro de 2012

Interioridade-ativismo

O estar desocupado é algo que influencia negativamente a nossa satisfação pessoal, a disposição com que acolhemos os outros, o modo como olhamos a Vida e as coisas.
Deixar correr as horas e os dias, sem lhes dar uma ocupação útil causa em nós angústias, neurastenias, desinteresses.
É que não se trata de fazer uma pausa, de criar um momento de descanso, de reflexão, indispensáveis depois duma tarefa árdua. Não! É simplesmente gastar o tempo, deixar que os dias passem, uns após outros.
Talvez para não chegarmos a esta situação ou por deformação própria, muitas vezes ocupamo-nos demasiado, num frenesim de actividades, de trabalhos, de ocupações, muitas sem razão e que causam stress e são incontroláveis.
Passamos a não ter tempo para nada, não conseguimos perfeição no que fazemos e não nos satisfaz aquilo com que preenchemos os dias.
Não há tempo para os Amigos, não arranjamos espaço para reflectir e nem Deus consegue um lugarzinho para nos falar...
Não nos lembramos que há mais Vida para além do trabalho e que existe mesmo uma parte muito importante da nossa vida a que temos que dar atenção, que contempla o trabalho mas que está acima dele. E essa porção da Vida que nos escapa somos nós mesmos, a nossa relação com o Pai, as nossas motivações para o trabalho, os valores porque lutamos e que colocamos nas nossas relações com os outros.
Temos sempre uma boa desculpa para não deixar o trabalho, não interromper as actividades: É preciso!... Tem que ser!...
Mas ainda é mais necessário parar para reflectir, para nos pormos diante de Deus e percebermos se trabalhamos por Ele  ou simplesmente para termos uma razão para O não ouvir.
É preciso parar, fazer silêncio e ouvir o nosso coração, analisar as nossas verdades e compará-las com a Verdade que é Deus.
É necessário sermos capazes de enfrentar os nossos "medos" do silêncio e da solidão porque neles está Aquele que nos procura e nos quer dar a resposta às nossas inquietações e às nossas dúvidas.
                                        Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, o.P. 
 
 

sábado, 8 de setembro de 2012

Natividade de Maria

Não tenho nada a pedir nada para dar.
Venho somente Mãe para te olhar.

Olhar-te, chorar de alegria, sabendo apenas isto:
Que eu sou teu filho e tu estás aqui, Mãe de Jesus Cristo!

Ao menos por um momento enquanto tudo pára
Estar contigo neste lugar em que estás, ó Maria.

Nada dizer, olhar-te simplesmente o rosto
E deixar o coração cantar a seu gosto.

Porque tu és bela, porque tu és imaculada
A mulher na graça reintegrada.

A criatura na sua honra primeira e na plenitude final,
Tal como saiu das mãos de Deus, no seu esplendor inicial.

Porque estás sempre aí, porque existes, simplesmente por isto,
Eu te agradeço, Mãe de Jesus Cristo.
                                                       Paul Claudel

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Acção e oração

Vi no blog dum amigo meu algo sobre a necessidade de fazer uma oração antes de empreender qualquer tarefa por ínfima que fosse. Era um excerto de Alexandre Eltchaminoff  em que ele dizia que, com a oração, pedíamos que a virtude divina descesse sobre a nossa acção e assim, ela não podia nunca ser má.
Que descanso, para os nossos corações, quando as nossas acções não nos nos satisfazem plenamente!
Precisamos é de começar pela oração...
Lembro-me de que, quando era criança, me ensinaram que o primeiro pensamento do dia devia ser para o Pai do Céu para que tudo corresse bem. E este "correr bem" compreendi-o depois, era nem mais nem menos do que cumprir a vontade de Deus. 
Com o tempo, o conhecimento e a experiência, fui-me habituando a entregar ao Pai cada um dos meus trabalhos, ao mesmo tempo que Lhe agradecia cada alegria que me era proporcionada e Lhe pedia perdão por cada desvio do cumprimento do dever.
Claro que quando digo que me fui habituando, estou a ser demasiado optimista, porque entre o projecto e a realidade há sempre um abismo a separá-los.
Mas o importante não é querer? não é ter a intenção de fazer, com entusiasmo e persistência? Calem-se os "velhos do Restelo" que não acreditam em boas intenções. Elas existem e realizam-se quando alicerçadas na Fé e têm por base a vontade.
Como educadora, como transmissora dos valores da Fé, eu gostava de ajudar os outros a entenderem o valor da Oração.
Mas o que é rezar?
Dizer orações consagradas, como o Rosário, frases feitas que nos ensinaram em pequenos, textos dos quais as palavras nem sempre traduzem os nossos sentimentos... Certamente! Mas rezar é muito mais do que isso. É estabelecer um diálogo silencioso com o Pai; é fazer silêncio e ouvir o que Ele tem para nos dizer; é contar-lhe as angústias e alegrias do nosso coração.
É ficar a olhar o sacrário e perguntar-nos porque razão o Amor levaria Deus a ficar ali presente para nos acolher, consolar, pedir...
Desejaria que todos os que se cruzam comigo compreendessem como é importante, antes de começar qualquer tarefa, ter um pensamento para Deus, com a certeza de que Ele estará presente e tornará dom a nossa simples acção.
Neste momento, em que só se fala de tristeza, falta de confiança, crise, é altura de elevar o coração ao Céu  e com um sorriso nos lábios e a confiança da criança, enfrentar o dia que começa.
                              Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

" Quem tem ouvidos para ouvir..."




As duas senhoras estavam sentadas ao meu lado a conversar sem qualquer preocupação que as ouvissem.
Conversaram de coisas muito variadas, como é natural, mas acabaram por centrar a conversa na família e preocupações de momento.
Mesmo que quisesse, não podia deixar de ouvir os seus lamentos e troca de impressões àcerca das sobrinhas, tão bem educadas pelos pais e tão desatentas aos seus conselhos.
Às tantas, a mais nova, levantou-se num ímpeto e disse: "Olha, sabes que mais? Quem tem ouvidos que oiça!"... e saiu sem mais comentários.
A outra ficou, bebendo o seu chá e eu fiquei também, com o meu livro aberto mas sem ler.
Aquela frase não era original. Já a ouvira e lera muitas vezes no Evangelho...Mas achei graça ao ouvi-la ali tão fora de contexto e tão a despropósito. Ou talvez não!...
Realmente não há maior surdo do que aquele que não quer ouvir. Surdo, quando não se aceita um conselho que nos dá um amigo, quando se ignora a advertência de alguem que nos quer bem, quando não ligamos a um pedido que nos é feito, quando não atendemos à experiência dos que viveram mais do que nós.
Porque seria que aquelas jovens não ouviam os conselhos que as tias consideravam tão oportunos e necessários?
Culpa das jovens, "surdas" aos conselhos e opiniões ou culpa das tias que não estavam atentas às inquietações actuais daquelas jovens bem como às suas necessidades e linguagem? 
No Evangelho, Jesus está a referir-se àqueles que não querem entender a mensagem que lhes dirige, mas esses somos nós. Tantas vezes temos o coração fechado, a mente incapaz de traduzir em sentimentos as palavras que ouvimos, os textos que lemos.
A mensagem de vida nova que Jesus nos dirige, não é directa, talvez!
É preciso então estar disponível, estar atento, para ver além do imediato, entender o sentido que se esconde por detrás de palavras que parecem simples e directas.
É que a mensagem de Jesus é-nos dirigida ao coração e não à mente; é orientada para o nosso ser  e não para o nosso fazer. É preciso olhar para além do que vemos e entender o que o Pai nos segreda, se estivermos vazios de intenções e apenas atentos à inspiração de momento.
Será que aquelas tias tinham o modo certo e a palavra adequada para abrir o coração das sobrinhas de maneira a que elas descobrissem a Verdade que as palavras encobriam?
                                            Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.
 
 
 
 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A vida e a morte e sua realidade

Foi notícia há umas duas semanas: mãe deita fogo ao quarto e mata--se e aos dois filhos.
Impressionante!
Claro que não é um caso inédito. Há gente que se mata, não se sabe porquê, e das mais diferentes maneiras. Há seitas pseudo-religiosas que se imolam pelo fogo. Há terroristas que se fazem explodir na defesa de uma causa...
Mas matar ou matar-se é sempre algo que levanta questões. Porquê?
Até porque temos que começar por nos interrogar. O que é  a Vida?
Para nós, cristãos, homens de Fé, a Vida é um dom de Deus. Mas mesmo para os que não têm Fé, a Vida é algo que, pelo menos, não conseguem produzir e que merece ser questionada e investigada.
Consegue-se fazer inseminação artificial, cultivar tecidos em laboratório, manter células estaminais do cordão umbilical... Todos o sabemos. Mas produzir Vida em laboratório, muitos o tentaram mas, até hoje, não o conseguiram.
Então, como surgiu a vida?
Segundo a hipótese evolucionista, hoje aceite,  a Vida surgiu há milhões de anos, uma única vez, numa "sopa quente primitiva" como lhe chamou Haldane. Esta "sopa" tinha-se formado numa atmosfera altamente redutora que conduzira à formação de monómeros por acção das radiações solares, das trovoadas e da radioactividade. Era então, um ambiente muito rico nessas moléculas orgânicas.
A partir daqui, segundo Oparin, estas moléculas agruparam-se, reagiram entre si e formaram moléculas maiores . Estas, separaram-se do meio envolvente pela criação duma espécie de membrana, aprenderam a assimilar material , a reproduzir-se e a regular-se. E surgiu a primeira célula.
Os crentes acreditam que, no processo de passagem de macromoléculas a células interveio Deus; os não crentes defendem que foi a energia produzida nas reacções que deu a capacidade de auto-formação da célula.
Com um ou outro conceito, a partir da primeira célula formaram-se outras, evoluíram, deram organismos unicelulares e depois os indivíduos pluricelulares.
Estes foram estudados, classificados, clonados. Mas Vida, ainda não foi possível obter.
E quer tenhamos Fé quer não, temos que ver a Vida como um dom. Como a podemos destruir? Como podemos destruir, com as nossas mãos, aquilo que não podemos construir?
Não devemos julgar nada nem ninguém mas podemos continuar a interrogar-nos sobre as causas destas atitudes. Desespero? Loucura? Fé em valores que não os nossos?
Acho que temos que aprender muitas lições de vida e continuar a agradecer a Deus o dom da Vida e a preservá-la tanto quanto pudermos.
                                             Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, o.P.
 
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

As certezas das crianças

Há dias assim, em que se levantam dúvidas e se poêm interrogações.
Estava muito calor e nem pensar  me apetecia.
Eu, sentada ao fundo da igreja, tentava dizer a Jesus que O olhava e procurava fazer silêncio para O ouvir...
De repente, um garoto de 5, 6 anos, chegou ao pé de mim e pediu-me: Reza pelo meu tio Zé e pela tia Mia que se estão a separar e eu não quero porque gosto muito deles.
Fiquei um pouco atordoada, sem palavras, o que em mim não é muito habitual, mas sempre arranjei maneira de lhe responder : Rezo, sim, mas pede tu também porque Jesus gosta da oração dos meninos!...
Não tive tempo para mais nada, porque conforme chegara tambem desapareceu pela porta da igreja.
Mas eu fiquei impressionada e até me esqueci de que estava calor e não me apetecia pensar.
O que tinha visto aquela criança em mim para me fazer aquele pedido e daquela maneira tão elequente? Eu estava simplesmente sentada ao fundo da igreja, calada, tentando ouvir... Mas rezei! Rezei, lembrando-me do que Jesus prometera: "Pedi e recebereis... O pior é que Ele se " esqueceu " de nos dizer quando e como satisfaria o nosso pedido... E tantas vezes parece que não nos ouve!... É que é preciso acreditar, ter a certeza que Deus é Pai e quer o melhor para nós. E nem sempre pedimos o que é melhor...
Não seria o que Jeremias queria dizer quando punha na boca de Deus a pergunta: "como poderei chamar-te Meu filho?"
Filho é o que procura fazer a vontade do Pai, escutar a Sua voz, segui-Lo.
É a nossa manifestação de Fé e de Esperança, dizer com confiança " Senhor aqui estou. Quero fazer a TuaVontade, faz que a minha seja a Tua Vontade.
Pedir pelos tios daquela criança era rogar a Deus que fizesse que a vontade do manino fosse a Sua vontade de Pai.
Aquela criança sabia que rezar era importante para conseguir o que ele tanto desejava e pensou que eu tinha mais "poder" para fazer da vontade dele a vontade de Deus.
Impressionou-me esta confiança mas ao mesmo tempo também fiquei a pensar na necessidade de testemunho que se nos impõe.
Que viu aquela criança, numa freira silenciosa ao fundo duma igreja?
Que podem ver todos aqueles que se cruzam comigo cada dia que passa?
Que testemunho de Fé e de Amor damos aos que lidam connosco?
Como lhes transmitimos que Deus conta connosco  e estamos simplesmente a fazer a Sua vontade?
 
E o dia continuou mas eu já não tinha calor e havia muitas coisas em que pensar...
                                                      Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.