sábado, 8 de setembro de 2012

Natividade de Maria

Não tenho nada a pedir nada para dar.
Venho somente Mãe para te olhar.

Olhar-te, chorar de alegria, sabendo apenas isto:
Que eu sou teu filho e tu estás aqui, Mãe de Jesus Cristo!

Ao menos por um momento enquanto tudo pára
Estar contigo neste lugar em que estás, ó Maria.

Nada dizer, olhar-te simplesmente o rosto
E deixar o coração cantar a seu gosto.

Porque tu és bela, porque tu és imaculada
A mulher na graça reintegrada.

A criatura na sua honra primeira e na plenitude final,
Tal como saiu das mãos de Deus, no seu esplendor inicial.

Porque estás sempre aí, porque existes, simplesmente por isto,
Eu te agradeço, Mãe de Jesus Cristo.
                                                       Paul Claudel

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Acção e oração

Vi no blog dum amigo meu algo sobre a necessidade de fazer uma oração antes de empreender qualquer tarefa por ínfima que fosse. Era um excerto de Alexandre Eltchaminoff  em que ele dizia que, com a oração, pedíamos que a virtude divina descesse sobre a nossa acção e assim, ela não podia nunca ser má.
Que descanso, para os nossos corações, quando as nossas acções não nos nos satisfazem plenamente!
Precisamos é de começar pela oração...
Lembro-me de que, quando era criança, me ensinaram que o primeiro pensamento do dia devia ser para o Pai do Céu para que tudo corresse bem. E este "correr bem" compreendi-o depois, era nem mais nem menos do que cumprir a vontade de Deus. 
Com o tempo, o conhecimento e a experiência, fui-me habituando a entregar ao Pai cada um dos meus trabalhos, ao mesmo tempo que Lhe agradecia cada alegria que me era proporcionada e Lhe pedia perdão por cada desvio do cumprimento do dever.
Claro que quando digo que me fui habituando, estou a ser demasiado optimista, porque entre o projecto e a realidade há sempre um abismo a separá-los.
Mas o importante não é querer? não é ter a intenção de fazer, com entusiasmo e persistência? Calem-se os "velhos do Restelo" que não acreditam em boas intenções. Elas existem e realizam-se quando alicerçadas na Fé e têm por base a vontade.
Como educadora, como transmissora dos valores da Fé, eu gostava de ajudar os outros a entenderem o valor da Oração.
Mas o que é rezar?
Dizer orações consagradas, como o Rosário, frases feitas que nos ensinaram em pequenos, textos dos quais as palavras nem sempre traduzem os nossos sentimentos... Certamente! Mas rezar é muito mais do que isso. É estabelecer um diálogo silencioso com o Pai; é fazer silêncio e ouvir o que Ele tem para nos dizer; é contar-lhe as angústias e alegrias do nosso coração.
É ficar a olhar o sacrário e perguntar-nos porque razão o Amor levaria Deus a ficar ali presente para nos acolher, consolar, pedir...
Desejaria que todos os que se cruzam comigo compreendessem como é importante, antes de começar qualquer tarefa, ter um pensamento para Deus, com a certeza de que Ele estará presente e tornará dom a nossa simples acção.
Neste momento, em que só se fala de tristeza, falta de confiança, crise, é altura de elevar o coração ao Céu  e com um sorriso nos lábios e a confiança da criança, enfrentar o dia que começa.
                              Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

" Quem tem ouvidos para ouvir..."




As duas senhoras estavam sentadas ao meu lado a conversar sem qualquer preocupação que as ouvissem.
Conversaram de coisas muito variadas, como é natural, mas acabaram por centrar a conversa na família e preocupações de momento.
Mesmo que quisesse, não podia deixar de ouvir os seus lamentos e troca de impressões àcerca das sobrinhas, tão bem educadas pelos pais e tão desatentas aos seus conselhos.
Às tantas, a mais nova, levantou-se num ímpeto e disse: "Olha, sabes que mais? Quem tem ouvidos que oiça!"... e saiu sem mais comentários.
A outra ficou, bebendo o seu chá e eu fiquei também, com o meu livro aberto mas sem ler.
Aquela frase não era original. Já a ouvira e lera muitas vezes no Evangelho...Mas achei graça ao ouvi-la ali tão fora de contexto e tão a despropósito. Ou talvez não!...
Realmente não há maior surdo do que aquele que não quer ouvir. Surdo, quando não se aceita um conselho que nos dá um amigo, quando se ignora a advertência de alguem que nos quer bem, quando não ligamos a um pedido que nos é feito, quando não atendemos à experiência dos que viveram mais do que nós.
Porque seria que aquelas jovens não ouviam os conselhos que as tias consideravam tão oportunos e necessários?
Culpa das jovens, "surdas" aos conselhos e opiniões ou culpa das tias que não estavam atentas às inquietações actuais daquelas jovens bem como às suas necessidades e linguagem? 
No Evangelho, Jesus está a referir-se àqueles que não querem entender a mensagem que lhes dirige, mas esses somos nós. Tantas vezes temos o coração fechado, a mente incapaz de traduzir em sentimentos as palavras que ouvimos, os textos que lemos.
A mensagem de vida nova que Jesus nos dirige, não é directa, talvez!
É preciso então estar disponível, estar atento, para ver além do imediato, entender o sentido que se esconde por detrás de palavras que parecem simples e directas.
É que a mensagem de Jesus é-nos dirigida ao coração e não à mente; é orientada para o nosso ser  e não para o nosso fazer. É preciso olhar para além do que vemos e entender o que o Pai nos segreda, se estivermos vazios de intenções e apenas atentos à inspiração de momento.
Será que aquelas tias tinham o modo certo e a palavra adequada para abrir o coração das sobrinhas de maneira a que elas descobrissem a Verdade que as palavras encobriam?
                                            Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro,O.P.
 
 
 
 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A vida e a morte e sua realidade

Foi notícia há umas duas semanas: mãe deita fogo ao quarto e mata--se e aos dois filhos.
Impressionante!
Claro que não é um caso inédito. Há gente que se mata, não se sabe porquê, e das mais diferentes maneiras. Há seitas pseudo-religiosas que se imolam pelo fogo. Há terroristas que se fazem explodir na defesa de uma causa...
Mas matar ou matar-se é sempre algo que levanta questões. Porquê?
Até porque temos que começar por nos interrogar. O que é  a Vida?
Para nós, cristãos, homens de Fé, a Vida é um dom de Deus. Mas mesmo para os que não têm Fé, a Vida é algo que, pelo menos, não conseguem produzir e que merece ser questionada e investigada.
Consegue-se fazer inseminação artificial, cultivar tecidos em laboratório, manter células estaminais do cordão umbilical... Todos o sabemos. Mas produzir Vida em laboratório, muitos o tentaram mas, até hoje, não o conseguiram.
Então, como surgiu a vida?
Segundo a hipótese evolucionista, hoje aceite,  a Vida surgiu há milhões de anos, uma única vez, numa "sopa quente primitiva" como lhe chamou Haldane. Esta "sopa" tinha-se formado numa atmosfera altamente redutora que conduzira à formação de monómeros por acção das radiações solares, das trovoadas e da radioactividade. Era então, um ambiente muito rico nessas moléculas orgânicas.
A partir daqui, segundo Oparin, estas moléculas agruparam-se, reagiram entre si e formaram moléculas maiores . Estas, separaram-se do meio envolvente pela criação duma espécie de membrana, aprenderam a assimilar material , a reproduzir-se e a regular-se. E surgiu a primeira célula.
Os crentes acreditam que, no processo de passagem de macromoléculas a células interveio Deus; os não crentes defendem que foi a energia produzida nas reacções que deu a capacidade de auto-formação da célula.
Com um ou outro conceito, a partir da primeira célula formaram-se outras, evoluíram, deram organismos unicelulares e depois os indivíduos pluricelulares.
Estes foram estudados, classificados, clonados. Mas Vida, ainda não foi possível obter.
E quer tenhamos Fé quer não, temos que ver a Vida como um dom. Como a podemos destruir? Como podemos destruir, com as nossas mãos, aquilo que não podemos construir?
Não devemos julgar nada nem ninguém mas podemos continuar a interrogar-nos sobre as causas destas atitudes. Desespero? Loucura? Fé em valores que não os nossos?
Acho que temos que aprender muitas lições de vida e continuar a agradecer a Deus o dom da Vida e a preservá-la tanto quanto pudermos.
                                             Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, o.P.
 
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

As certezas das crianças

Há dias assim, em que se levantam dúvidas e se poêm interrogações.
Estava muito calor e nem pensar  me apetecia.
Eu, sentada ao fundo da igreja, tentava dizer a Jesus que O olhava e procurava fazer silêncio para O ouvir...
De repente, um garoto de 5, 6 anos, chegou ao pé de mim e pediu-me: Reza pelo meu tio Zé e pela tia Mia que se estão a separar e eu não quero porque gosto muito deles.
Fiquei um pouco atordoada, sem palavras, o que em mim não é muito habitual, mas sempre arranjei maneira de lhe responder : Rezo, sim, mas pede tu também porque Jesus gosta da oração dos meninos!...
Não tive tempo para mais nada, porque conforme chegara tambem desapareceu pela porta da igreja.
Mas eu fiquei impressionada e até me esqueci de que estava calor e não me apetecia pensar.
O que tinha visto aquela criança em mim para me fazer aquele pedido e daquela maneira tão elequente? Eu estava simplesmente sentada ao fundo da igreja, calada, tentando ouvir... Mas rezei! Rezei, lembrando-me do que Jesus prometera: "Pedi e recebereis... O pior é que Ele se " esqueceu " de nos dizer quando e como satisfaria o nosso pedido... E tantas vezes parece que não nos ouve!... É que é preciso acreditar, ter a certeza que Deus é Pai e quer o melhor para nós. E nem sempre pedimos o que é melhor...
Não seria o que Jeremias queria dizer quando punha na boca de Deus a pergunta: "como poderei chamar-te Meu filho?"
Filho é o que procura fazer a vontade do Pai, escutar a Sua voz, segui-Lo.
É a nossa manifestação de Fé e de Esperança, dizer com confiança " Senhor aqui estou. Quero fazer a TuaVontade, faz que a minha seja a Tua Vontade.
Pedir pelos tios daquela criança era rogar a Deus que fizesse que a vontade do manino fosse a Sua vontade de Pai.
Aquela criança sabia que rezar era importante para conseguir o que ele tanto desejava e pensou que eu tinha mais "poder" para fazer da vontade dele a vontade de Deus.
Impressionou-me esta confiança mas ao mesmo tempo também fiquei a pensar na necessidade de testemunho que se nos impõe.
Que viu aquela criança, numa freira silenciosa ao fundo duma igreja?
Que podem ver todos aqueles que se cruzam comigo cada dia que passa?
Que testemunho de Fé e de Amor damos aos que lidam connosco?
Como lhes transmitimos que Deus conta connosco  e estamos simplesmente a fazer a Sua vontade?
 
E o dia continuou mas eu já não tinha calor e havia muitas coisas em que pensar...
                                                      Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.
 

domingo, 2 de setembro de 2012

Morte de astros


No dia 25 de Agosto, com 82 anos, morreu Neil Armstrong o primeiro homem a pisar o solo lunar.
Foi em 1969, depois de várias tentativas falhadas.
Lembro-me perfeitamente da excitação gerada e da expectativa com que se iam seguindo as notícias televisivas.
Foi um dia único!... Hoje já temos também para festejar a chegada a Marte, mas a lua foi o primeiro passo.
Por coincidência ou não o funeral de Armstrong realizou-se no dia da 2ª lua cheia  do mês de Agosto, a chamada "lua Azul". Não porque a lua seja azul ou esteja desta cor, mas por ser um fenómeno extraordinário que só se voltará a repetir daqui a alguns anos.
 
Neil Armstrong foi piloto de testes, aviador, um dos cientistas da Nasa que, como tantos outros, estava interessado na lua e naquilo que dela se imaginava mas não se sabia.
Teve sorte de fazer parte da expedição bem sucedida que chegou à lua e foi o primeiro homem a poder pisá-la.
Quando foi dada a notícia, muitos nem queriam acreditar que fosse verdade e julgavam ficção as imagens projectadas. Mas foi realidade e Armstrong considerou o feito como " um pequeno passo para o Homem e um grande salto para a Humanidade". São palavras suas que o mundo repete.
Não sei o que estava por detrás desta frase daquele homem que tinha realizado um feito que tantos outro stinham tentado sem conseguir.
Mas, podemos perguntar-nos: de facto que era o homem face ao infinito que o rodeava?
O que haveria para além daquela cratera onde aterrou e do percurso que fez?
O homem marcou pontos porque conseguiu chegar à lua, mas isso foi um passo, talvez nem o primeiro, porque pressupôs dons, persistência, trabalho de equipa.
Evidentemente que para a Humanidade em geral e para os E.U. em particular ,foi uma grande vitória, uma prova do avanço da ciência, a demonstração de capacidades desenvolvidas e de possibilidades a conquistar.
Mas, nem Armstrong nessa altura, nem a Nasa ou os E.U. agora, se podiam ou podem capacitar que tudo sabem e tudo podem.
Há que ser humildes,  há que saber agradecer e há que acreditar que quando " o Homem sonha e Deus quer a obra nasce" ( conf. Fernando Pessoa )
 
                                                                      Ir. M. Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.
 

sábado, 1 de setembro de 2012

Joio versus trigo

O semeador saiu a semear a sua seara de trigo e julgou ter apenas lançado boa semente no seu campo. É pois com surpresa que vê surgir o joio no meio do trigo. E interroga-se: que fazer?
Também nós somos como a seara deste agricultor.
Deus colocou no nosso coração a boa semente da Verdade, do Bem, da Alegria... Mas a vida encarregou-se  de lhe associar o joio da intriga, da inveja, da mentira... 
Ao agricultor, Deus recomendou que deixasse crescer juntos trigo e joio, até à altura da ceifa. Então, seria o momento de separar a boa  da má semente.
E em nós, quando é o momento da ceifa?
Quando podemos e devemos arrancar de nós e ajudar os outros a arrancarem a semente do mal, do erro, do engano, da tristeza, da indiferença, da neurastenia?... é tão fácil instalarem-se subrepticiamente e impedirem o nosso crescimento na santidade!...
Quando devemos actuar?
Acho que nunca e sempre.
Nunca, porque há sempre outro joio a substituir o anterior, dando-nos, por vezes, a tentação de desistir.
E sempre... porque a todo o momento é hora de corrigir o que está mal, o que não nos deixa progredir, o que nos impede de testemunhar o Amor de Deus.
Sempre... sobretudo no momento em que, no silêncio, Deus nos fala ao coração e diz:Vem!
Vem... com o que tens e com o que és; vem... com o que desejas e com o que Eu pretendo de ti; vem... sem planos mas de alma aberta a deixar que aqueles que te rodeiam, os que solicitam o teu apoio, os que contam com a tua amizade e o teu carinho, os que esperam a partilha às vezes silenciosa, todos, simplesmente, vão limando as tuas arestas e arrancando as ervas daninhas , exigindo de ti mais e melhor.
Vem... mostrar que és capaz de deixar que os outros "ceifem", mesmo com dor, as lacunas que deixaste, os erros que cometeste, o bem que não realizaste.
Vem... acolher-te ao Meu celeiro, porque te escolhi desde toda a eternidade.
                                
                                                    Ir. Maria Teresa de Carvalho Ribeiro, O.P.